domingo, 12 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 5 Conversos

CONVERSOS

Habitualmente são entendidos como Conversos os individuos que abjuram de uma religião para aderirem a outra, em geral incompatível com a anterior, mesmo que tenham raízes comuns. Mas creio que esta qualificação que peca por corresponder a uma convicção nva em relação à precedente, pode aplicar-se em outras muitas mudanças que, de um modo geral, não são vistas com agrado pela maioria da população que, sem ser exageradamente conservadora, prefere manter-se no mesmo lao da estrada da vida, pelo menos enquanto não blhe surja pela frente um somatório de razões que o impulsem a mudar.

Entrando no domínio da conversa castiça, informal, sabemos que no domínio da política, tanto rasteira como de altos voos, é corrente vir a saber que fulano ou sicrano mudou de parecer, ou melhor de partido, sem que o seu comportamento anterior, por vezes até propenso a discursos inflamados, que em nada indiciavam o propósito de filiar-se, repentinamente, num sector que, pelo que se depreende, lhe augura um futuro mais promissor, e a ser possível rentável. O cidadão comum, aquele que não muda de parecer como de camisa, não aprecia estas mudanças, e por isso há muitos anos que os qualifica como serem Vira casacas.

Existe uma característica, quase geral, dos indivíduos que súbitamente mudam de campo, seja na religião, na já referida política, no sector económico ou até no clubismo dito desportivo, e usam com gosto esta identificação com um orgulho -aparente, nem sempre credível- que nos surpreende. É o facto de se tornarem notórios pela dedicação com que, para ganhar méritos, tornam-se defensores e propagandistas intensos do novo amor.

Um exemplo actual, que só atinge a política lateralmente, é o nos relatarem como alguns dos terroristas que se arvoram intensas motivações islãmicas, nem sempre são originários de famílais que praticam esta fé. Alguns dos que se imolam para poder atingir uma quantidade de vítimas entre a população civil que, para eles, serão inimigos do Islão, mas que de facto pode corresponder a pessoas desconhecidas, inocentes,.Muitos destes mártires tem na sua ficha o facto de se terem convertido ao Islão recentemente, e decidirem mostrar a sua fé intensa imolando-se por uma causa que passou a ser sua pouco tempo atrás.

Sem ser necesário tornarem-se bombistas suicidas, o querer destaque perante os novos parceiros, após a sua recente incorporação ao grupo, os leva a  comportarem-se de modo semelhante ao daqueles que qualificamos como mais papistas que o Papa.

Uma situação que não é nova entre conversos, especialmente entre os que renegaram do judaismo para se incorporar na fé católica, e passarem á qualificação social de cristãos novos ou marranos (um sinónimo de porcos) encontramo-lo nalgumas biografias, pouco divulgadas, de santos e santas que, sendo cristãos novos, se tornaram estudiosos e especuladores teológicos do catolicismo.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 4 Transplantes



A colocação de órgãos usados

A partir de l967, data em que o Dr. Christian Barnard fez a habilidade de substituir um coração humano, com falhas de funcionamento consideradas como irrecuperáveis, entramos na era da substituição de peças biológicas defeituosas por outras usadas mas consideradas como em bom estado. Um pouco levianamente compara-se ao mecânico atrevido que para reparar um carro já com bastantes quilómetros de vida e, portanto, já fora das garantias, vai procurar uma peça usada num sucateiro de “salvados”.

A partir da abertura da caça nas substituições já se abriram alguns caminhos diferentes, desde a incorporação de válvulas de suíno, às tentativas de abastecer entre alguns primatas -sem grande resultado- até a implantação de órgãos artificiais, fabricados com materiais não rejeitáveis e com força motriz de pilhas galvânicas.

