quarta-feira, 22 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES – 10 Os diabos



FORMATADOS

É excessivo atrever-me com a afirmação de que toda a humanidade está íntimemente, e até involuntáriamente, condicionada por certas noções empíricas e sem outro fundamento do que a contínua transmissão intergeneracional. Algumas destas formatações são relativamente recentes, umas positivas e outras negativas. Uma valorização que penderá num sentido ou noutrro em função da formatação mental que o indivíduo sofreu desde criança e que, com uma dose importante de atavismo, se transmitiu (e continua a ser transmitida) ao longo de gerações.

Os medos são a base de muitas decisões quase que instintivas, pois que uma vez ficou inculcada uma ideia que conduz a uma rejeição é necessário ter uma forte dose de cepticismo, de tratar de valorizar o seu critério pessoal se baseado na observação isenta de preconceitos e pressões sociais que, sempre, nos envolvem.

Pessoalmente posso referir aquilo que pude observar directamente e, depois, ligar através do estudo e da consulta de muitas fontes, desnecessárias e escolhidas, mas que me ajudaram no propósito de me libertar dos medos ancestrais.

Quem me conhece sabe, e confirmou visualmente, que sou bastante pragmático, dentro do possível numa mente sujeita a inúmeras influências, e a certa altura, analizando os contos e histórias com que se educaram as crianças ao longo dos tempos, procurei identificar os logros e tretas que detrás delas se esconderam, só com o propósito de criar umas adversões, uns receios, tão cimentados na mente que mesmo depois de atingir a idade adulta já é difícil neutralizar.

Os que se preocupam, e bem, com o excesso de consumo de energia e, nos mostram, com o recurso de fotografias nocturnas tiradas desde satélites artificiais, a loucura do excesso de luz artificial que proliferou no globo terrâqueo. Uma poluição lumínica que concretamente dificulta a observação astronómica. Tudo isto deve-se à dificuldade, ou ao não desejo, de refrear o receio que uma escuridão intensa nos provoca. É possível que muitos de nós nunca se dedicaram a imaginar como é que as quatro ou cinco gerações anteriores conseguiram sobrevivar em ambientes nocturnos totalmente na escuridão, a não ser em noites de lua cheia. As pessoas tentaram ter alguma luz no seu espaço familiar e até algumas tentativas de fornecer uma iluminação pública, que sendo débil dava lugar a sombras tenebrosas, que pouco sossegavam o viandante.

Por isso não nos deve admirar que a noite escura, assim como grutas ou outros locais mal iluminados, fossem considerados como locais propícios a estarem habitados por espíritos nefastos, perversos, perigosos. Somos um mamífero mal adaptado biológicamente para a visão nocturna, mas, em compensação, de fácil adesão a relatos e teorias indutoras de terror.
Como sabemos da autenticidade da máxima que nos alerta acerca de Quem conta um conto acrescenta um ponto, entendemos a forma como foram evoluíndo as mitologias em geral, entre elas as que estão na base de todos os credos. E de igual modo observamos que em todas estas criações especulativas e fantasiosas, existe uma base comum : O MEDO ao desconhecido. Um medo que é edificado, sempre, sobre factos que não se podem verificar directamente. E a partir desta base de credulidade incontestável se foram gerando temores mais ou menos concretos, mas fáceis de atribuir a seres reais, culpabilizando-os de acções inaceitáveis.

Uma das crenças mais difundidas na humanidade actual é a da existência do diabo, como ente misterioso, responsável de todos os males, é que se admite existir sem poder duvidar. E entre os seus imaginados atributos destacam a cauda e os cornos. Cornos que, lógicamente, nos causam receio se pensarmos na hipótese de estar ao alcance de um animal munido destes apéndices para ataque e defesa, e que nós, como animal desprotegido, nos sentimos vulneráveis. É automático e universal este medo, e daí se entende que todos os diabos que nasceram entre os povos do mundo tenham as suas testas povoadas de armas de ataque.

Até aí nada de estranho. Aquilo que me admirou foi o verificar que, em pleno século XXI os adultos, que manipulam tanta tecnologia; que sabem das aplicações constantes do virtual; que jogam teimosamente com uma extensa panóplia de seres ameaçadores sem que isso devesse interferir, negativamente, na sua visão sobre a realidade, depois, quando enfrentados com uma imagem física que pretende ser um revulsivo capaz de ultrapassar os atavismos ancestrais, rejeitem liminarmente o ter por perto um objecto que esteja em contra do que carrega na sua mente mais irracional.

