sexta-feira, 3 de agosto de 2018

MEDITAÇÕES - 1 Mais mitologia



Passeando pela mitologia

Aproveitei o ter deixado o folhetim num canto escuro para poder abrir a janela e viajar no tempo, o que inclui o percorrer sendas já anteriormente trilhadas.

Uma das viagens recuperadas, por um rumo já antes batido e em mais do que uma ocasião, é curiosamente uma das que os humanos tem dedicado muito tempo a congeminar. Uma vocação persistente que nos ocupou desde séculos e que ainda é contemporânea. Quando estudamos ou lemos algum texto, sério, onde se tente especular sobre alguma das culturas antigas, estruturadas com maior ou menos extensão, observamos que em todos os casos, e povos que povoaram ou ainda habitam no planeta, sempre se dedicaram, com maior ou menor interesse e sucesso, na elaboração de personagens míticas, formando famílias cada vez mais numerosas e complexas progressivamente mais complexas.

Em todas as mitologias, ou teologias, sempre se imaginam percursos e acções dos seus membros, sempre actores fantásticos, cujos feitos são análogos aos dos humanos. As suas aventuras, uniões, lutas, crimes, atrocidades, adultérios, procriações e todos os percalços possíveis retrataram a sociedade em que se baseavam. Ou seja, aquilo que podemos qualificar, um pouco levianamente, como uma doutrina teosófica, não passa de uma tentativa de retratar o que os humanos seus contemporâneos faziam e fazem.

O meu retorno actual hoje está orientado para a complexa, e labiríntica, mitologia grega. Possivelmente ainda menos misteriosa, aos nossos olhos ocidentais do que as teosofias presentes no Indostão, e aquela que nos parece mais simples que estava vigente no Antigo Egipto. Seja qual for o percurso seguido e dando como certo que existiu uma fonte comum, ou várias fontes onde irem colher ideias, o nosso percurso europeu no campo da teologia nos leva a inquirir no célebre dilema de que se foi primeiro o ovo ou a galinha. Uma questão que, actualmente, até os pré-adolescentes tem todos os elementos para responder cabalmente, dado que sabem que as aves, e todos os restantes seres vivos nossos contemporâneos, incluídos os humanos, que tão evoluídos nos consideramos, somos descendentes dos répteis e estes, por sua vez, dos peixes. Daí nos vem a teimosia em utilizar ovos, ou óvulos, para a procriação. De onde o ovo é muito anterior à galinha.

Retomando as influências nas mitologias e teosofias, os gregos, que criaram um panorama complexo unindo a natureza, desde os astros até os animais e humanos, seguiram o trilho das anteriores estruturas mitológicas de persas, hititas, mesopotâmicas, e outras civilizações que sabemos terem existido mas que ainda não conhecemos em profundidade.

Ler e estudar, sem pretender fazer um doutoramento ou um mísero máster sobre a mitologia grega, e comparativamente qualificar a teologia cristã como paupérrima é a conclusão imediata. O cristianismo, numa tentativa pífia de rejeitar a complexa ligação de deuses avulsos que os gregos engendraram, e depois de que os romano-latinos, no propósito de se adaptarem aos credos anteriormente instalados entre as diversas populações que foram incorporando no seu Império, limitaram-se a uma acomodação das capacidades das divindades anteriores com outros nomes, o cristianismo manteve estas divindades pagãs com outros nomes e com poderes limitados. Nunca num nível de primeira grandeza, que ficou reservado à tríade (nada original historicamente) e anexada mãe do Deus na Terra (tampouco original na história das religiões).

A teologia seguida no cristianismo é muito paralela à das monarquias, sem que exista a sequência temporal que as monarquias humanas comportam, dada a vida terrena ser sempre limitada. Mesmo assim não se conseguiu neutralizar a propensão das pessoas, se não todas pelo menos uma boa parte delas, de invocarem os substitutos das primitivas deidades, que com outros nomes continuam a ser considerados como entes propiciadores de favores que estão, credulamente, a sua alçada nominal. Sintomaticamente verifica-se que as datas de calendário civil em que são invocados estes antigos deuses, agora descidos para o nível de Santos Protectores ou Intermediários Referentes, mantêm-se nas posições astrológicas que foram escolhidas pelos criadores históricos das mitologias. Dito de outra forma. Não há nada de novo na visão especulativa da humanidade e da sua conexão com os astros.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Uma nota elucidativa.


