sábado, 14 de julho de 2018

NATO, USA, REPUBLICANOS, TRUMP versus UE



Na semana que terminou assistimos, sem o interesse que merecia, a mais um ataque do presidente Trunfas, agindo sob a batuta dos seus financiadores ultra-conservadores americanos, onde dando mais importância aos seus interesses na indústria do armamento, deixaram na gaveta do esquecimento o respeito que deviam aos seus ascendentes europeus, e para mais de cor branca, como eles dizem estimar sobre todo o resto da população mundial.

Só para agradar aos pujantes países da Ásia decidiram incrementar uma política de confronto com os seus antigos aliados. Aparentemente neste seu desplante deixaram de fora o Reino Unido, quiçá baseando-se no afastamento que o governo actual de Sua Majestade mantêm no propósito de incrementar o afastamento das regras da União Europeia. Por isto se explica a demorada visita de namoro que o presidente dos USA está fazendo ao U.K., hoje já a título privado na Escócia. São salamaleques de namoro.

Paralelamente o oxigenado Trunfa proclama, diz e desdiz, sobre o seu propósito e deixar de ser o braço armado da NATO na defesa da Europa Ocidental, que considera decrépita e ultrapassada. Concretiza as suas queixas pelos montantes que os membros da UE dedicam ao armamento “defensivo”, enquanto que os USA gastam neste capítulo montantes muito mais elevados. Não pode tolerar esta disparidade!

Tentemos olhar desde as bancadas e tentar entender o que de facto sucede. Por um lado já se verificou que os USA não desejam que os conflitos armados aconteçam dentro do seu território. Preferem mandar seus soldados (a ser possível pretos, amarelos e ameríndios de fala castelhana, que se inscrevem como voluntários na fé de que, após uns anos de serviço, de preferência expondo o corpo aos ataques dos seus “inimigos” lhes concedam a opção de se tornar cidadãos de pleno direito) Os governos dos EUA tudo fizeram e farão para que não se repita o ataque a N.Y. Que derrubou as famosas torres gémeas e matou, directamente, centenas de pessoas. Mais os que posteriormente faleceram por causas anexas. Esforçam-se por esquecer a possibilidade de um ataque inesperado. Chegam ao ponto de lançar teorias de conspiração interna nas que se sugere, entrelinhas, que as suas agências de investigação, espionagem e contraespionagem, além de sabedores do plano de ataque, colaboraram no intuito de conseguir um clima de acentuado bloqueio ao exterior, do que eles entendem ser o seu patriotismo de fachada, muito mais promovido com convicção por uma boa parte dos seus habitantes.

Pensam que os possíveis perigos virão do seu ocidente, da Ásia, enquanto que a Europa dos seus pais, avós e bisavós, pode definhar sem que isso os preocupe. Dali é pouco provável que os ataquem, e com a UK do seu lado as garantias são quase certas. Mesmo assim desejam que o mercado para as suas fábricas de armamento de todo tipo, desde pesado até ligeiro, não percam nem um possível cliente. Na UE existem concorrentes que lhes disputam a clientela. Então uma das possíveis medidas a tomar neste assunto é a de os ameaçar em que deixarão, pelo menos como aviso, de ser o seu guarda-chuva. A não ser que se decidam a investir mais do seu orçamento na compra de armamento bélico, de preferência produzido no território dos USA.

Ou seja, como acontece quase sempre, se não mesmo sempre, o que está por trás de conflitos, sejam verbais, de ameaças ou mesmo de guerras, é a economia mais vergonhosa. O que se viu nestas últimas semanas foi mais uma versão da chantagem do poderoso sobre os que são, comparativamente, mais fracos. E com a pressão de os obrigar a gastar mais em armamento caçam dois pardais com um só tiro.