Poderia citar situações concretas, mas, para quem me conheça, é desnecessário.

domingo, 19 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 9 - Descomprometidos




 APARENTAR SER DEMÓCRATA

Neste mundo, mesmo que esta denominação a entendermos como ultrapassando a área restrita onde nos movemos, há de tudo, por isso não estranhamos da existência de pessoas que são consideradas como bem formadas e elaspróprias partilham desta convicção, e por isso inclusive podem manifestar-se como firmes demócratas. Contudo quando observamos minuciosamente o seu real comportamento em relação aos outros, nomeadamente com aqueles que, casualmente, não comungam exactamente das suas opiniões, agem como verdadeiros adeptos da ditadura mais cega.

Infelizmente verificamos, pessoalmente, que existem individuos que colocam as suas convicçes e até compromossos políticos, económicos, profissionais, ideológicos ou de outro tipo como sendo um muro instransponível. Num grau tão supremo que nem aceitam a hipótese de oferecer ao cidadão que rejeitam tenha a oportunidade de comentar, e não digo defender, as suas convicções próprias. Tal atitude pode corresponder ao íntimo receiode que os argumentos do contrário o possam demover das suas férreas convicções. Ou seja, que no fundo não está tão seguro quanto apregou e faz alarde perante os colegas. É, visceralmente indeciso.

Pode parecer um exagero aquilo que deixei esquematizado, mas qualquer um dos que leia isto já viu, ou como agem os obcecados, como se digladiam ou se ignoram os adeptos de dois clubes rivais. E se formos para o campo da política as situações não diferem muito. Mas deviam deixar de ser assim pelo menos aqueles que se autoqualificam como evoluídos, respeitadores, demócratas de fachada, mas que mostram o que de facto lhes anda por dentro quando rejeitam, desprezam, tentam silenciar com um tapa, seja real ou metafórico, aquele que opina de outra forma.

O mais difícil em sociedade é ser e manter-se imparcial, sem cair na obstinação, na falsidade julgada conveniênte, no facciosismo revoltante. O que de facto é independente, descomprometido, estará sempre livre para poder optar numa doutrina, sem que com isso renegue da anterior já que tal não existia na sua mente.

sábado, 18 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 8 As convicções


AS CONVICÇÕES MUDAM

Mudar não tem nada de extraordinário. Se admitirmos que as células que constituem o nosso corpo sofrem uma substituição, paulatina certamente, que faz com que, num periodo entre seis e oito anos, tudo o que constitui a nossa pessoa é novo. Permitam-me que duvide desta totalidade, sem ter razões sérias para duvidar, mas nem que sejam as células cerebrais que nos posibilitam ter memórias bastante afastadas do momento actual.

De igual modo admito, sem provas que me avalem, que os ossos, enquanto não sofrem a descalcificação da velhice, possam ter os mesmos componentes minerais que auferem desde a idade adulta. Mas aceito que existe uma renovação de tecidos Assim como que a sábia natureza, tal como se encarrega de manter funcionais os elementos essenciais, com novas equipas de substituição, também possibilita o nascimento de tumores que não tinhamos.

Se de facto assim é tampouco nos deve causar admiração que os nossos sentimentos, os nossos ódios e querenças, convicções em geral, que consideravamos estarem fixas “a pedra e cal”, já diferem bastante do que foram na década anterior. Não será na totalidade, pois deixariamos de ser o indivíduo que os outros conheceram, mas as alterações pode que se apreciem sem esforço. Socorrendo-me de uma frase célebre mutatis mutandis o classicismo nos avisa da necessidade de mudar ou actualizar para não perder a identidade.

Uma das situações, entre muitas, que pode empurrar as pessoas a mudar de convicções está no casamento, na vida em comum de dois seres estruturalmente diferentes e competencias fisiológicas muito diferentes, apesar de complementares. No caso, hoje normal, de a selecção de conjugue ser livre e dependente do ajustamento de características individuais dos futuros esposos, a vida em comum vai evidenciar, mais cedo ou mais tarde, da existência de convicções, manias, costumes, preceitos e uma longa lista de pequenas diferenças que, se se deixam crescer em importância, podem empurrar aquele casal para uma ruptura.

