segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 14 - Sonhar



Ao acordar perdemos sem recuperar

Sei que, como é normal acontecer e os estudos científicos efectuados sobre o sono dos humanos mostraram, practicamente sonho todas as noites. A testemunha que me acompanha no tálamo conjugal refere que muitas noites passo por fantasias inconsciêntes, involuntárias, tão agitadas que chega a temer pela sua integridade física, dado que é sumamente exagerado e violento é o entusiasmo com que esbracejo. Felizmente, até hoje, parece que tivemos sorte ou ela é sumamente hábil em esquivar os meus golpes de karaté.

A intensidade mental dos meus sonhos não tem, que eu possa apreciar, uns periodos concretos dentro do horário dedicado ao descanso nocturno. Mas é provável que siga os periodos que se identificaram com os voluntários que se pretaram a ser estudaos. Assim sendo devo ser Não sei mais activo nas fases REM, que dizem acontecerem por mais do que uma vez aolongo do sono, do que nas fases NaoREM, que os encefalogramas mostram ser mais tranquilas. Acordo em muitas ocasiões e naquelas alturas ainda mantenho os acontecimentos oníricos bastante presentes, se bem que dispersam-se no esquecimento com rapidez.

Mesmo assim, não é infrequente que um acordar, repentino, na madrugada, sinta o tema da última sessão muito vigente, e quando o assunto do sonho é do mau agrado fecho os olhos com uma intensa vontade de recuperar o fio da meada; de conseguir empalmar a cena interrompida e poder continuar numa linha de ficção que me satisfazia.

Hoje foi um destes dias. E conseguí manter na memória parte dos sucessos que estavam presentes naquela fantasia. Uma fantasia que, como é normal, ou usual, estava baseada em factos vividos anteriormente, mesmo que modificados com a inclusão de personagens inventadas e sem seguir uma cronologia que respeitasse, mínimanete, o que podia estar na origem daquela compexidade ficcional.

Recordo que as cenas estavam situadas num cenário que pretendia ser o retrato dos locais e ambientes que vivi na primeira fase da minha vida profissional. Mas nem todas as personagens eram reconhecíveis. Por exemplo, uma das cenas acontecia numa reunião de profissionais, todos eles desconhecidos, onde se deviam debater assuntos técnicos. Esta cena terminou rápidamente, e foi subsituída por outra personificada por uma senhora, elegante, educada e de excelente trato, com idade mais perto dos 40 do que dos 35, que se apresentou como sendo a delegada para as relações públicas. Mostrou ser de uma perspicácia e intuição pouco habituais, que deu azo a umas conversas a duo cheias de subentendidos, de trocadilhos levemente picantes, que me entusiamou de tal modo que, acordando súbitamente, fiz um esforço, tremendo, mas improficuo, para retomar o sono. Curioso o facto de que esta dama não correspondia, pelo menos não a fixei como identificável a nenhuma pessoa conhecida na vida real. Aceitei a perda com uma tristeza tal que me levou a recordar esta cena, o que raramente me sucede. Sentia que aquele diálogo, estilo Sit-com estava predestinado a dar pano para mangas.

domingo, 26 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 13 - Reagir



Ficar Parados ?

Tenho estado a pensar acerca do que editei ontem, e na possibilidade de que fosse interpretado como um incitamento a ficar parados, a negar a possibilidade de manter os avanços científicos. Não era este o meu ponto de vista, mas, antes pelo contrário, manifestar o desejo pessoal, que a meu entender deveria ser comum à maioria dos humanos, para que se reagisse rápida e eficazmente contra a maré de poluição que se instalou sobre o planeta que nos acolhe.

Não parece que as alertas que diariamente nos são enviadas consigam alterar. Nem sequer minimamente, a progressão da poluição irreversível em que TODOS, mesmo que contrariados ou inconscientemente, colaboramos. Espantam-nos com o real incremento de gases poluentes na atmosfera e das consequências nefastas que daí derivam, não só no clima e nas alterações do ambiente como inclusive nas agressões para o nosso corpo que através dos muitos aditivos incorporados nos alimentos manipulados, aceitamos sem rejeitar. A evolução do mercado abastecedor nos oferece poucas alternativas para fugir dos produtos químicos perniciosos.