A decisão está practicamente tomada

Dias atrás, ao dar de caras com que existia uma descoordenação entre a criação de textos e a numeração que lhe fui dando quando os editei no blogue, ocasionou-me um desconforto muito penoso. A este facto juntou-se a minha incapacidade para conseguir ordenar, na memória do Vivências, os capítulos que estavam fora da ordem em que foram escritos e editados. Resumindo, havia uma trapalhada muito incómoda para quem estivesse disposto a seguir o folhetim de uma forma intelegível, caso existisse um cidadão vocacionado a este sacrifício.

Pensei em dar uma leitura geral e arrumar os capítulos na mesma ordem em que foram escritos. Isso implicava ler o passado e quase sempre alterar o escrito, no intuito de o melhorar. Recordei as agruras que relataram escritores editados (que não é o meu caso) e como referem que alguns dos seus trabalhos foram retomados e deixados de lado ao longo de anos. Alguns nem sequer ultrapassaram o estagio de obras inéditas, foram depositadas no fundo de armários antes de passar a reciclado.

E aqui me encontro, parado esperando o comboio numa estação de uma linha de caminho de ferro já desactivada.

O facto de carecer de retorno onde me apoiar numa decisão, deixa-me, mais uma vez, no limbo do desconhecido e ter que me debater com uma decisão estritamente pessoal. Ou seja, querer recuperar e tentar melhorar o que já foi editado, valerá o trabalho insano? Só para a minha satisfacção pessoal, que nem sequer a vislumbro?

Ou seja: FICA COMO ESTÁ.

terça-feira, 24 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 58


Com um pé no avião

Já preparados para ir até Coimbra e enquanto tomamos o pequeno almoço lembrei-me de uma anormalidade que senti no salão, aliás nos dois pois a experiência repetiu-se em ambos. As clientes juntavam as cabeças para cochichar e exclamavam aqueles “não me digas”, que traduzido o eufemismo quer dizer conta mais que isto é saboroso, e seguidamente agarravam no telelé para distribuir a novidade, tapando o bocal com a outra mão e assim fingir estar segregando. Passados uns minutos perguntei às empregadas o que acontecia de tão importante. Enviaram-me para a Ivone, que tu sabes ser a minha chefe de plantão quando eu não estou.

A Ivone tentou deixar passar a bola, mas quando lhe apontei o entusiasmo que reinava entre as galinhas (são as clientes, caso não soubesses) teve que abrir o jogo e contar-me que se tinha apresentado, na Câmara Municipal, uma brigada mista das Finanças e Judiciária para ver e estudar ao detalhe a documentação de alguns serviços. A reacção imediata dos curiosos foi a de que esta presença inesperada devia ter alguma ligação com os mortos da casa do Vale. Eu disse-lhe que não parecia ter nada a ver uma coisa com a outra. Que os assassinatos não acostumam a ficar documentados nas Câmaras. Que isto deve ser consequência de alguma denúncia. Tu tens ideia do que se está a passar?

- Ouve Luísa. Sabes que eu nunca quero saber de política e de políticos, e em quase todas as Câmaras Municipais, para não dizer que em todas pois não quero carimbar sem conhecimento de causa, surgem assuntos que podem levar a denúncias. Os eleitos foram apoiados por algum partido, e nas estruturas existem sempre interesses, sejam pessoais ou de negócios. Depois surgem os compadrios e os concursos amanhados, ou decisões tomadas sem concurso, desdobrando as empreitadas para não atingirem patamares com exigências legais que se for possível vão fintar.

Ou seja, com as decisões camarárias, nem sempre podem-se evitar que os preteridos se sintam ultrajados, e daí a fazer reclamações e denúncias. Numas mais e noutras menos eu creio que será o pai nosso de cada dia, especialmente naquelas Câmaras com orçamentos vultuosos. Neste caso, comparativamente, pode tratar-se mais de uma quezília pessoal do que de montante elevado. O que te garanto é que eu, José Maragato, nada tenho que me ligue a esta inspecção, nem tenho nem tive qualquer negócio ou contencioso com a edilidade.