Os avanços e recuos deram incentivos para que os investigadores desbravassem os problemas. E aquilo que hoje já está no conhecimento da maioria dos cidadãos, é que antes de se tentar uma substituição é indispensável fazer um estudo de compatibilidade, a fim de reduzir o perigo de rejeição do órgão “de segundo corpo”, sem que todavia se tenha conseguido eliminar este problema por completo, apesar dos fármacos que o indivíduo receptor tem que ir ingerindo para manter aquilo que não nasceu com ele.

Todos temos notícia de que se substituem corações, pulmões, rins,  bocados de fígado, veias e artérias. Que se conseguem reimplantar, sob certas condições, componentes de membros amputados. E até nos contaram da colocação de uma face completa de um cadáver num indivíduo que ficara desfigurado num incêndio.

O que não ficou esclarecido é como se distribuirão as peças no dia do juízo final... Mas como esta situação não sabemos quando ocorrerá, optamos por não nos preocupar. Mesmo assim a nossa estabilidade mental continua dependente do que a maioritária Igreja Católica, apostólica e romana, nos devia esclarecer.

E é precisamente aqui, neste tema tão actual, que entre nós foi badalado a propósito do vencedor do festival das cantigas do ano passado, que vou fazer referência a quem podemos considerar serem os mais importantes precursores, destas técnicas de transplantes entre humanos. Vamos recuar alguns séculos:

Santos Cosme e Damião (1)

Os Santos Cosme e Damião, irmãos gêmeos, morreram por volta de 300 d.C. Crê-se que foram médicos, e sua santidade é atribuída pelo motivo de haverem exercido a medicina sem cobrar por isso. Devotados à fé. São considerados patronos dos médicos cirurgiões. Mas em geral é referido só o São Cosme.


Na Igreja Católica sua festa é celebrada no dia 26 de setembro, de acordo com o atual Calendário Litúrgico Romano do Rito Ordinário, e no dia 27 de setembro, pelo Calendário Litúrgico Romano do Rito Extraordinário. Na Igreja Ortodoxa são celebrados no dia 1 de novembro e também em 1 de julho pelos ortodoxos gregos. 

O milagre atribuído a SS. Cosme e Damião e que lhes abriu a possibilidade de santificação consistiu no seguinte: um sacristão tinha uma perna gangrenada num estado tão avançado que estava ás portas da morte. Nem sequer a amputação era garantia de sobrevivência. Tendo sido chamados os irmãos beneméritos e sabedores, estes, enquanto o doente dormia, amputaram-lhe a perna doente e substituíram-na pela de um etíope recém sepultado, curando-o. Foi uma enxertia atrevida mas bem lograda.

Após encontrar esta referência senti uma certa estranheza pelo facto de terem utilizado um membro originalmente de um indivíduo de pele escura e implanta-lo, sem problemas de tipo social, num indivíduo que se admite ser de tez clara. Hoje, esta miscigenação não causa pruridos quando se trata de substituir órgãos internos. Mas, não recordo ser citado, modernamente, uma operação semelhante à que Cosme e Damião, à desgarrada, fizeram com o membro do etíope e o sacristão. Especulando sem bases posso imaginar que o Dr. Menguele (célebre médico nazi, pioneiro em operações de novo cunho -na época- com seres humanos) não deixaria de tentar progressos neste campo da cirurgia.

(1) os elementos que se seguem foram transcritos (+ ou -) de um site da Wikipédia

domingo, 5 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 3 Galileu abjurou


E PUR SI MUOVE (1)

Neste caso damos como fixo o facto de que tanto a terra como o sol, como as galáxias e todo o conjunto de corpos celeste se movem. Mas aquilo que queria tratar é o facto, que sempre aconteceu desde o homem das cavernas, é que a sociedade em que vivemos tem sofrido importantes mudanças, que ainda não terminaram. E que raramente estamos conscientes de como a nossa vida se alterou, nem que seja comparativamente com aquilo que vivemos pessoalmente.