Visto desde outro ponto sabe-se que se um país qualquer desejar ter um orçamento interno equilibrado, e, por pressões externas, fica obrigado a retirar verbas de capítulos de cariz social para satisfazer os desejos de um manifestamente mais poderoso, neste caso concreto em armamento, que os próprios fabricantes se encarregarão de o tornar obsoleto, e daí o ter que comprar a nova versão, será a sua população que ficará desfalcada, sacrificada. Todos os que trabalham na execução de orçamentos sabem que se estica para um lado falta noutro. Nas contas nacionais, antes da moeda única, existia a falsa escapatória de aceitar a inflação, que, aparentemente, colocaria as contas no se devido lugar. A realidade viu-se, sempre, que era muito diferente, pois conduziu a uma acentuada pobreza nas camadas mais desfavorecidas da sociedade, onde se incorporaram novos cidadãos, anteriormente navegando numa classe média instável.

É sabido que dentro da UE há bastantes membros que possuem a sua indústria de armamento bélico, tanto para defesa como para ataque. E que o seu mercado interno não é suficiente para lhes garantir a produção e desenvolvimento. Tem que vender onde houver potencial de interesse em comprar, nem que para isso tenham que incitar, por vias não evidentes, os conflitos. Aqui, no mercado internacional, entram em concorrência com os maiores, entre os quais está em primeiro lugar, e destacado em certos sectores, os USA.

Disto tudo, que é mais do que sabido, restam as pressões para enfraquecer a Europa. Mas fica a certeza de que, caso a situação se tornasse de conflito aberto, a América voltaria a colocar os seus soldados neste velho continente e, com mais interesse, o seu material de guerra, com as facturas correspondentes. Pelo caminho as suas fábricas marchariam a todo vapor, dando lucros fabulosos aos promotores do conflito.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – CAP. 51


O que nos ata

- Tentando escapar dos temas que nos ocuparam nas últimas horas, gostaria que me acompanhasses até os teus novos domínios, onde o Ernesto Carrapato teve a lembrança de recuperar a horta que ali mantinha a minha mãe. Isso se o feitor não estiver presente, pois neste caso recomendo que lhe facilites a oportunidade de brilhar, lhe faças perguntas simples mas pertinentes. Por exemplo, como em que altura é aconselhável semear, ou plantar pés tirados de um viveiro; ou quando pensa que já poderemos consumir algum destes legumes. Tu saberás orientar a conversa.

Olá Amigo Ernesto. A minha esposa insistiu em que viesse com ela para visitar este renascer da horta da minha falecida mãe e que a também já falecida esposa detestava, ou não ligava peva. Dizem-me que está afazer um bom trabalho, e como as minhas recordações de infância estão pouco nítidas apreciaria que, junto com a aqui presente Isabel me dessem umas lições de horticultura e, caso lá tenham chegado, de floricultura. Passo a palavra. Bem, quanto a alfaces, couves, cenouras, salsa e coentros creio que estou aviado. Mas e das flores?

- Marido, tem calma, as flores que se encontraram nos viveiros estão plantadas na parte da frente, em canteiros discretos que não ofusquem a ruralidade, domesticada, de arbustos e árvores. Quando dermos a volta à mansão poderás verificar como daquele lado, o que consideram nobre, também já se iniciou um bom trabalho. Mas a estação está muito adiantada e só conseguiremos algumas flores outonais, que não são as mais espectaculares, destacando, mesmo assim, a família dos crisântemos. Todavia os que se plantaram este ano, caso floresçam, é pouco provável que consigam dar flores grandes e espectaculares. Não podemos alterar o ciclo da natureza. A não ser com as estufas...
Pensamos em procurar roseiras, já enraizadas, para transferir para dar uma moldura colorida e simpática; mas para isso teremos que aguardar pela estação adequada. Confia no Senhor Ernesto e, se cederes na minha capacidade de me instruir, garanto que procurarei literatura de jardinagem, na Vila ou em Aveiro, ou mesmo em Coimbra, depois posso inscrever-me nesta história das novas profissões, caso não estejam limitados à culinária de autor e à informática.

- Por mim tenho que afirmar que fiquei muito interessado e satisfeito com esta iniciativa. Se calhar quem não estará tão contente serão as pessoas do Vale que, até agora nos forneciam deste produtos da terra.

- Não te preocupes. Já passei a palavra, através da Idalina e da Amélia para que sossegassem as senhoras do Vale. Esta horta só será uma brincadeira, que não evitará a dependência dos produtores e fornecedores habituais. Já tínhamos pensado nisso e procuramos evitar rancores sem fundamento.