Nem sempre se chega a esta situação extrema. Mas para isso sabemos que um deles, ou ambos, tem que ceder nos pontos mais propícios a se tornarem fonte de conflitos. Quem conhecia com certa profundidade algum dos dois membros vai notando, com algum espanto, como as cedências que se fazem, em especial quando são mais numerosas num deles do que no outro, os descaracteriza. Dizemos que mudou muito, que está como o dia para a noite, que é um pau mandado, dominado pela outra parte. Nem sempre esta cedência é notória, de um nível alarmante, assim como há casais em que é ela que abdica da sua personalidade e noutros sucede o inverso.

As mudanças que citei são uma entre outras tantas possíveis, e que nem sempre se atribuem a factores tão determinados. Um exemplo que me ocorreu, e que me foi referido por um popular practicamente sem ilustração, digamos analfabeto, e que verifiquei estar compilado num volume de refões, diz Não peças a quem pediu nem sirvas a quem serviu . Alerta-nos de como mudam certas pesoas quando as voltas da vida os situam bastante acima da camada de onde vieram. Também se podem avaliar as mudanças de caracter dos que abjuram de um credo para outro; ou das que mudaram de partido. Em geral o neófito faz o possível e impossível para se mostrar mais pertinaz na defesa da nova filiação do que os veteranos. Isso se refere no ditado Mudam os ventos, mudam os pensamentos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 7 Quem é culpado ?

PROCURAR UM CULPADO

Quando nos surge pela frente um acontecimento que não admitimos estar influenciado pelas forças da natureza e, pelo contrário, consideramos que naquilo pode existir uma acção ou neglicência humana, a quem podemos atribuir a culpa do que.directa ou indirectamente nos afectou, ou simplesmente que nos emocionou intensamente de modo negativo, o instinto nos leva a procurar um culpado. Os meios de comunicação social, fazendo-se eco deste sentimento primário, colaboram com bastante rapidez apontando o dedo à destra ou à sinistra, ou mesmo frontalmente, ou à retaguarda. Não fica seta alguma na Rosa dos Ventos que não se procure culpar..

É uma situação clássica, que inclusive vem referida no Antigo Testamento, individualizando o pecador propício como o ainda hoje referido bode expiatório. No relato bíblico nem sequer se põe a hipótese de que o bode (era mesmo um bode, ou mais propriamente dois, pois um era sacrificado in loco e o outro ficava refém das culpa alheias) fosse culpado, nem sequer em pensamento dado que sendo um animal irracional não se lhe podiam atribuir acções reprováveis propositadas, ou seja ter cometido actos maldosos premeditadamente. Mesmo assim o bode era sacrificado a Deus para que com ele se lavassem todas as culpas que se aatribuíssem ao povo judeu.

Nestes dias em que vivemos ainda estamos sob o impacto da catástrofe ocorrida num viaducto em Génova. Já começaram a ser apresentadas hipóteses e razões para explicar como e porque aquele viaducto não aguentou a idade nem a deterioração; que não devia ter chegado aquele extremo. A partir de agora, se não começaram já as mal disfarçadas acusações pelo menos já se iniciaram as tácticas dos inquéritos. Podemos admitir que serão tantos os indiciados, além dos que  por enquanto permanecem na sombra, que pode suceder como num famoso Congresso Eucarístico em que foram tantos sacerdores, bispos, cardeais, superiores das ordens e outros que tais desejossos de oficiar uma missa que se verificou não ter suficientes altares nem acólitos disponíveis para o efeito.

Seja qual for o caminho que o inquérito siga é provável que, tal como sucede entre nós, jamais se chegue ao fim do novelo. Ou como se diz coloquialmente A culpa morrerá solteira, mesmo que sem a virgindade suposta. Por trás do pano certamente que existiram conluios, bonus, gratificações, subornos, como prefiram definir. Na Itália, apesar de que na península ibérica existem alunos distinguidos neses campos, a sua experiência dizem que é enorme, e que não há uma obra pública na qual os interesses "ocultos" não tenham comido uma boa parte do bolo. Aqui não deve ser muito diferente.