De facto acontece que a maioria das pessoas vivem ao momento, acertam o seu relógio pelos impulsos que recebem do seu entorno. Só aqueles poucos que restam, vivendo ainda em lugares isolados, sem a influência da televisão e muito menos das chamadas -impropriamente- de “redes sociais” que, de facto, só proporcionam imaginárias companhias, é que se pode considerar que ainda estão imunes aos fortes vírus da sociedade moderna.

Pode parecer uma mudança sem importância, mas de facto alterou quase que por completo a socialização com participação física de quase toda a cidadania, especialmente a dos residentes em centros urbanos. Cada dia se verifica ser mais difícil conseguir a comparência a reuniões. Os núcleos informais de reunião informal, onde era possível surgirem germes de contestação perante abusos que não são aceites sossegadamente pelos menos acomodaticios.

Nem todos estes efeitos podem ser atribuídos, directamente, à força de sedução das novas tecnologias. Mas também contribuem. Aquilo que mais alterou o comportamento dos indivíduos,avaliados em grupo, é o consumismo e a ilusão de já estarem integrados num patamar, indefinido, da ilusória classe média. Muitos governos aceitam o jogo dos grandes gestores da economia mundial e troco de poderem ter os cidadãos mais ou menos satisfeitos, ou pelo menos sem se revoltarem. Pelo caminho a crise económica subterrânea vai crescendo, como se verifica pelo aumento constante da dívida externa.

Veremos o que irá acontecer quando esta bolha rebentar e muitas pessoas se encontrem com dívidas impossíveis de saldar, com familiares desempregados ou com salários que não se ajustam às necessidades que se foram enquistando. A situação assemelha-se à de um malabarista que tantas peças foi acrescentando ao circuito de volatineiro que todos esperam ver cair tudo.

(1) recordemos esta frase, célebre, proferida por Galileu, em voz interior, quando foi obrigado a negar que sabia, por verificação directa, que a Terra girava ao redor do Sol, e que este era o centro do nosso sistema planetário, e não a Terra como a Igreja apoiava.

sábado, 4 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 2 A Branca de Neve


SOBRE O CONTO DA BRANCA DE NEVE

A história, uma das muitas que os Irmãos recompilaram em pleno século XVIII, da tradição oral na Alemanha, alegadamente inventada pelos irmãos Grimm no século XVIII, em pleno renascer do romanticismo apresentam uma longa sequência de acontecimentos, com o propósito evidente de “fazer render o peixe”, já que o mais provável é que fossem contadas aos bocados nos serões familiares. Nesta, concretamente, e perto do desfecho, aparecem umas novas personagens, totalmente inesperadas para o leitor que desconheça o argumento.

No seu périplo acidentado, uma linda princesa, tornou-se o alvo obsessivo da sua bela, mas extremamente ciumenta, madrasta. Esta, dama que o seu negro fígado a tornava extremamente perigosa, não aceitava ter por perto uma princesa que, sendo notoriamente formosa, era sua rival na classificação social. Não só era rival como sem dúvida a ultrapassava. Roída pela inveja e desplante encomendou ao Monteiro-mor que levasse a princesa, conhecida pela sua alva pele como Branca de Neve, ao mais afastado e denso matagal do reino e ali a matasse. Todavia o incumbido algoz não teve coragem para cumprir este encargo. Arriscando o seu futuro, e nomeadamente a sua própria vida, deixou a menina no mato e lhe indicou a direcção para donde devia seguir para encontrar pessoas que a acolhessem.

Todos conhecemos esta história, com mais pormenor ou pelas ramas, e por ali encontramos um grupo de sete mineiros anões que aperfilharam a menina, na condição de que trabalhe em casa e trate das lides da casa, das lavagens de roupa, de as remendar, cozinhar e lavar pratos e utensílios e todas as tarefas caseiras que eles tanto detestavam. Em troca não lhe pagariam um ordenado, nem a inscreveriam na caixa, ou seja, estaria ilegal e por sua conta e risco nas horas em que os “bondosos” anões se encontrassem na mina. Ela, a princesa sem trono, já podia estar muito grata por lhe darem um teto e uma enxerga, e alimentação. Eram uns anões “porreiros”.