Inclusive os vegetais, que deveriam constituir uma boa parte da nossa alimentação omnívora, passaram a ser produzidos em regime intensivo, em condições muito diferentes das que a natureza proporciona. Os produtos de síntese que se incorporam logo nas sementes para garantir a sua germinação rentável, vão entrando numa progressão constante até o momento em que ingerimos estes vegetais, sejam tubérculos, frutas ou verdes. Inclusive devemos desconfiar dos tais produtos biológicos; não porque os seus criadores nos enganem conscientemente mas por ser muito difícil, quase impossível, escapar dos problemas sem o recurso a materiais estranhos.

Esta agressão alimentar é a menos perceptível para a cidadania, precisamente por ser quotidiana e as alternativas absolutistas devem ser muito poucas. Só aqueles que se refugiam nas zonas mais isoladas e profundas do País e optarem por um regime naturista, “retrógrado” é que podem ter algúm êxito. Mas nunca total.

O que mais nos alarma, pela sua dimensão visível e as consequências macroscópicas e microscópicas que se detectaram e publicitaram, é a utilização desmedida dos plásticos como recipientes e invólucros. Hoje é quase impossível comprar um lápis, uma triste esferográfica, ou umas peças de fruta sem que o produto não venha embalado de origem dentro de um invólucro, fechado, de plástico; ou, quando seleccionado a granel, nos exijam que o coloquemos num saco de plástico. E isso repete-se em quase tudo aquilo que é comercializado. E qual o destino destas embalagens, a maior parte sem reutilização ou que por serem tantas nem temos capacidade de as guardar ou utilizar? Evidentemente o lixo, seja urbano ou descontrolado pelo ambiente. E, por mais tentativas que se apresentem, o fluxo de desperdícios não degradáveis é de tal magnitude que não é possível “digerir”. Inclusive a queima com o propósito de gerar energia eléctrica é totalmente inócua. Muitos gases da combustão são de composição potencialmente perigosa. E restam os subprodutos. Sejam cinzas ou condensados, que constituem um novo problema a tentar resolver.

Uma das soluções que foram apresentadas, já com o problema em andamento, era o dos plástico degradáveis. De facto aquilo que acontece com estes materiais é que se desfazem em pequenas partículas, sem que a sua composição química se tenha alterado. Daí que terminam entrando na cadeia alimentar através dos animais marinhos.

E deixamos por referir, para não ser excessivamente maçadores, muitos outros produtos manufacturados, como os pneus dos veículos, que apesar de se lhes procurar aplicações, são de tal magnitude que se acumulam em perigosos aterros, sejam legais ou clandestinos.

De facto, o Homem está, despreocupadamente, cavando a sua própria sepultura.



sábado, 25 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 12 . Escolheram



Fizeram-se as melhores escolhas ?

Os membros da humanidade sempre se destacaram por ser muito curiosos, adeptos e ambiciosos. Meter o nariz no desconhecido ou em coisas que não entendiam foi sempre o caminho precursor do progresso, desde o conseguir acender uma fogueira até as invenções mais complexas.

O tema surgiu-me ao recordar as notícias recentes de que se enviou uma nave, não tripulada, recheada de instrumentos de precisão a fim de fazer medições diversas mais próximo da superfície do sol do que jamais se tinha conseguido. E, obviamente, enviar para a Terra os parametros que daí possam ter medido. Outras naves viajam, em trajectos que durarão anos terrestres para pesquisar Marte, Saturno e Júpiter, assim como algumas luas satélites destes planetas. Sempre iniciativas justificadas pela necessidade de conhecer melhor o que nos é difícil de entender. E estas pesquisas já não se resolvem por simples meditação acurada, nem sequer com o recurso de lapis e papel, ou outros meios de ajuda relativamente simples e fáceis de conseguir.

Estas e outras viagens planetárias consomem não só avultadas verbas, em geral concedidas como sendo imprescindíveis para o progresso da humanidade, como a concentração de meios humanos de primeira ordem. Tudo se iniciou com o ímpeto nascido após o terminus da segunda guerra mundial e a entrada na guerra fria, com o imediato despique entre o ocidente, liderado pelos USA e o bloco soviético, que implicou um progressivo incremento do poder militar, agora já com o recurso ao misseis balísticos intercontinentais.

Todavia estes financiamentos, fabulosos, tinham que se feitos de uma forma encoberta, dando-lhe o aspecto de pesquisas científicas, civis, a fim de não criar anticorpos com a sociedade que ainda estava numa fase de penúria. Preparou-se o ambiente mental para fazer passar como de importância inegável a tal NASA, de que tanto nos falaram e que hoje, dizem ,está com carência, parcial, de fundos.