Mas, para poder resguardar as personagens de primeiro plano, que obviamente não comparecem nem querem pisar o palco, é necessário, sempre, uma vítima, mesmo que conivente e devidamente compensada em metálico, que possam apresentar como sendo o culpado. Veremos quem será o bode expiatório, ou quando ele for referido nos jornais e noticiários da Itália aqui já não seja considerado ter o valor de uma notícia. Mesmo importante, também é fundamental a apresentaçao dum bode expiatório, que represente a solução aceitável para a cidadania crédula, é ainda mais premente que este capítulo do romance seja ventilado com pompa e circunstância. Tal como se procedia ao cumprimento das sentença do Santo Ofício na Praça Pública, e se fosse em frente do Paço Real ainda melhor.

Quando eu trabalhava na fábrica de cimento era com alguma frequência que nos confrontavam com reclamações de acidentes nas obras, nomeadamente desabamentos. Aquilo que para os donos da obra e os empreiteiros seria mais fácil e conveniente era que a culpa fosse do cimento, que não prestava! E ali me deslocava para tentar ver o que, de facto, acontecera. A listagem de barbaridades era longa, apesar de a maioria das obras terem uma tabuleta com o nome do Técnico Responsável, practicamente um eterno ausente. De entre muitas asneiras posso referir a fraca dosagem do betão, o terem amassado com um grande excesso de água (ainda não era extensivo o uso de vibradores para ajudar a  assentar o betão); colocarem as armaduras ao contrário (a zona de tracção em cima e a de compressão em baixo); não respeitarem o tempo de cura do betão depois de colocado em obra, e daí desencofrar e retirar suportes antes o betão estar resistente; colocar ferro de calibre mais baixo do que estava no projecto, etc. 

Tudo se resolvia amigávelmente, sem litígio, mas com a garantia de que teriam mais cuidado. Nós, os da casa, dizíamos sempre que a culpa era do fulano que estava na betoneira. Ou seja, o mais fraco é que passa a ser o bode expiatório.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 6 Viver e Sonhar

VIVEMOS E SONHAMOS

Além do que de facto vivemos, do que nos envolve e no que nós envolvemos aos outros, existe um capítulo, quase sempre activo, que está povoado por aquilo que imaginamos, coisas que só podemos aceitar como válidas se as conseguirmos separar da realidade. E nem sempre é fácil !

Podemos considerar que a maior parte das invenções e descobertas, para não dizer que todas para não ser qualificados como exagerados, foram o resultado utilitário da interpretação e aplicação real de factos acontecidos casualmente. Ou de procurar materializar uma ideia nova, que estava fora da realidade do momento. Para ser condescendentes podemos qualificar estes felizes lampejos como fruto da inspiração, e, como é repetido amiúde, de muito pensar e suar.

O homem.visto com um ente bisexual, ou até multi~sexual se aderirmos às modernas aceitações sociais, tem uma variedade considerável de comportamentos individuais. E uma das classes presentes  -mas minoritária numéricamente- é propensa a encontrar problemas e procurar soluções, a ser possível enfrentando-os sob pontos de vista, ou de avaliação, diferentes da rotina habitual. É na procura de novos caminhos, de novas soluções que se cultiva a inventiva, a criatividade, pois está na  vontade ferrenha de enfrentar problemas, em geral ainda não bem definidos ou estudados em profundidade, que a humanidade progressa.

E o facto de nos depararmos com uma peada realidade, em que a famosa gravidade teve a sua presença activa, ontem ficamos espantados pelo derrube de um viaduto em Génova. Uma obra de betão armado, bastante recente, mas que desabou estando em serviço interrupto. Agora nos contam que este viaducto estava sujeito a uma pretensa vigilância ténica, que monotirizava o seu estado estrutural, e até que recentemente se fizeram trabalhos de reforço estrutural (?) 

Vai correr muita tinta antes que se digam as verdades sobre o que causou o colapso do viaduto. Mas tenho a certeza de que todos os profissionais em projecto, cálculos e seguimento de obras deste tipo devem estar pensando que ali houve um mau trabalho.