Nesta altura recordo que o número sete não surge por casualidade. É um número místico da cabala, que os adeptos ao ocultismo o interpretam com pretensa seriedade. No fundo, como escrevi noutra ocasião, o sete é a quarta parte do ciclo lunar e por isso é a base de todos os calendários. Aparece, o sete, em inúmeras referências, algumas físicas como é o caso da menorah, candelabro judaico com sete braços.

E chegados a este ponto também me parece ter algum interesse justificar que os mineiros tenham uma estatura reduzida. Julgo que este pormenor passa desapercebido. A meu entender existe, nesta inclusão dos ditos mineiros, uma denúncia escondida, ou pelo menos uma referência a uma situação social que era do mais corrente na época em que se escreveu a história.

Dado que as possibilidades técnicas na exploração mineira em galerias, antes da invenção das bombas movidas a vapor, que deram o tiro de partida para a primeira revolução industrial, seguiam-se os filões de mineral por percurso, em geral, muito estreitos. Por vezes a angostura era tanta que os adultos mal se podiam introduzir para trabalhar. E como a pobreza geral era intensa, as crianças cedo eram empurradas para trabalhos penosos. Os anões do conto representam as crianças que trabalhavam nas minas.

Além da exploração de menores a necessidade de levar para o exterior tanto o minério que justificava a exploração como o entulho que não tendo utilidade era um estorvo, levou a que se engendrassem carrinhos com pouca altura, com a roda adiantada e quando a rentabilidade da mina o justificava, colocar um piso de tábuas por donde se pudessem mover sem ficarem atolados.

Mais: o homem, que desde cedo procurou modificar, a seu proveito, os animais que lhe interessavam, conseguiu, através de selecção e cruzamentos, uma anormal raça de cavalos de pequena estatura. Os cavalinhos, que são referidos como ponies, são hoje uma prenda para crianças de poderosos. E também podem aparecer em feiras, com selas à sua dimensão, soltos ou atrelados a armações fixas, como um carrossel vivente. São uma das reminiscências da violência do homem sobre os animais. E não é a única, infelizmente. O exemplo mais habitual é o das pretendidas raças de cães de companhia, muitas vezes fruto de cruzamentos que a biologia rejeita.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 1 Mais mitologia



Passeando pela mitologia

Aproveitei o ter deixado o folhetim num canto escuro para poder abrir a janela e viajar no tempo, o que inclui o percorrer sendas já anteriormente trilhadas.

Uma das viagens recuperadas, por um rumo já antes batido e em mais do que uma ocasião, é curiosamente uma das que os humanos tem dedicado muito tempo a congeminar. Uma vocação persistente que nos ocupou desde séculos e que ainda é contemporânea. Quando estudamos ou lemos algum texto, sério, onde se tente especular sobre alguma das culturas antigas, estruturadas com maior ou menos extensão, observamos que em todos os casos, e povos que povoaram ou ainda habitam no planeta, sempre se dedicaram, com maior ou menor interesse e sucesso, na elaboração de personagens míticas, formando famílias cada vez mais numerosas e complexas progressivamente mais complexas.

Em todas as mitologias, ou teologias, sempre se imaginam percursos e acções dos seus membros, sempre actores fantásticos, cujos feitos são análogos aos dos humanos. As suas aventuras, uniões, lutas, crimes, atrocidades, adultérios, procriações e todos os percalços possíveis retrataram a sociedade em que se baseavam. Ou seja, aquilo que podemos qualificar, um pouco levianamente, como uma doutrina teosófica, não passa de uma tentativa de retratar o que os humanos seus contemporâneos faziam e fazem.