Depois, como prémio de consolação, alguns dos logros tecnológicos conseguidos poderam ser aplicados na evolução dos artefactos disponíveis para a população com capacidade para os usufruir. Não deve ser fácil quantificar a percentagem de custos, tanto em materiais como em dedicação de humanos, que foi repercutindo, e continua a ser, na redução das verbas que se desejava fossem canalizadas para melhorar a vida normal da cidadania em geral, e qual o total que se terá consumido “a fundo perdido” com a absolescência consequente dos sucessivos projectos.

Os cientistas de hoje estão, social e económicamente, muito longe das condições com que trabalhavam os pioneiros anteriores. Um recuo temporal que não necesita ir até Copérnico ou Leonardo da Vinci. Hoje são batalhões de sábios, empregados e pagos pelo erário público, mais instalações e equipamentos sofisticados que implicam custos importantes, e tudo isto, e mais, para ser dedicado a inúmeras pesquisas que parecem ter sido inspiradas pelos cadernos de banda desenhada do séc XX, e anteriormente pelo visionário Julio Verne. O financiamento, jamais tornado público por serem Razões de Estado, e aquela ficção de que os Estados somos nós, os cidadãos não identificados, não passa de ser uma treta para nos manter calados.

Para colaborar na ocultação do que se gasta existem, entre outras fontes de financiamento, aparentemente desligadas das despesas militares, igualmente herméticas mas hábeis na camuflagem: entre elas as fundações, que, como é sabido, agem como identidades beneméritas a troco de compensações fiscais de maior vulto do que as suas doações (o balanço contabilístico lhes é sempre favorável). Assim conseguem estar bem vistas pela cidadania despreocupada. E, pelo caminho, oferecem lugares bem remunerados a políticos em fase de defeso, além da consavida receita de Quem parte e reparte ...

Não podemos negar o interesse científico que pode existir em certos trabalhos de pesquisa, mesmo no que respeita á procura de outros planetas habitáveis, enquanto que comparativamente pouco ou nada se faz para recuperar o que se tem estragado no nosso lar terrestre. Também podemos referir outros campos de saber, dando como exemplo as avultadas verbas atribuídas para completar o conhecimento das particulas elementares, daquelas em que matéria e energia se confundem como estava já previsto desde décadas atrás. Dizem que são temas da “ciencia pura”, e que já se conseguiram aplicações benéficas. Dizem-se tantas coisas...

Chegados a este ponto e alertados pelos cada vez mais densos estudos de como os humanos somos responsáveis pela degradação do ambiente e contribuímos -mesmo que parcialmente- para o aquecimento global do planeta, nos cabe perguntar, a gritos apesar de que ninguêm ouve nem atende, se as decisões de despesas para fins não de necessidade premente é justificável. Ou seja, agora que se emporcalhou todo o planeta só podemos chorar perante o leite derramado?

E a solução que nos propóem é a de imaginar um êxodo, muito problemático, para que um selecto mini-grupo de humanos va povoar outro corpo celeste compatível com a nossa fisiologia. Nada se diz do futuro que deixariam para os muitos milhões de habitantes que restariam indefesos. Serão abandonados ao triste destino de serem imolados pelos resultados da falta de critério!

É lamentável que hoje existam mentes tão primárias que não entendam, ou que nos queiram vender como real, a história bíblica da Arca de Noé. Que obviamente não passa de uma fábula. Pode ser vista como uma mensagem de esperança para quem acredita num sumo-poder. Mesmo que, parcialmente, corresponda a relatos de inundações de facto acontecidas, apesar de não serem extensivas a todo o globo. Até podemos conceder que se refere a um derreter intenso dos gelos polares e a consequente subida do nível dos mares.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 11 - Futuro


UM LINDO FUTURO

As transformações em curso são tantas e tão agressivas que, sem darmos por isso, esta-se a mudar drásticamente o esquema de vida em que os mais idosos, e até os com idade acima dos 40, fomos criados e ao que nos adaptamos. A geração que está entre os 18 e os 30-35, que no dito “nosso tempo” já estava orientada no mundo do trabalho, ou preparando-se para um nível superior, hoje, a julgar pelas notícias através de terceiros e dos meios de comunicação, arrisca-se a permanecer mais uns tempos sob o amparo dos pais, inclusive quando estes já estão sem actividade profissional remunerada.