Luísa, esquece. Isto não é coisa nossa e o melhor é ouvir e calar, pois qualquer comentário teu ou meu, pode ser deturpado. São assuntos que não nos dizem respeito.

Esquecendo esta novidade, eu depois da conversa com o Dr. Cardoso, sinto-me mais leve, mais descontraído, mais confiado. Deixou-me a impressão de que, pelo menos no seu serviço, estão tomando este assunto dos mortos plantados mais seriamente do que eu temia. Isso não obsta a que certos capítulos permaneçam ocultos, em sigilo confidencial. Mas como a imagem que temos acerca das pessoas que se movem nas altas esferas já está mais do que feita, não os desprezaremos mais nem menos, humana e socialmente falando. Antes de ir visitar o Cardoso vamos passar pela agência de viagens onde eu, anteriormente, tratava de passagens, hotéis e trajectos.

Boa tarde, Dona Isaura. Como tem passado? Pelo seu aspecto, cada vez mais jovem, deduzo que a saúde, felizmente, não lhe tem dado cuidados de maior.

- O Doutor Maragato sempre tão amável. Mas garanto que em mim também pesam os anos. Por enquanto não sofro de grandes desgastes, mas sei olhar para o futuro observando as pessoas com que habitualmente convivo. Mas diga. O que é que o traz por cá, e tão bem acompanhado...

- Desculpe o meu descuido, Dona Isaura. Devia ter começado por lhe apresentar a minha esposa, de seu nome Luísa Maragato depois de papel passado. Um apelido que não soa muito bem,mas é aquele que herdei de família.

- Ao que íamos, ou viemos. Pensamos em aproveitar umas semanas de sossego antes dos calores estivais para dar um passeio pela Europa. Num esquema meio de grupo e meio por conta própria. Nós ainda não definimos grande coisa. Por exemplo: gostaríamos de passar uns três dias em Paris, incluindo um passeio pelos castelos do Loira. Depois saltar para Bruxelas, outros três dias. E depois Berlim, outra paragem. Daí saltar para Viena, dois dias ou três. O percurso pelo Danúbio, que é tão afamado, a mim, pessoalmente, não me entusiasma, pelo menos se for longo; com uma escala e passar para terra já ficaria satisfeito. Mas com um bom livro e umas bebidas sou capaz de aguentar sem me atirar à agua. Visitar Budapeste é fundamental.

O melhor, a partir destas linhas, que se podem alterar com pareceres fundamentados ou outras vontades da Luísa, eu vos deixo. A Dona Isaura se tiver paciência de uma ajuda e carregue a esposa de folhetos. Depois, em casa ela fará a sua análise, que discutiremos (sem pelejar). E nos próximos dias voltaremos para formalizar a encomenda. Agora eu tenho que visitar um amigo na Polícia Judiciária, que penso estarem instalados ai perto. Até já. Não me demorarei, espero bem.

- Boa tarde, Aqui está o meu Cartão de Cidadão para me identificar. Será possível saber se o Dr. Sílvio Cardoso se encontra no serviço, e caso afirmativo poderia perguntar, se fizer este favor, se me pode atender um momento?

- O Dr. diz que o pode atender de imediato. Eu o guiarei pois sinto que não conhece o interior desta casa. Faça o favor de me acompanhar.

- Dr. Cardoso, desculpe o importunar no seu trabalho, mas surgiu um tema que, não estando ligado directamente com o processo que nos levou a ser partes integrantes, de lados diferentes mas não opostos, segundo eu avalio. Pois bem, como ficamos mais tranquilos quanto à evolução oficial do inquérito, pensamos, a Luísa e eu, se poderia ser aceite que tomássemos umas férias antes dos calores estivais, e viajássemos pela Europa durante umas três semanas. Sei que não estamos qualificados como arguidos, mas não queria “desaparecer” sem dizer aquilo do água vai! Daí que antes de avançar como plano de viagem quis saber se existia algum impedimento oficial. O que me diz o Dr. ?

- Vão descansados e desfrutem. Todavia e na previsão de qualquer imprevisto que os possa implicar, se o Amigo Maragato, quando tiverem o plano de viagem definido, com dias e estadias marcadas em hotéis com telefone e o resto da modernidade, seria bem visto que nos deixasse uma cópia. Se bem que hoje basta saber o indicativo do País onde se encontrem para que com o telemóvel os poderia contactar.