O meu retorno actual hoje está orientado para a complexa, e labiríntica, mitologia grega. Possivelmente ainda menos misteriosa, aos nossos olhos ocidentais do que as teosofias presentes no Indostão, e aquela que nos parece mais simples que estava vigente no Antigo Egipto. Seja qual for o percurso seguido e dando como certo que existiu uma fonte comum, ou várias fontes onde irem colher ideias, o nosso percurso europeu no campo da teologia nos leva a inquirir no célebre dilema de que se foi primeiro o ovo ou a galinha. Uma questão que, actualmente, até os pré-adolescentes tem todos os elementos para responder cabalmente, dado que sabem que as aves, e todos os restantes seres vivos nossos contemporâneos, incluídos os humanos, que tão evoluídos nos consideramos, somos descendentes dos répteis e estes, por sua vez, dos peixes. Daí nos vem a teimosia em utilizar ovos, ou óvulos, para a procriação. De onde o ovo é muito anterior à galinha.

Retomando as influências nas mitologias e teosofias, os gregos, que criaram um panorama complexo unindo a natureza, desde os astros até os animais e humanos, seguiram o trilho das anteriores estruturas mitológicas de persas, hititas, mesopotâmicas, e outras civilizações que sabemos terem existido mas que ainda não conhecemos em profundidade.

Ler e estudar, sem pretender fazer um doutoramento ou um mísero máster sobre a mitologia grega, e comparativamente qualificar a teologia cristã como paupérrima é a conclusão imediata. O cristianismo, numa tentativa pífia de rejeitar a complexa ligação de deuses avulsos que os gregos engendraram, e depois de que os romano-latinos, no propósito de se adaptarem aos credos anteriormente instalados entre as diversas populações que foram incorporando no seu Império, limitaram-se a uma acomodação das capacidades das divindades anteriores com outros nomes, o cristianismo manteve estas divindades pagãs com outros nomes e com poderes limitados. Nunca num nível de primeira grandeza, que ficou reservado à tríade (nada original historicamente) e anexada mãe do Deus na Terra (tampouco original na história das religiões).

A teologia seguida no cristianismo é muito paralela à das monarquias, sem que exista a sequência temporal que as monarquias humanas comportam, dada a vida terrena ser sempre limitada. Mesmo assim não se conseguiu neutralizar a propensão das pessoas, se não todas pelo menos uma boa parte delas, de invocarem os substitutos das primitivas deidades, que com outros nomes continuam a ser considerados como entes propiciadores de favores que estão, credulamente, a sua alçada nominal. Sintomaticamente verifica-se que as datas de calendário civil em que são invocados estes antigos deuses, agora descidos para o nível de Santos Protectores ou Intermediários Referentes, mantêm-se nas posições astrológicas que foram escolhidas pelos criadores históricos das mitologias. Dito de outra forma. Não há nada de novo na visão especulativa da humanidade e da sua conexão com os astros.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Uma nota elucidativa.


A decisão está practicamente tomada

Dias atrás, ao dar de caras com que existia uma descoordenação entre a criação de textos e a numeração que lhe fui dando quando os editei no blogue, ocasionou-me um desconforto muito penoso. A este facto juntou-se a minha incapacidade para conseguir ordenar, na memória do Vivências, os capítulos que estavam fora da ordem em que foram escritos e editados. Resumindo, havia uma trapalhada muito incómoda para quem estivesse disposto a seguir o folhetim de uma forma intelegível, caso existisse um cidadão vocacionado a este sacrifício.

Pensei em dar uma leitura geral e arrumar os capítulos na mesma ordem em que foram escritos. Isso implicava ler o passado e quase sempre alterar o escrito, no intuito de o melhorar. Recordei as agruras que relataram escritores editados (que não é o meu caso) e como referem que alguns dos seus trabalhos foram retomados e deixados de lado ao longo de anos. Alguns nem sequer ultrapassaram o estagio de obras inéditas, foram depositadas no fundo de armários antes de passar a reciclado.

E aqui me encontro, parado esperando o comboio numa estação de uma linha de caminho de ferro já desactivada.