- Tudo bem quando começa bem, e melhor se termina também da forma mais agradável. E como com isso já estamos quase a chegar à hora do almoço, se não te importes agarrava-te como vítima propiciatória para desbobinar algumas reflexões que, habitualmente, tenho que mastigar a sós, pois são temas que não se podem distribuir como os abraços, sob risco de ser considerado chalado, como mínimo. Eu mesmo não dou valor a estas preocupações despropositadas. Digo, interiormente, que não são mais do que tentativas falidas de filosofia barata. Cá vai disto, agarra-te e faz um esforço de compreensão.

Por muita vontade que coloquemos na tentativa de orientar o nosso comportamento, seja no âmbito privado ou no semi-público(1) como propósito de não nos comprometer, nem de dar sentenças firmes, é de boa cautela não esquecer que todos estamos condicionados por uma série de compromissos, muitos deles com cariz de ser inamovíveis. Estas prisões podem ter a sua origem em diversos capítulos da nossa vida pessoal, desde o que arrastamos por herança familiar ou de grupo, ou das crenças a que se aderiu. Mesmo que racionalmente não lhes demos o valor que se admite, socialmente, que os credos merecem sem discrepar.

Ao longo dos anos qualquer pessoa, considerada como normal -uma valorização bastante ambígua e elástica-, vai tecendo uma rede à sua volta que o inibe de poder pensar, principalmente agir, conforme o seu instinto imediato lhe pede. A sociedade, no seu conjunto funciona, quase que surdamente, aceitando e cumprindo um enorme acervo de regras. No caso de alguém, agindo por impulso ou julgando ser consciente, desobedecer esta cartilha. Pior até se insistir em que pode levar a sua revolta a bom termo. Chegará o dia, mais cedo do que se imagina, em que se encontrará isolado.

Mesmo que decidir recuar, procurar modificar a sua atitude, será muito difícil que possa alterar o retrato que criou e que ficou gravado na mente de quem com ele teve amizade ou qualquer contacto, mais ou menos intenso. Um rifoneiro de 1780 afirma, entre muitos outros provérbios e anexins: A má chaga sara e a má fama mata. Em má hora nasce, quem má fama cobra. Quem má fama tem garantida, morto ainda nela tem vida. Perca-se tudo, fique a boa fama.


(1) O recurso a disfarçar através de um prefixo “semi”, além de me dar a sensação de ser ineficaz, traz-me sempre à mente aquela piada da menina que alegava estar um bocadinho grávida. O utente mais picante desta historieta fechava com a afirmação de que desconfiava disso desde uma meia hora antes, quando practicou o dito amor com o seu namorado, com satisfacção, ardor e sem protecção.

terça-feira, 10 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 50



Ter dúvidas

- Estás convencido de tudo o que me tens dito a respeito do comércio de artigos contrafeitos pelos tais de etnia cigana, e dos acordos, digamos que tácitos por não serem oficiais, entre as autoridades e os delinquentes, nos seus diferentes graus e estatutos? Ou seja, pensas que o que se insinua é uma boa política? É que eu não fiquei muito convencida de que tudo isso funcione por baixo da mesa.

- Utilizaste a palavra-passe, a Política, que sempre está por cima de todas as facetas das nossas vidas. E que eu evito, tanto quanto me é possível, meter. Nisto das políticas em plural, pois existem muitos capítulos neste amplo domínio, a maior parte dela causa-me fastio, além de descrédito. Penso, e estou a ser meigo, que devem existir pessoas com muito boas intenções que decidem meter-se no campo dos políticos veteranos, profissionais, com a pretensão de encarreirar ou corrigir coisas que considera, e com razão e motivos mais do que suficientes, que não são conduzidos em consonância com a vontade e necessidades dos cidadãos. Ele, o tal utopista, dando crédito ao que ouve dizer por boca de alguns concidadãos, imagina que se pode sentir apoiado por uma força social, que imagina corresponder a um apoio incondicional por arte dos sempre queixosos. Pode chegar a um nível de convicção, irreal, que o leve a tentar penetrar num vespeiro que, de facto, desconhece.