- Obrigado Dr., E recordo uma sua pergunta que, por estar pendente de outro assunto, deixei passar sem resposta. Estranhou o nosso apelido de família Maragato. É o mesmo esquema do que acontece com aqueles que carregam, oficialmente, com o apelido Algarvio, Alentejano e outros. Sem ser uma cristianização de judeus ou se calhar até teve a sua origem nestas conversões forçosas, o nosso Maragato vem apenso ao facto de que a origem da família estava na Maragateria, uma região espanhola de cariz rural. E todos os que dali se deslocavam para outras regiões, eram apelidados de maragatos, como aqui os bimbos, por exemplo.




CRÓNICAS DO VALE - cap. 60


Balanço do almoço "campestre"

Bem, a fase se de convívio terminou por hoje, e o balanço não é bom nem mau, antes pelo contrário. Pelo menos no que se pode referir às conversas de circunstâncias que tive com o Cardoso. Naquele bocado em que estivemos a sós no carro, entre o restaurante e a nossa casa, aproveitei uns minutos para mostrar o meu não alinhamento, pelo menos na totalidade das versões que me chegaram ao ouvido, e insistir em que deve m existir muitas páginas reservadas, e outras alteradas para ficarem aceitáveis.

E o que respondeu o Cardoso?

Só uns sons inexpressivos, quase que de ruminante com indigestão, e alguns sorrisos condescendentes, ou uns abanar de cabeça que poderiam indicar que não foi assim como eu imaginei que as coisas aconteceram. Mas palavras? Daquela boca nada saiu que o pude comprometer. Aliás eu pedi-lhe, com insistência, que evitasse problema, e que num caso desta índole, que o menor descuido lhe poderia ser prejudicial, a sua profissão implicava um secretismo de Estado e da sua conveniência. Por assim dizer.

Mas já me esquecia, e seria imperdoável. Aquele telefonema que recebi há uns temas importantes, nos quais tenho que dar a minha opinião, entre durante o almoço, era do Nelson Sousa, aquele mais ou menos sócio que tenho em Ermesinde, que me convocou para hoje, segunda feira, sem falta, porque há uns temas importantes, nos quais tenho que dar a minha opinião, entre Barcelos e a Maia, onde se jogam grandes quantidades de capital. Parece que o mercado está a acordar, mas por enquanto não sei se para cima ou para baixo. Tenho mesmo que sair de madrugada e, como tem sido habitual, irei dando novidades.

Voltando aos comentários acerca do casal Cardoso. Tenho que entender que a minha “amizade” com este inspector é anormal, contrária ao seu estatuto e dependência. Por isso vai ser difícil manter um convívio com tantas restrições. Se eu pretender encontrar esclarecimentos terei que procurar noutros caminhos. O que não faltam é informadores e linguareiros, desejosos de mostrar que estão dentro dos segredos. Que na maior parte das vezes não passam de segredos de Polichinelo.

E a vossa mini-excursão agronómica, foi interessante? É que mal entraram em casa a Doutora Diana afirmou que tinham que regressar a Coimbra pois estava preocupada com a mãe dela. Nem sequer se sentaram. E ele aproveitou a dica para engolir, de uma golada rápida, metade do gim-tónico que lhe tinha servido. Calma! Foi ele que me perguntou se podia beber esta mistura, mas com água tónica bem gelada? Devia sentir a digestão pesada!

Já notaste que a Doutora Diana -uma chatice, que nem em casa, sem testemunhas, consiga tirar o canudo às pessoas. Somos industriados desde crianças nos preceitos de respeito e boa educação e, sinceramente, já estou mais que cheia disso. O melhor que encontro quando passamos a fronteira é que ali são muitas raras as pessoas que são tratadas por um canudo, ficam-se pelo Don Este e Don Aquilo. Serve para todos.

Mas voltando ao que me perguntaste, a Diana é pessoa de bom trato e bem educada desde o berço, de modo que nunca se sabe se está a fingir nos seus elogios ou comentários, no propósito de agradar, ou se de facto correspondem a um impulso natural. É tão convincente que não consegui catalogar a pessoa neste aspecto. Seja como for, além de dizer que gostou do que viu, até me deu umas dicas, ou orientações, que me pareceram muito úteis e pertinentes. Quando passar o Ernesto, e eu o veja, terei que lhe apresentar estas ideias, mas fazendo de conta que as li numa revista de jardinagem e horta.