Apesar de ter visto exclusivamente as imagens que nos puseram à disposição, fica-se com a impressão de que, além de um betão pobre, mal doseado e pouco controlado, aqueles destroços mostraram uma carência acentuada do material que compensa o fraco comportamento do betão aos esforços de tracção e flexão. Dito de outra forma. As fracturas que mostram não tem a quantidade de aço a que estamos habituados. E, possívelmente, não foram aplicadas as técnicas de pre-tensão hoje consideradas indispensáveis em plataforma sujeitas a intenso tráfego pesado. Pode ser, também, que os apoios dos tabuleiros às mensulas que se encarregavam de transferir esforços ao terreno, não estivessem correctamente estudadas e executadas.

O que deixo aqui são umas observações prévias, não totalmente fundamentadas pois que não fiz uma avaliação visual no terreno, mas que tem como substrato o facto de ser reconhecido que as obras públicas rodoviárias tem sido um sector muito dominado pelas máfias italianas, e indirecatmente pelo capital, incluídos os santificados bancos. Não estou muito convencido de que alguma vez nos contem a realidade que se vai esconder detrás deste colapso e das suas vítimas.

Mais. Como esta via é considerada fundamental para o escoamento de mercadorias, seja entrando ou saído do porto e área circundante, depressa se tratará de substituir esta "obra de arte" -é assim que no meio se qualificam estes projectos de engenharia civil- por outra, que inefávelmente será adjudicada a um novo consórcio igualmente dominado por grupos de "patriotas".

A célebre frase de Shakespeare na peça Hamlet, "algo de podre cheira no reino de Dinamarca" pode aplicar-se, sem receio de difamar, em todo o mundo.

domingo, 12 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 5 Conversos

CONVERSOS

Habitualmente são entendidos como Conversos os individuos que abjuram de uma religião para aderirem a outra, em geral incompatível com a anterior, mesmo que tenham raízes comuns. Mas creio que esta qualificação que peca por corresponder a uma convicção nva em relação à precedente, pode aplicar-se em outras muitas mudanças que, de um modo geral, não são vistas com agrado pela maioria da população que, sem ser exageradamente conservadora, prefere manter-se no mesmo lao da estrada da vida, pelo menos enquanto não blhe surja pela frente um somatório de razões que o impulsem a mudar.

Entrando no domínio da conversa castiça, informal, sabemos que no domínio da política, tanto rasteira como de altos voos, é corrente vir a saber que fulano ou sicrano mudou de parecer, ou melhor de partido, sem que o seu comportamento anterior, por vezes até propenso a discursos inflamados, que em nada indiciavam o propósito de filiar-se, repentinamente, num sector que, pelo que se depreende, lhe augura um futuro mais promissor, e a ser possível rentável. O cidadão comum, aquele que não muda de parecer como de camisa, não aprecia estas mudanças, e por isso há muitos anos que os qualifica como serem Vira casacas.

Existe uma característica, quase geral, dos indivíduos que súbitamente mudam de campo, seja na religião, na já referida política, no sector económico ou até no clubismo dito desportivo, e usam com gosto esta identificação com um orgulho -aparente, nem sempre credível- que nos surpreende. É o facto de se tornarem notórios pela dedicação com que, para ganhar méritos, tornam-se defensores e propagandistas intensos do novo amor.

Um exemplo actual, que só atinge a política lateralmente, é o nos relatarem como alguns dos terroristas que se arvoram intensas motivações islãmicas, nem sempre são originários de famílais que praticam esta fé. Alguns dos que se imolam para poder atingir uma quantidade de vítimas entre a população civil que, para eles, serão inimigos do Islão, mas que de facto pode corresponder a pessoas desconhecidas, inocentes,.Muitos destes mártires tem na sua ficha o facto de se terem convertido ao Islão recentemente, e decidirem mostrar a sua fé intensa imolando-se por uma causa que passou a ser sua pouco tempo atrás.

Sem ser necesário tornarem-se bombistas suicidas, o querer destaque perante os novos parceiros, após a sua recente incorporação ao grupo, os leva a  comportarem-se de modo semelhante ao daqueles que qualificamos como mais papistas que o Papa.