O facto de carecer de retorno onde me apoiar numa decisão, deixa-me, mais uma vez, no limbo do desconhecido e ter que me debater com uma decisão estritamente pessoal. Ou seja, querer recuperar e tentar melhorar o que já foi editado, valerá o trabalho insano? Só para a minha satisfacção pessoal, que nem sequer a vislumbro?

Ou seja: FICA COMO ESTÁ.

terça-feira, 24 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 58


Com um pé no avião

Já preparados para ir até Coimbra e enquanto tomamos o pequeno almoço lembrei-me de uma anormalidade que senti no salão, aliás nos dois pois a experiência repetiu-se em ambos. As clientes juntavam as cabeças para cochichar e exclamavam aqueles “não me digas”, que traduzido o eufemismo quer dizer conta mais que isto é saboroso, e seguidamente agarravam no telelé para distribuir a novidade, tapando o bocal com a outra mão e assim fingir estar segregando. Passados uns minutos perguntei às empregadas o que acontecia de tão importante. Enviaram-me para a Ivone, que tu sabes ser a minha chefe de plantão quando eu não estou.

A Ivone tentou deixar passar a bola, mas quando lhe apontei o entusiasmo que reinava entre as galinhas (são as clientes, caso não soubesses) teve que abrir o jogo e contar-me que se tinha apresentado, na Câmara Municipal, uma brigada mista das Finanças e Judiciária para ver e estudar ao detalhe a documentação de alguns serviços. A reacção imediata dos curiosos foi a de que esta presença inesperada devia ter alguma ligação com os mortos da casa do Vale. Eu disse-lhe que não parecia ter nada a ver uma coisa com a outra. Que os assassinatos não acostumam a ficar documentados nas Câmaras. Que isto deve ser consequência de alguma denúncia. Tu tens ideia do que se está a passar?

- Ouve Luísa. Sabes que eu nunca quero saber de política e de políticos, e em quase todas as Câmaras Municipais, para não dizer que em todas pois não quero carimbar sem conhecimento de causa, surgem assuntos que podem levar a denúncias. Os eleitos foram apoiados por algum partido, e nas estruturas existem sempre interesses, sejam pessoais ou de negócios. Depois surgem os compadrios e os concursos amanhados, ou decisões tomadas sem concurso, desdobrando as empreitadas para não atingirem patamares com exigências legais que se for possível vão fintar.

Ou seja, com as decisões camarárias, nem sempre podem-se evitar que os preteridos se sintam ultrajados, e daí a fazer reclamações e denúncias. Numas mais e noutras menos eu creio que será o pai nosso de cada dia, especialmente naquelas Câmaras com orçamentos vultuosos. Neste caso, comparativamente, pode tratar-se mais de uma quezília pessoal do que de montante elevado. O que te garanto é que eu, José Maragato, nada tenho que me ligue a esta inspecção, nem tenho nem tive qualquer negócio ou contencioso com a edilidade.

Luísa, esquece. Isto não é coisa nossa e o melhor é ouvir e calar, pois qualquer comentário teu ou meu, pode ser deturpado. São assuntos que não nos dizem respeito.

Esquecendo esta novidade, eu depois da conversa com o Dr. Cardoso, sinto-me mais leve, mais descontraído, mais confiado. Deixou-me a impressão de que, pelo menos no seu serviço, estão tomando este assunto dos mortos plantados mais seriamente do que eu temia. Isso não obsta a que certos capítulos permaneçam ocultos, em sigilo confidencial. Mas como a imagem que temos acerca das pessoas que se movem nas altas esferas já está mais do que feita, não os desprezaremos mais nem menos, humana e socialmente falando. Antes de ir visitar o Cardoso vamos passar pela agência de viagens onde eu, anteriormente, tratava de passagens, hotéis e trajectos.

Boa tarde, Dona Isaura. Como tem passado? Pelo seu aspecto, cada vez mais jovem, deduzo que a saúde, felizmente, não lhe tem dado cuidados de maior.