A invasão da electrónica e dos serviços prestados através do espaço electrónico está condicionando, intensamente e com uma progressão a nível mundial, a vida de muitos, em especial aos que já manipulam estas aparelhagens desde a pré-adolescência. Estas mudanças afectam muitas actividades que eram fonte de ocupação e trabalho para muitos. As mutações neste são tantas e de tal importância que a sua listagem jamais fica actualizada. Desde a redução de efectivos humanos nos balcões dos bancos até a privatização dos serviço de correio, com a consequente fecho de postos de atendimento e a consequente redução de efectivos, conduziram a uma generalização dos contratos de trabalho a termo certo, em geral de curta duração e com salários baixos e possível exigência de horários prolongados.

O motivo com que se tenta justificar esta redução de efectivos é que o crescente custo do capítuloo chamado, eufemísticamente, “recursos humanos”, é incomportável. A solução, que tem o rabo de fora, é a de contratar estas tarefas a empresas vocacionadas para servir tarefeiros indeterminados, pagos por uma factura e sem compromissos sociais posteriores. Tais empresas são muitas vezes criadas e geridas para este fim por elementos dos quadros superiores da mesma empresa onde os eventuais terão que prestar o serviço que, em muitas ocasiões, já faziam antes de ser dispensados.

As legislações do trabalho tem sido progressivamente alteradas em prejuízo do trabalhador. Quando timidamente apareceram as empresas de trabalho temporário deu-se o mote para facilitar os contratos a prazo certo, renováveis como sendo o primeiro depois de deixar o funcionário em casa uns poucos dias, e voltar à situação inicial, como num Jogo da Glória, mas desta feita brincando abusivamente com pessoas reais. As, claro, sempre dentro da lei preparada para o efeito.

Nunca o grande capital, os grandes manipuladores, tiveram uma fase de livre acção como agora. O binómio criado com o mercado livre e a mundialização, mais a capacidade de anular as forças sindicais, com artimanhas antigas de favorecer uns tantos em detrimento dos muitos, levou a que, actualmente, as classes sociais mais sacrificadas nem sequer se apercevam de como estão presos pelo crédito e enganados com o consumismo.

Chega a ser incompreensível como não tenha surgido uma nova maré de anarquismo. Que a população ocidental aceite, convictamente, que os seus inimigos são as fábricas orientais e os migrantes, sem entender que em ambos casos existe um chamariz nas acções, concertadas, dos especuladores ocidentais. Em simultâneo não se pode entender qual a vantagem real e de longo prazo, que os capitalistas de hoje possam recolher depois de derrubar o ocidente, de onde eles são originários. Mantedo-se anónimos -mais em teoria do que na practica, pois muitos estão identificados- agem como autores de um parricídio generalizado.

Aqueles que, como eu mesmo, tivemos uma doutrinação cristâ, ou católica, com todos os defeitos que nos são conhecidos, podemos ver como um exemplo a seguir a mensagem de como Jesus afugentou os cambistas do templo. Derrotar ou eliminar os exploradores desta época não é tarefa fácil. Nem consigo imaginar um roteiro que podesse servir para tal. O ser um descontente, um inconformado tenaz, não faz de mim um revolucionário capaz de liderar um movimento social libertador. Mas isso não obsta a que não consiga antever um bom futuro para aqueles que vão continuar neste planeta.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 10 Os diabos



FORMATADOS

É excessivo atrever-me com a afirmação de que toda a humanidade está íntimemente, e até involuntáriamente, condicionada por certas noções empíricas e sem outro fundamento do que a contínua transmissão intergeneracional. Algumas destas formatações são relativamente recentes, umas positivas e outras negativas. Uma valorização que penderá num sentido ou noutrro em função da formatação mental que o indivíduo sofreu desde criança e que, com uma dose importante de atavismo, se transmitiu (e continua a ser transmitida) ao longo de gerações.

Os medos são a base de muitas decisões quase que instintivas, pois que uma vez ficou inculcada uma ideia que conduz a uma rejeição é necessário ter uma forte dose de cepticismo, de tratar de valorizar o seu critério pessoal se baseado na observação isenta de preconceitos e pressões sociais que, sempre, nos envolvem.

Pessoalmente posso referir aquilo que pude observar directamente e, depois, ligar através do estudo e da consulta de muitas fontes, desnecessárias e escolhidas, mas que me ajudaram no propósito de me libertar dos medos ancestrais.