Uma situação que não é nova entre conversos, especialmente entre os que renegaram do judaismo para se incorporar na fé católica, e passarem á qualificação social de cristãos novos ou marranos (um sinónimo de porcos) encontramo-lo nalgumas biografias, pouco divulgadas, de santos e santas que, sendo cristãos novos, se tornaram estudiosos e especuladores teológicos do catolicismo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 4 Transplantes



A colocação de órgãos usados

A partir de l967, data em que o Dr. Christian Barnard fez a habilidade de substituir um coração humano, com falhas de funcionamento consideradas como irrecuperáveis, entramos na era da substituição de peças biológicas defeituosas por outras usadas mas consideradas como em bom estado. Um pouco levianamente compara-se ao mecânico atrevido que para reparar um carro já com bastantes quilómetros de vida e, portanto, já fora das garantias, vai procurar uma peça usada num sucateiro de “salvados”.

A partir da abertura da caça nas substituições já se abriram alguns caminhos diferentes, desde a incorporação de válvulas de suíno, às tentativas de abastecer entre alguns primatas -sem grande resultado- até a implantação de órgãos artificiais, fabricados com materiais não rejeitáveis e com força motriz de pilhas galvânicas.

Os avanços e recuos deram incentivos para que os investigadores desbravassem os problemas. E aquilo que hoje já está no conhecimento da maioria dos cidadãos, é que antes de se tentar uma substituição é indispensável fazer um estudo de compatibilidade, a fim de reduzir o perigo de rejeição do órgão “de segundo corpo”, sem que todavia se tenha conseguido eliminar este problema por completo, apesar dos fármacos que o indivíduo receptor tem que ir ingerindo para manter aquilo que não nasceu com ele.

Todos temos notícia de que se substituem corações, pulmões, rins,  bocados de fígado, veias e artérias. Que se conseguem reimplantar, sob certas condições, componentes de membros amputados. E até nos contaram da colocação de uma face completa de um cadáver num indivíduo que ficara desfigurado num incêndio.

O que não ficou esclarecido é como se distribuirão as peças no dia do juízo final... Mas como esta situação não sabemos quando ocorrerá, optamos por não nos preocupar. Mesmo assim a nossa estabilidade mental continua dependente do que a maioritária Igreja Católica, apostólica e romana, nos devia esclarecer.

E é precisamente aqui, neste tema tão actual, que entre nós foi badalado a propósito do vencedor do festival das cantigas do ano passado, que vou fazer referência a quem podemos considerar serem os mais importantes precursores, destas técnicas de transplantes entre humanos. Vamos recuar alguns séculos:

Santos Cosme e Damião (1)

Os Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos, morreram por volta de 300 d.C. Crê-se que foram médicos, e sua santidade é atribuída pelo motivo de haverem exercido a medicina sem cobrar por isso. Devotados à fé. São considerados patronos dos médicos cirurgiões. Mas em geral é referido só o São Cosme.


Na Igreja Católica sua festa é celebrada no dia 26 de setembro, de acordo com o atual Calendário Litúrgico Romano do Rito Ordinário, e no dia 27 de setembro, pelo Calendário Litúrgico Romano do Rito Extraordinário. Na Igreja Ortodoxa são celebrados no dia 1 de novembro e também em 1 de julho pelos ortodoxos gregos. 

O milagre atribuído a SS. Cosme e Damião e que lhes abriu a possibilidade de santificação consistiu no seguinte: um sacristão tinha uma perna gangrenada num estado tão avançado que estava ás portas da morte. Nem sequer a amputação era garantia de sobrevivência. Tendo sido chamados os irmãos beneméritos e sabedores, estes, enquanto o doente dormia, amputaram-lhe a perna doente e substituíram-na pela de um etíope recém sepultado, curando-o. Foi uma enxertia atrevida mas bem lograda.

Após encontrar esta referência senti uma certa estranheza pelo facto de terem utilizado um membro originalmente de um indivíduo de pele escura e implanta-lo, sem problemas de tipo social, num indivíduo que se admite ser de tez clara. Hoje, esta miscigenação não causa pruridos quando se trata de substituir órgãos internos. Mas, não recordo ser citado, modernamente, uma operação semelhante à que Cosme e Damião, à desgarrada, fizeram com o membro do etíope e o sacristão. Especulando sem bases posso imaginar que o Dr. Menguele (célebre médico nazi, pioneiro em operações de novo cunho -na época- com seres humanos) não deixaria de tentar progressos neste campo da cirurgia.

(1) os elementos que se seguem foram transcritos (+ ou -) de um site da Wikipédia