- O Doutor Maragato sempre tão amável. Mas garanto que em mim também pesam os anos. Por enquanto não sofro de grandes desgastes, mas sei olhar para o futuro observando as pessoas com que habitualmente convivo. Mas diga. O que é que o traz por cá, e tão bem acompanhado...

- Desculpe o meu descuido, Dona Isaura. Devia ter começado por lhe apresentar a minha esposa, de seu nome Luísa Maragato depois de papel passado. Um apelido que não soa muito bem,mas é aquele que herdei de família.

- Ao que íamos, ou viemos. Pensamos em aproveitar umas semanas de sossego antes dos calores estivais para dar um passeio pela Europa. Num esquema meio de grupo e meio por conta própria. Nós ainda não definimos grande coisa. Por exemplo: gostaríamos de passar uns três dias em Paris, incluindo um passeio pelos castelos do Loira. Depois saltar para Bruxelas, outros três dias. E depois Berlim, outra paragem. Daí saltar para Viena, dois dias ou três. O percurso pelo Danúbio, que é tão afamado, a mim, pessoalmente, não me entusiasma, pelo menos se for longo; com uma escala e passar para terra já ficaria satisfeito. Mas com um bom livro e umas bebidas sou capaz de aguentar sem me atirar à agua. Visitar Budapeste é fundamental.

O melhor, a partir destas linhas, que se podem alterar com pareceres fundamentados ou outras vontades da Luísa, eu vos deixo. A Dona Isaura se tiver paciência de uma ajuda e carregue a esposa de folhetos. Depois, em casa ela fará a sua análise, que discutiremos (sem pelejar). E nos próximos dias voltaremos para formalizar a encomenda. Agora eu tenho que visitar um amigo na Polícia Judiciária, que penso estarem instalados ai perto. Até já. Não me demorarei, espero bem.

- Boa tarde, Aqui está o meu Cartão de Cidadão para me identificar. Será possível saber se o Dr. Sílvio Cardoso se encontra no serviço, e caso afirmativo poderia perguntar, se fizer este favor, se me pode atender um momento?

- O Dr. diz que o pode atender de imediato. Eu o guiarei pois sinto que não conhece o interior desta casa. Faça o favor de me acompanhar.

- Dr. Cardoso, desculpe o importunar no seu trabalho, mas surgiu um tema que, não estando ligado directamente com o processo que nos levou a ser partes integrantes, de lados diferentes mas não opostos, segundo eu avalio. Pois bem, como ficamos mais tranquilos quanto à evolução oficial do inquérito, pensamos, a Luísa e eu, se poderia ser aceite que tomássemos umas férias antes dos calores estivais, e viajássemos pela Europa durante umas três semanas. Sei que não estamos qualificados como arguidos, mas não queria “desaparecer” sem dizer aquilo do água vai! Daí que antes de avançar como plano de viagem quis saber se existia algum impedimento oficial. O que me diz o Dr. ?

- Vão descansados e desfrutem. Todavia e na previsão de qualquer imprevisto que os possa implicar, se o Amigo Maragato, quando tiverem o plano de viagem definido, com dias e estadias marcadas em hotéis com telefone e o resto da modernidade, seria bem visto que nos deixasse uma cópia. Se bem que hoje basta saber o indicativo do País onde se encontrem para que com o telemóvel os poderia contactar.

- Obrigado Dr., E recordo uma sua pergunta que, por estar pendente de outro assunto, deixei passar sem resposta. Estranhou o nosso apelido de família Maragato. É o mesmo esquema do que acontece com aqueles que carregam, oficialmente, com o apelido Algarvio, Alentejano e outros. Sem ser uma cristianização de judeus ou se calhar até teve a sua origem nestas conversões forçosas, o nosso Maragato vem apenso ao facto de que a origem da família estava na Maragateria, uma região espanhola de cariz rural. E todos os que dali se deslocavam para outras regiões, eram apelidados de maragatos, como aqui os bimbos, por exemplo.