Estes românticos sociais, se são coerentes de si próprios e não toleram ser constantemente ignorados, ou mesmo despeitados, por aqueles que já considerava serem seus pares, o mais provável é que desista a tempo, ou seja, mesmo antes de começar, antes de que se transforme num vendido, em mais um zangão, que só estão para promover os interesses pessoais e de grupo; seguir as directrizes da cúpula, que são os que distribuem as benesses. Em resumo, o campo da política não se pode considerar um território apto para pessoas escrupulosas.

Não sei se respondi cabalmente ao que perguntaste. Pela tua cara parece que não. Verei de ser mais concreto, de descer até a questão das feiras e de como penso que as coisas funcionam por trás do pano. Sim, porque aquilo que te disse não está confirmado por nenhuma opinião externa; são simplesmente cismas minhas, que imagino não estarem muito longe da realidade. Quanto se entendo que, caso as coisas funcionem como penso, constituem uma política correcta, aceitável, sensata, não te posso responder com convicção, pois não duvido de que haverá quem discorde, total ou parcialmente. Assim como os há que, nem que seja pelo silêncio, mostram que esta deve ser a atitude certa, a mais útil para a sociedade em que vivemos.

Seja como for, e dado que me acompanhas desde algum tempo, sabes que me é impossível ficar sempre ao largo dos políticos, e que todos aqueles que estão ligados à estrutura governamental, principalmente se ocupam lugares daqueles que mudam de titular quando se altera o esquema do poder, os que são escolhidos a dos pelos eleitos entre os seus apoiantes. Por isso quando tenho algum assunto a tratar com algum dos servidores comprometidos, como é o caso dos presidentes de câmara e de juntas de freguesia, entre outros, procuro evitar opiniões que colidam com a política pura e dura. O melhor, entendo eu, é limitar-me ao papel de um simples cidadão, embora que no degrau da escala que me pertence. Um trato quanto mais possível de igual para igual. Mesmo quando se pede um favor sem ir à fila onde se apresentam os requerimentos e se aguarda para ser atendido. Mas, jamais, comprometo as minhas simpatias ou mando recados acerca das minhas preferências na ocasião de votar. Caso me apresente nas urnas.

Este terreno é um fétido lamaçal, e se temos que entrar na orla, é pertinente calças botas de borracha. De cano alto até a cintura se o assunto prometer que pode ir mais longe do que a prudência pessoal consente. Não sei se te disse que, ao longo de anos, antes e depois da casado com a falecida Constança, e até quando era estudante em Coimbra, fui inquirido para formar parte da Associação, de várias Juventudes partidárias e depois para os partidos “a sério”, além de Rotários, Lyons e outras beneméritas associações. Sempre escapei alegando que tinha compromissos que não me pareciam ser compatíveis, e nem tempo disponível; que agradecia o convite mas que, sinceramente, não me considerava poder vir a ser um membro útil.

- Mas tanto o teu pai como o teu avô creio recordar teres dito que pertenciam à maçonaria, ao Grande Oriente Lusitano, ou ao seu equivalente naquela época. E tu? Tiveste coragem e arrojo para não aceitar, nem que fosse por descendência directa?

- Tive que aceitar, para não ofender certas personalidades que respeito dentro daquela ordem reservada e sigilosa. Tenho que te mostrar a tralha que constitui a farpela, que dizem terem herdado dos pedreiros franceses, especialmente os que se encarregavam de erguer catedrais, palácios e edifícios públicos que foram representativos e merecedores da vaidade dos cidadãos. Estes pedreiros “livres” constituíam um grémio fechado, tal como os dos ourives e outros artífices reputados, tinham as seus estatutos, regras, tribunais, examinadores para aceitar ou expulsar membros; reuniões teatrais que ainda permanecem entre eles, ritos mais esotéricos e caricatos do que próprios de pessoas respeitáveis. Ou seja, que a mim esta parafernália não me cativou e, progressivamente, deixei de participar. Mas ainda tenho, numa caixa escondida, o avental, o colar, o punhal e outras brincadeiras que devia envergar. Um dia terei que te mostrar.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 49