Pessoalmente lamento que, por solidariedade conjugal, tivesse que acompanhar a Diana com as cautelas que a profissão do marido implicam. Preferiria que fosse um conhecimento do salão ou de outro lado qualquer, sem interferências se estatutos sociais. Não sei se consigo explicar o que senti. Mas como pessoa, a Diana, até agora deixou-me uma grata impressão.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 56


José Maragato não se mostra convencido

Soube que as senhoras esposas mostraram interesse em visitar a recente horta da Luísa, proponho que não nos demoremos em excesso na apreciação das iguarias, que tão sedutores aromas emanam. O que não quer dizer que se pretenda engolir sem mastigar. Já me entendem. Temos tempo suficiente para apreciar as sobremesas e os cafés.

Então, estamos todos satisfeitos e prontos para esta aventura no local, não digo dos crimes, mas dos cadáveres insepultos? CALMA!!! Não pretendo vos conduzir ao lugar propriamente dito, os maridos, de cuja classe pertenço, conhecemos de sobra este canto da propriedade. Que fica bastante longe da área que vão visitar.

- A Doutora Diana convidou-me a fazer a viagem no seu carro, e assim ter uma janela temporal sem sermos ouvidas e controladas. Evidentemente aceitei com agrado. Agora os “rapazes” terão que passear juntinhos e com juízo, especialmente porque, distraídos como estavam, reparei que despejaram os copos mais do que uma vez. O mesmo não aconteceu com a minha condutora, de quem eu serei a pendura. Posto isto e porque sempre existe a risco de que ande por aí, extraviada, alguma patrulha da GNR com necessidade de apanhar alcoolizados, nós iremos à frente, marcando o passo, e os rapazes nos seguirão. E não há nhó-nhó nem meio nhó-nhó- Nós é que mandamos!

- O que as damas mandem, nós obedecemos, como sempre (menos quando não existe um grande risco de ficarem a saber o que estamos a fazer...) Apesar de ser uma autoridade, coisa que eu nem a cabo chego, o Inspector Doutor terá que aguentar que aqui o dono da viatura seja, por um bocado, o comandante em chefe! Vamos a isto, e que tenhamos uma boa viagem, mesmo que curta, pois quase que não dava para um avião levantar voo.

Como podemos admitir que a estrada é um terreno neutro, propriedade de todos os cidadãos e de nenhum em concreto, peço ao Amigo Doutor Cardoso que me deixe dissertar sobre uns pormenores que não posso admitir estejam suficientemente claros.
Para já ainda não tenho a certeza de que o depositarem cadáveres nos meus terrenos, e mais sendo a uma distância relativamente curta do local onde se supõe que foram liquidados, seja ou não uma causalidade. Recordo que foi referido ter sido visitado, poucos dias antes, por um sujeito que se afirmava como intermediário, uma espécie de agente imobiliário, mas sem se identificar, que pretendia saber, ou propor, se estaríamos interessados em vender a propriedade. Deu a entender que mais o que a área rústica o que valorizavam era a volumetria da construção e até do armazém anexo. Não lhe dei andamento e partiu sem mais.

O usar, poucos dias depois, a propriedade como uma espécie de depósito clandestino de mortos terá alguma ligação com a visita e as duas situações, ou seja as festas com drogas e sexo louco, que se admite estarem ligados ao primeiro cadáver, serão todos peças de um mesmo quebra-cabeças?

Depois, e estando nós “fugidos” mas com o conhecimento das autoridades, como sabe, entraram em campo as tropas clandestinas dos ciganos. Terão estas gentes, que qualificamos levianamente como de pouco nível, poder dissuasório para conseguir que a equipa internacional de bandidos tivesse duas baixas, um dos quais se soube ser partícipe directo de duas mortes? Posso admitir que muitos destes elementos da blindagem não sejam possuidores de mentes brilhantes. Mas o esquema dos ciganos, a ser verdade, parece de uma singeleza própria de catequistas.

E mais espantoso ainda é o facto de que, com mostras evidentes de ter sido punido internamente, pelo seu próprio grupo, nos oferecessem, como se fosse um prémio de consolação, mais um cadáver, também ele anteriormente identificado com um membro do quarteto de distribuição de carcassas?