Quem me conhece sabe, e confirmou visualmente, que sou bastante pragmático, dentro do possível numa mente sujeita a inúmeras influências, e a certa altura, analizando os contos e histórias com que se educaram as crianças ao longo dos tempos, procurei identificar os logros e tretas que detrás delas se esconderam, só com o propósito de criar umas adversões, uns receios, tão cimentados na mente que mesmo depois de atingir a idade adulta já é difícil neutralizar.

Os que se preocupam, e bem, com o excesso de consumo de energia e, nos mostram, com o recurso de fotografias nocturnas tiradas desde satélites artificiais, a loucura do excesso de luz artificial que proliferou no globo terrâqueo. Uma poluição lumínica que concretamente dificulta a observação astronómica. Tudo isto deve-se à dificuldade, ou ao não desejo, de refrear o receio que uma escuridão intensa nos provoca. É possível que muitos de nós nunca se dedicaram a imaginar como é que as quatro ou cinco gerações anteriores conseguiram sobrevivar em ambientes nocturnos totalmente na escuridão, a não ser em noites de lua cheia. As pessoas tentaram ter alguma luz no seu espaço familiar e até algumas tentativas de fornecer uma iluminação pública, que sendo débil dava lugar a sombras tenebrosas, que pouco sossegavam o viandante.

Por isso não nos deve admirar que a noite escura, assim como grutas ou outros locais mal iluminados, fossem considerados como locais propícios a estarem habitados por espíritos nefastos, perversos, perigosos. Somos um mamífero mal adaptado biológicamente para a visão nocturna, mas, em compensação, de fácil adesão a relatos e teorias indutoras de terror.
Como sabemos da autenticidade da máxima que nos alerta acerca de Quem conta um conto acrescenta um ponto, entendemos a forma como foram evoluíndo as mitologias em geral, entre elas as que estão na base de todos os credos. E de igual modo observamos que em todas estas criações especulativas e fantasiosas, existe uma base comum : O MEDO ao desconhecido. Um medo que é edificado, sempre, sobre factos que não se podem verificar directamente. E a partir desta base de credulidade incontestável se foram gerando temores mais ou menos concretos, mas fáceis de atribuir a seres reais, culpabilizando-os de acções inaceitáveis.

Uma das crenças mais difundidas na humanidade actual é a da existência do diabo, como ente misterioso, responsável de todos os males, é que se admite existir sem poder duvidar. E entre os seus imaginados atributos destacam a cauda e os cornos. Cornos que, lógicamente, nos causam receio se pensarmos na hipótese de estar ao alcance de um animal munido destes apéndices para ataque e defesa, e que nós, como animal desprotegido, nos sentimos vulneráveis. É automático e universal este medo, e daí se entende que todos os diabos que nasceram entre os povos do mundo tenham as suas testas povoadas de armas de ataque.

Até aí nada de estranho. Aquilo que me admirou foi o verificar que, em pleno século XXI os adultos, que manipulam tanta tecnologia; que sabem das aplicações constantes do virtual; que jogam teimosamente com uma extensa panóplia de seres ameaçadores sem que isso devesse interferir, negativamente, na sua visão sobre a realidade, depois, quando enfrentados com uma imagem física que pretende ser um revulsivo capaz de ultrapassar os atavismos ancestrais, rejeitem liminarmente o ter por perto um objecto que esteja em contra do que carrega na sua mente mais irracional.

Poderia citar situações concretas, mas, para quem me conheça, é desnecessário.

domingo, 19 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 9 - Descomprometidos




 APARENTAR SER DEMÓCRATA

Neste mundo, mesmo que esta denominação a entendermos como ultrapassando a área restrita onde nos movemos, há de tudo, por isso não estranhamos da existência de pessoas que são consideradas como bem formadas e elaspróprias partilham desta convicção, e por isso inclusive podem manifestar-se como firmes demócratas. Contudo quando observamos minuciosamente o seu real comportamento em relação aos outros, nomeadamente com aqueles que, casualmente, não comungam exactamente das suas opiniões, agem como verdadeiros adeptos da ditadura mais cega.

Infelizmente verificamos, pessoalmente, que existem individuos que colocam as suas convicçes e até compromossos políticos, económicos, profissionais, ideológicos ou de outro tipo como sendo um muro instransponível. Num grau tão supremo que nem aceitam a hipótese de oferecer ao cidadão que rejeitam tenha a oportunidade de comentar, e não digo defender, as suas convicções próprias. Tal atitude pode corresponder ao íntimo receiode que os argumentos do contrário o possam demover das suas férreas convicções. Ou seja, que no fundo não está tão seguro quanto apregou e faz alarde perante os colegas. É, visceralmente indeciso.