Divagações infundadas

- Desculpa por ontem não dormir em casa. Mas fui dando notícias durante o dia, e fiquei para jantar com um sócio com quem era indispensável ter uma conversa calma, e sem testemunhas que interferissem. O encontro prolongou-se até que tiveram que nos avisar de que fechavam o local. Ainda paramos no bar do hotel para fechar, ou continuar, alguns temas. Além de que as conversas com talheres e outras com um whisky velho no copo são mais descontraídas, coisa que me interessava, pois este Sousa -se calhar não te identifiquei o parceiro deste encontro. Não foi por mal, nem para esconder coisas, mas já sabes da história da boca fechada e das cautelas com caldos de galinha.

Seja como for, este Nelson DE SOUSA conhece o ramo têxtil do norte palmo-a-palmo, tanto dos maiores como até a mais pequena chafarica. E eu, entre outras muitas coisas que me aquecem a cabeça, ultimamente estive atando nós sobre este ramo da economia. Foi o visitar os terrenos do Ortega, mais propriamente as feiras onde os seus “súbditos” negoceiam, que me levou a ter meditações ao nível do absurdo. Ou nem tanto ...

- Tinha ideia de que esta actividade industrial dos têxteis não te era estranha, mas não estava a par da importância que lhe devotavas. Aliás. E para atender aos teus desejos, sempre procurei não espiolhar nos teus assuntos. Dizes que quanto menos souber, melhor para mim e para ti. Mas desta vez, se calhar sem o pretender, acendeste a chama da curiosidade. Agora terás que por mais alguma coisa no prato, por assim dizer.

- Tens razão. Mais uma vez. E as coisas são muito evidentes. Passa-se tudo em frente do nosso nariz e, precisamente por ser tão óbvio, não ligamos demasiado. Acontece como avisa o refrão A árvore esconde o bosque,
que nos diz como aquilo que nos chama a atenção nos impede de atender ao que está por trás. Os ilusionistas, ou mágicos se preferires, usam constantemente esta técnica.

- Se não te explicas melhor, e com casos concretos, digo-te que fiquei pior do que na mesma. Estas generalidades são muito interessantes, mas preciso, por ser burra, de poder localizar o ponto onde ajustar a pontaria.

- É que não me deixaste terminar. Aliás, creio que para que tudo fique mais diáfano, e por não ser a síntese o meu forte, necessito de bastante tempo a discursar. Tudo começou quando se tornou evidente aquilo que sempre suspeitei: que deve existir, ou existe mesmo, um acordo no nevoeiro entre o sub-mundo do crime, ou em partes dele, e o sector oficial de quem incumbe a repressão.

Todos sabemos que por trás de eufemismos, de cenários inócuos, se escondem realidades que não se deseja se tornem públicas. Por exemplo, se nos dizem que “fontes reservadas” (ou outra frase equivalente) nos informaram de..., o mais provável é que ali existem denuncias. Que há bufos não temos dúvidas. Sempre os houve e os haverá. Quem estiver interessado e saber o que não se conta procura levantar o véu daquilo que se deseja fique escondido. Para o conseguir tem que procurar alguém que esteja por dentro e disposto a colocar a boca no trombone, sempre e tanto que, para este “benemérito” lhe seja oferecida uma contrapartida interessante. Isto é o que sucede geralmente, tanto no ramo oficial como no privado.

Por vezes nem é preciso “corromper” ninguém. Basta estar atento e ouvir, assentar as coisas interessantes e unir as pontas soltas. É o que eu fiz. Começando por algum lado, sabes que existe um mercado da contrafação, especialmente presente nas feiras periódicas por todo o País, e que os vendedores, practicamente exclusivos, são de etnia cigana. Pertencentes a diferentes famílias, que distribuem o território entre elas, em acordos tão firmes como se fossem assinados com sangue -pelo menos é o que imagino- e sem necessidade de passar pelo notário.