Não quero que o Cardoso me esclareça nada. Só pretendo que fique claro que não vejo tudo isto como tão credível como as histórias da cartilha maternal. Não tenho elementos onde me basear. Só simples deduções e experiência de vida. Mas SUSPEITO que estes atrevidos acontecimentos causaram um grande vendaval nos meios políticos, financeiros e talvez mesmo dentro das altas esferas eclesiásticas (bispos e cardeais tem fama de serem apreciadores de bacanais) Estes bandidos mercenários foram contratados. Não foram eles que organizaram o encontro de alto nível, assim como é pouco provável que conhecessem a identidade das personagens importantes que por lá andaram. Só conheceram as prostitutas, de diferentes estatutos, os maricas e pouco mais.

Apostaria que se movimentaram muitos telefones, se pediu ajuda e colaboração dentro do poder. Que se contactaram e pressionaram “a bem da boa imagem do País” todas as Interpol, Europol e, se foi necessário do Futebol, que através da sua FIFA deve conhecer muita roupa suja.

E já desabafei. O Cardoso, pelo muito que tem que resguardar, (e suponho que dentro da sua organização devem existir muitos Brutos ansiosos de darem facadas pelas costas a os que imaginam os estorvam), agradeço que tenha ouvido e esquecido, que se cuide e se for necessário negue que tem qualquer convivência comigo. Recorde que Judas e Pedro, negaram o que nos seus papeis lhes calhava fazer. Mesmo assim fique com a noção de que já não uso chucha desde muitas décadas atrás. E mais, que sou muito desconfiado.

Chegamos, as duas equipas em boas condições., e sem cumprimentos dos militares da GNR.

Esposas amadas, ou Amadas Esposas, uma vez que neste caso a ordem dos factores não altera o produto, coisa que não se pode fazer no ramo da culinária. Será que preferem fazer a visita agrícola sem interferências? Se assim for nós, os anteriormente designados cabeças de casal, entraremos em casa e tomaremos um refresco, possivelmente um café mais um scoth velhinho e um abano. As esperaremos na sala.


CRÓNICAS DO VALE . Cap. 29




- Bem chegado Amigo Medeiros, também Presidente, mesmo que em certas ocasiões prefira deixar o estatuto de lado. É possível que, nem que fosse de vista ou de falatório, já conhecesse a minha actual esposa, depois de tantos anos de viuvez. Chama-se ISABEL Figueiredo, filha de um dos primeiros mortos no Ultramar do século XX, concretamente em Timor. Empresária e agora esposa.

Para ir até o restaurante que me disse recomendar podemos marchar a pé ou é melhor entrar num carro?

- Esta Vila não é das maiores e o local fica aqui no centro, de forma que andaremos e pelo caminho, que será curto, poderemos falar. Se não estou enganado a Dona Isabel tem um Salão de Beleza aqui na Vila, onde a minha mulher é cliente, com total agrado, segundo afirma (desta vez não se trata do Pereira) e que me deu as melhores referências tanto no trato pessoal como nos cuidados profissionais. Hoje não me acompanhou porque lhe insinuei que o jantar era quase que oficial, mas, precavida e desconfiada como são todas as mulheres, especialmente as esposas, deve ter cheirado que a Dona Isabel estaria presente. Não me pareceu melindrada, e até me encarregou de que, em caso de se confirmar esta companhia, lhe transmitisse os seus mais amáveis cumprimentos.

    - Senhor Presidente, cá a Luísa pede que desculpe, Senhor Medeiros -ainda não me compenetrei de que devo prescindir, em privado evidentemente, do tratamento oficial- Mas quero deixar constância de que estou totalmente inocente deste crime, pois que afastar a sua esposa de um jantar entre amigos é mesmo um crime. Quando chegar a casa vai levar tau-tau! E já agora, se não se importa, qual é o seu nome caseiro, o de iniciar a assinatura?
    - Óscar, um nome histórico, que o meu pai foi buscar ao tio que o meteu no seminário, de onde se escapou enquanto viu uma porta aberta. E a porta foi ter deitado o olho à minha futura mãe. E segundo ela mesma me contou, ao ver alto e bonitão, mesmo com as vestes do seminário, que eram as mesmas dos agora estudantes de Coimbra, decidiu que merecia um sorriso de incitamento. E cá estou eu para confirmar.
    E já chegamos ao cantinho donde gosto de petiscar. Façam o favor de entrar.
- Pois eu, que também tenho almoçado aqui, e até jantado, não tenho memória de ter coincidido consigo. A partir de hoje já não poderei dizer que não partilhamos nada. Não me olhe desconfiado. é uma piadinha do mais angelical. Nem os tais seminaristas perdiam tempo com uma graçola destas, sem graça como é evidente.