Pode parecer um exagero aquilo que deixei esquematizado, mas qualquer um dos que leia isto já viu, ou como agem os obcecados, como se digladiam ou se ignoram os adeptos de dois clubes rivais. E se formos para o campo da política as situações não diferem muito. Mas deviam deixar de ser assim pelo menos aqueles que se autoqualificam como evoluídos, respeitadores, demócratas de fachada, mas que mostram o que de facto lhes anda por dentro quando rejeitam, desprezam, tentam silenciar com um tapa, seja real ou metafórico, aquele que opina de outra forma.

O mais difícil em sociedade é ser e manter-se imparcial, sem cair na obstinação, na falsidade julgada conveniênte, no facciosismo revoltante. O que de facto é independente, descomprometido, estará sempre livre para poder optar numa doutrina, sem que com isso renegue da anterior já que tal não existia na sua mente.

sábado, 18 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 8 As convicções


AS CONVICÇÕES MUDAM

Mudar não tem nada de extraordinário. Se admitirmos que as células que constituem o nosso corpo sofrem uma substituição, paulatina certamente, que faz com que, num periodo entre seis e oito anos, tudo o que constitui a nossa pessoa é novo. Permitam-me que duvide desta totalidade, sem ter razões sérias para duvidar, mas nem que sejam as células cerebrais que nos posibilitam ter memórias bastante afastadas do momento actual.

De igual modo admito, sem provas que me avalem, que os ossos, enquanto não sofrem a descalcificação da velhice, possam ter os mesmos componentes minerais que auferem desde a idade adulta. Mas aceito que existe uma renovação de tecidos Assim como que a sábia natureza, tal como se encarrega de manter funcionais os elementos essenciais, com novas equipas de substituição, também possibilita o nascimento de tumores que não tinhamos.

Se de facto assim é tampouco nos deve causar admiração que os nossos sentimentos, os nossos ódios e querenças, convicções em geral, que consideravamos estarem fixas “a pedra e cal”, já diferem bastante do que foram na década anterior. Não será na totalidade, pois deixariamos de ser o indivíduo que os outros conheceram, mas as alterações pode que se apreciem sem esforço. Socorrendo-me de uma frase célebre mutatis mutandis o classicismo nos avisa da necessidade de mudar ou actualizar para não perder a identidade.

Uma das situações, entre muitas, que pode empurrar as pessoas a mudar de convicções está no casamento, na vida em comum de dois seres estruturalmente diferentes e competencias fisiológicas muito diferentes, apesar de complementares. No caso, hoje normal, de a selecção de conjugue ser livre e dependente do ajustamento de características individuais dos futuros esposos, a vida em comum vai evidenciar, mais cedo ou mais tarde, da existência de convicções, manias, costumes, preceitos e uma longa lista de pequenas diferenças que, se se deixam crescer em importância, podem empurrar aquele casal para uma ruptura.

Nem sempre se chega a esta situação extrema. Mas para isso sabemos que um deles, ou ambos, tem que ceder nos pontos mais propícios a se tornarem fonte de conflitos. Quem conhecia com certa profundidade algum dos dois membros vai notando, com algum espanto, como as cedências que se fazem, em especial quando são mais numerosas num deles do que no outro, os descaracteriza. Dizemos que mudou muito, que está como o dia para a noite, que é um pau mandado, dominado pela outra parte. Nem sempre esta cedência é notória, de um nível alarmante, assim como há casais em que é ela que abdica da sua personalidade e noutros sucede o inverso.

As mudanças que citei são uma entre outras tantas possíveis, e que nem sempre se atribuem a factores tão determinados. Um exemplo que me ocorreu, e que me foi referido por um popular practicamente sem ilustração, digamos analfabeto, e que verifiquei estar compilado num volume de refões, diz Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu . Alerta-nos de como mudam certas pesoas quando as voltas da vida os situam bastante acima da camada de onde vieram. Também se podem avaliar as mudanças de caracter dos que abjuram de um credo para outro; ou das que mudaram de partido. Em geral o neófito faz o possível e impossível para se mostrar mais pertinaz na defesa da nova filiação do que os veteranos. Isso se refere no ditado Mudam os ventos, mudam os pensamentos.