E não tarda que se pense onde é que estes comerciantes ambulantes se abastecem? Podíamos imaginar que as mercadorias lhes podiam ser enviadas desde Marrocos, Espanha, Itália, Turquia ou outro país qualquer, pois creio que em todo lado existe um núcleo de copistas trabalhando com um à vontade de espantar.

Pois, depois de ver, com olhos de ver, a zona do têxtil em Portugal e sabendo mais algumas coisas além do muito que a população em geral conhece, tenho a certeza de que estas cópias falsas são produzidas aqui, neste rectângulo, jardim à beira mar. E TODOS sabem disso. É impensável que ignorem uma indústria paralela que dá trabalho a muita gente, que alimenta muitas famílias, onde trabalham sem vínculo legal desde as avós às crianças que ainda não atingiram a idade legal para trabalhar. Tudo isto é arquiconhecido. E podes perguntar porque é permitida esta falcatrua, este desfalco ao fisco e às leis do trabalho e da protecção industrial?

As razões são múltiplas. Para começar não desvalorizamos que um sector importante da população está na pobreza ou nos limites. Que os impostos, seja Iva ou Profissional, que não se cobram de imediato, virão depois ter à tesouraria através do consumo. E que os pobres já não amealham como antigamente, são adeptos, por pressão do mercado, ao conhecido chapa ganha chapa gasta, de onde já abrirá os cordões à bolsa quando se abastecer no super ou hiper, mesmo no caso de que nestes locais exista algum alçapão, coisa que desconheço mas que não me admiraria. Pior do que o não amealhar é que são induzidos a pedir créditos bancários para diversos propósitos, desde a compra de casa até carros ou férias. Ficam presos pelo pescoço, como numa coleira, e estarão sempre com o credo na boca.

Por outro lado podemos perguntar quem pressiona a ASAE para travar o comércio de contrafeitos, sejam têxteis, malas ou sapatos? É evidente que devem ser as grandes marcas, as da publicidade dirigida a quem dispõe de um poder de compra que não está ao nível do todos os que frequentam as feiras. Mas quem é que tem pena das grandes marcas? E deixemos de lado, apesar de não ignorar, a invasão de produtos fabricados no oriente, em especial na China, depois desta quase que liquidar o Japão no pequeno e grande comércio.

E será que os feirantes não sabem, com antecedência, que serão visitados? Não só pelos inspectores da dita ASAE, sempre acompanhados por membros da PSP da terra onde se realiza o mercado. E será que na esquadra ninguém é “amigo” dos ciganos e os avisa a tempo e horas? E que os feirantes, colocam material com pouca venda nas bancas para que os inspectores encham sacas e sacas? E depois façam uns magníficos relatórios?

- E tu tens a certeza do que tens estado a contar? Quem é que te deu estas indicações?

- Ninguém. Podes estar certa. Todos se fecham em copas. Mas as coisas funcionam, à vista de toda a gente. Nunca te perguntaste como podia ser isso, tantos descuidos, tanta boa vontade? É uma questão de bom senso. E admito que ficaram mais algumas coisas por referir. Isabel, este mundo, como dizem os italianos, é um mondo cane, mundo cão em português, mas eu encontro um sabor especial ao italiano.

Na Itália. Especialmente no sul, o mundo do contrabando e das falsificações de todo género, além de muitos outros negócios, como o das obras públicas de grande porte, consta que está nas mãos das máfias, que tanto se podem chamar de camorra em Nápoles e arredores, como cosa nostra na Sicília. Diferem no nome e nos chefes, capos, na sua língua. Sabias que quando os aliados, nomeadamente os americanos, decidiram desembarcar na Itália encarregaram-se de estabelecer e garantir o apoio da subterrânea máfia, através dos seus mafiosos residentes? E que foram os mafiosos radicados nos USA que, com promessas de liberdade e imunidade, se encarregaram dos contactos com os seus primos latinos?