Já que entramos e viemos para jantar, atendendo a que nós, os homens, não somos crianças e as digestões pesadas se pagam caras, com azia e insónias, sugiro que escolhemos pratos simples, frugais ou por aí perto. Veremos o que nos sugere a Cozinheira e Dona, que se recordo chama-se Gertrudes.

- Boa noite Dona Isabel e estimados senhores acompanhantes. Aparecem com muito apetite ou preferem alguma especialidade caseira que não lhes tire o sono?

- A Gertrudes adivinhou exactamente aquilo que os três comentávamos agora mesmo. Nem vale a pena ler a ementa do dia, caso fosse válida para o jantar-ceia. Diga o que nos propõe, se faz a fineza de nos orientar.

- Pois bem. Tenho umas trutas de rio bravo, que com uns grelos cozidos levemente, mas tenros como bebés, dão uma boa entrada. Depois posso preparar uns pratinhos, estilo tapas espanholas, mas bem servidas, com pipís bem temperados, lascas de lombo de porco preto grelhadas e com rodelas de batata doce, carapaus frescos em escabeche, e até uns ovos mexidos com espargos bravios. Creio que é bastante onde escolher, de modo que se há alguma coisa que não apetece ou querem sugerir algum prato que sabem eu faço bem, peço que, em confiança, digam.

- Da minha parte, e sem saber o que preferem os outros, dispensava os pipís e trocava por umas lascas de bacalhau, do alto, bem desalgado e temperado com vinagre de maçã, colorau doce e pimenta preta. Mas o quê dizem os membros do recente casal, já de papel passado? Isabel, pronuncie-se, s.f.f.

- Pois até estou em acordo com o deixar os pipís para uma petisqueira de vinho tinto, com caracóis e búzios, que são primos direitos uns dos outros. E se posso opinar, além de água fresca sem gás, uma garrafa de verde branco, do nosso ribeiro de Monção, creio que daria o complemento correcto.

- E não conseguem entrar com uma malga pequena de caldo verde, enquanto esperam? Foi feito agora mesmo; não são sobras do almoço.

- Tá certo, a Dona Gertrudes é que sabe. Ah! E pode servir os pratos consoante ficarem prontos, pois cá daremos conta de tudo.


domingo, 22 de julho de 2018

CRONICAS DO VALE – CAP 55



Que seja um almoço sem problemas

- Se me for permitido gostaria de poder deixar algumas meditações que me tem ensombrado nos últimos dias. E mais concretamente no que se refere à temática que, supostamente, estava na programação para amenizar o encontro. Resumindo o muito que pretendia dizer, no fundo creio que o mais correcto, e também prudente, é abstermo-nos de temas de índole profissional. Atendendo a que eu me movo numa profissão liberal só tenho obrigações fiscais e legais a respeitar, além daquelas regras sociais que nos permitem viver em harmonia como resto da população.

A situação do Amigo Dr. Cardoso é, devido à sua profissão oficial, bastante diferente, se não mesmo situada nas antípodas. A casualidade ou os imprevistos nos colocaram no mesmo caminho, mas felizmente depressa se entendeu que não em direcções opostas. Todavia é de bom sentido entender que se alguém pode ter o rol de puxar pela língua aos outros é o Cardoso aqui presente; enquanto que eu nem devo tentar saber pormenores que estejam fechados, seja no trinco ou a sete chaves mais uma combinação electrónica, nos domínios do tantas vezes referido segredo de justiça.

Estou convencido de que os quatro aqui presentes, incluído eu mesmo, já entendemos o interesse mútuo que nos obriga a esquecer os acontecimentos e as sequelas que tiveram origem no Vale do Pito. Lamento que o meu monólogo tenha sido demasiado longo e pesado. Mas confio em que não entremos num mutismo complexado. Há temas no ar que podem servir para dialogar, sejam as férias já gozadas e também as programadas, os projectos pessoais. Podemos entrar de tudo um pouco, salvo, se me quiserem fazer um favorzinho, o tema do desporto-rei, e por tabela, da política oficial.