- E será que estas entradas de mafiosos do leste Europeu prenunciam um domínio estrangeiro dos negócios escuros e perigosos na nossa terra? O que aconteceu no Vale deve levar-nos a pensar. Eles andam por aí. Pelo menos é o que noticiam os tabloides nacionais.


domingo, 8 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 47º


Conversa ao serão

- Deves estar fatigado e com a garganta seca depois de me relatares, com tantos pormenores, o que te contaram neste dia tão intenso. Especialmente o que descreveu o Rei Rafael Ortega. Não vou dizer que fiquei admirada pela reserva do Inspector Cardoso, pois o que escapava da normalidade era a inesperada confiança que te ofereceu este membro da practicamente “secreta”. Se calhar o que queria era meter-te os dedos na boca para verificar se tu estavas, nem que fosse desde nua posição secundária, metido naquelas deposiçoes de cadáveres. Sejam quais forem as razões que o levarem a ser mais fechado, o mais provável é que tenha encontrado um muro de silêncio e oposição interna, oficial ou oficiosa pois para o caso vai dar ao mesmo, no que se refere a identificar quem contratou os assassinos, apesar de que inicialmente se tratassem de seguranças (?). Igualmente deve estar na pasta do reservado, saber acerca dos estatutos tinham não só os organizadores da orgia como os selectos convidados. Vamos dar tempo ao tempo, pois nem que seja por vias travessas alguma coisa chegará aos nossos ouvidos.

- Tens razão no que dizes. Como quase sempre. Pronto, não faças caretas! Rectifico para SEMPRE! O que agora quero é saber das fofoquices dos salões, que pelo avanço que me deixaste, não incluem mortes, mas algum sangue sim que foi derramado.

- Afinal tomaste sentido no que disse antes da tua longa dissertação. Pois aí vai disto! Recordas que semanas atrás contei que constava que a mulher do Presidente da Câmara do Vale era uma ninfomaníaca, ou seja que tinha um intenso calor uterino, quase que fogo ardente? E que, com todo o desplante, recebia os seus variados amantes na própria casa, e certamente que no leito conjugal? E que uma vez combinados os encontros, indicava quando o terreno estava desimpedido, colocando um lenço estampado em cores vivas numa janela?

- Até aqui tenho estes elementos no meu arquivo. Mas depois disto nada mais contaste e eu, por respeito e prudência, não tentei sondagens noutras fontes. Estas pesquisas dão melhores frutos quando feitas através das astutas fêmeas. E estou curioso em saber o que guardas sobre este múltiplo adultério.

- Dizem, por relatos caseiros entre lençóis de casais em que um dos membros está instalado na Câmara, que as piadas sobre maridos enganados, cornos mais completos do que os dos veados e dos extremos com que alguns cornúpetos aceitavam a situação, que era impossível que, nem que fosse propositadamente, não chegassem aos ouvidos do infeliz “enganado”. Por isso quando se viu que, repentinamente e largando os seus compromissos oficiais, coisa que nunca tinha feito, o presidente saiu pela porta fora, entrou no carro, dispensando o motorista, e se dirigiu em velocidade acelerada para a sua residência, foi uma corrida para as janelas e telefones para ver o que estava para suceder. Aquilo cheirava a esturro.

O consentido entrou em casa, sem barulho, e uma vez dentro só se ouviu um disparo e, sem demora, saiu pela porta um fulano -que alguns dos mirones identificaram- correndo aos saltos enquanto mantinha uma mão, ensanguentada, apertando uma nádega, a esquerda se não estou enganada. Para onde foi não sei, mas certamente que algum médico ou enfermeiro lhe teve que retirar o projectil e dar uns pontos de sutura, além de alguma pica para evitar infecções, e mais outros para as dores, pois se dizem que o rabo não tem sentimentos, até os beliscões de amizade e assédio doem, quanto mais um tiro bem dado.

- E a esposa? Ficou na cama como a Vénus do milho, mas com os braços em activo? Ou será que o marido, entrou no campo mesmo que enlameado?
- Esta pergunta a sentiram por igual os mirones e coscuvilheiras locais. Continuaram à espreita. Até ver, passado pouco tempo, como saiu o casal carro o casal, com ar carrancudo e sem os cumprimentos habituais aos que encontraram. Seguiram em direcção desconhecida, mas pela estrada a nascente. Ninguém se atreveu a seguir a viatura, por mais curiosidade que sentissem. Decidiram dar tempo ao tempo, esperar que se soubesse.