- Entendi e agradeço as suas palavras. Confesso que propus este encontro com algum receio. Corrijo, bastante receio dentro do estrito ambiente profissional onde exerço, pois existia a possibilidade de que ao longo das conversas deixasse escapar algum pormenor que sei não é desejado-entenda-se pelas altas instâncias- que transpire para a opinião pública. E daí o perigo de eu poder ser sancionado sem apelo nem agravo.

- Cavalheiros, permitem que as senhoras possam abrir um novo trilho? É que eu, sendo filha de proprietários rurais, do tal Portugal já nas fronteiras do profundo, e estou falando na zona de Seia-Gouveia, depois que, por decisão de estudar fui transplantada para Coimbra, onde residimos já casados. Num bom andar mas sem logradouro. Quando vim a saber -numa das poucas ocasiões em que o meu marido deixa escapar pormenores inócuos de algum dos seus processos- que a amiga Luísa. Posso trata-la assim?, tinha uma horta pessoal para folga espiritual, além de um amplo espaço de jardim entre o rústico e o quase selvagem, mas que já estava em processo de ser invadido por flores, fiquei mordida de inveja.

Sendo menos intensa na terminologia, é mais correcto dizer que também eu desejaria poder passear por um jardim, mesmo pequeno mas meu, onde pudesse mudar as plantas, colocar novas espécies, cortar uma flores para colocar numa jarra, em vez de as ter que adquirir numa florista. Sei, por recordar o que via na minha mãe, que uns goivos que vimos crescer e florir são mais apreciados do que uma orquídeas ou outras flores espectaculares que nos chegam de avião desde a Holanda.

Garanto que se não estivéssemos agarrados, por profissão de cada um de nós, à cidade, o que eu mais desejo é um dia poder encontrar uma casa isolada, sem vizinhos de parede, com um logradouro folgado, que não recordassem estas moradias das chamadas zonas residenciais, onde depois de meter a garagem e uma piscina inutilizável os restantes metros quadrados estão pavimentados. E, no caso de quererem ter flores serão em vasos. Eu queria ter salsa viva, e coentros, e hortelã, um arbusto de louro e mais outras plantas de flores e de cozinha. Sem esquecer umas alfaces e meia dúzia de cebolas, digamos verduras de cozinhar. Mas isso implicava nos deslocar alguns quilómetros do centro da “lusa antenas”.

Quantas vezes eu fecho os olhos, e choro sem lágrimas, por ter entrado neste circuito, que é mais um labirinto, um jogo da glória, onde tenho que preparar aulas, fazer pontos de exame, corrigir respostas que mostram a ignorância quase que geral, de gente que inclusive desconhece o seu idioma. Naquelas alturas sonho em me sentiria melhor no papel de dona de casa, com filhos e sofrendo os mesmos problemas que teve a minha mãe. A minha geração decidiu protelar os filhos, deixando a idade que fisiologicamente era mais indicada para tal, em prol de um carreira profissional. E daí que, por inércia, se degradou a imagem social da dona de casa. Um erro.

- Doutora Diana. Estive muito atenta ao que nos disse, e quando o José me mostrou a sua casa no Vale, e em simultâneo me disse que desejava interromper, sine die, o seu estado de viúvo-solteiro, e quando vi a amplidão do espaço que rodeava a mansão -para mim o tamanho me induz a chamar de mansão- fiquei extasiada. Ou seja, entendo o seu penar e creio, que aproveitando o não estarmos longe e os dias serem longos, sugiro que abreviemos o tempo dado ao repasto e rumemos para o “famoso” Vale do Pito. Estão de acordo?

- Luísa, por mim tudo bem. Teremos todo o prazer de abrir as nossas portas ao casal, se bem que o Cardoso já o conhece. Só tenho um detalhe a ponderar: Que não se fale em mortos nem nas sequelas, tal como coloquei ao chegarem os acepipes. E agora vamos aos grelhados e os molhos especiais que o dono nos apresentou. Cheira bem e deve saber melhor!