No dia seguinte, alguma cliente do salão, deu a novidade, que ela considerava certa, de que o marido a entregou aos pais “da noiva”, que já devem ter bastante idade e não sabemos como aguentaram este golpe social. Que, nem sequer se pode considerar inédito, pois de cornos ignorados e dos consentidos estão as ruas cheias. E actualmente, com tantas mulheres trabalhando fora de casa, principalmente em escritórios, convivendo com elementos do sexo oposto dizem que isto é mais do que corrente. E mesmo com colegas do mesmo sexo, pois se sempre existiram lesbianas agora, que se habituaram ao nome fino de safistas, já se sentem com o direito de surgir ao sol, abraçarem-se, apalparem-se e beijarem-se em público, além de inclusive casarem pelo registo e insistirem em procriar com sémen de anónimos. Já sabes como o ambiente social mudou!

- Eu gostaria de trocar impressões contigo acerca de umas ideias que me tem andado às voltas pela mioleira. Não é que corresponda a algum relato recente. Nem sequer me deram dicas para isso, mas atando fios de um lado e de outro, cheguei à conclusão de que devia ter prestado mais atenção, ou curiosidade, ao facto do porque as famílias ciganas podem ter um estatuto tão especial, concretamente quanto ao não cumprir as regras que, aparentemente, deviam seguir. Dito com outras palavras. Se pelos acontecimentos do Vale nos foi dado saber da existência, factual mas não escrita no Diário da República, de um entendimento com décadas de vigência, entre estes de uma etnia específica e as autoridades nacionais de controle económico, criminal e social.

Mas esta palestra a temos que guardar para mais adiante. Talvez ao serão desta noite, pois agora tenho que sair para tratar dos meus negócios, que não só de conversa se pode manter a nossa vida. Entendes? Pelo teu acenar de cabeça sinto que assim é. Em princípio devo tratar num só dia, mas pode ser que tenha que prolongar a viagem para amanhã. Na previsão já preparei um rodinhas com umas mudas de roupa interior e camisas, e mais o equipamento de asseio. Seja como for eu irei dando notícia pelo telelé.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap 46º


Primeiro relatório caseiro

- Zé, já estava preocupada contigo. Saíste logo depois de engolir o mata-bicho, e de então em diante foi como se tivesses sido raptado pelos extraterrestres. Nem uma chamada de telefone até agora.

- Desculpa Isabel, mas as coisas encandearam-se de uma forma até misteriosa. O Doutor Cardoso, com a desculpa do segredo de justiça fechou-se em copas; não abriu boca e despachou-me para o rei dos ciganos, o Ortega, que conheces. Para me sossegar disse que o Ortega sabia tanto quanto ele e que com certeza que não teria rebuços -se preferires escrúpulos- para me informar. Mesmo assim quase que marcou um almoço, para conversar fora de portas, com os dois casais. E propôs que a sua mulher, de nome Diana, combinaria a data e local directamente contigo. Estes homens da polícia são muito cuidadosos...

Como já era hora de almoço e porque com a boca cheia é mais fácil despegar os dentes e dar à língua, liguei logo para o Rei Ortega para ver se estava disponível. Encontrava-se na feira de Montemor e ficamos em almoçar os dois, sem companhias. O lugar do encontro e do almoço era meu conhecido, de forma que não tive que andar à procura. A refeição foi agradável. Uma caldeirada à Montemor! Nunca imaginei procurar uma caldeirada sem ser à beira-mar. E ao longo de uma sobremesa demorada o Ortega fez-me um relato muito detalhado do que sucedera enquanto estávamos “fugidos”. Hoje sinto que foi uma excelente ideia o deixar terra pelo meio enquanto se dava tempo para que as coisas evoluíssem.

E mal nos despedimos fui procurar o carro e ligar para ti. Como não se pode falar pelo telefone enquanto se conduz, vou desligar e sigo para casa. Ali te conterei do que soube. Não me demorarei.

- Não tenhas pressa, conduz com cuidado, para podermos trocar novidades sem ser no hospital. Também tenho algumas coisas para relatar. Beijinho.

- Cheguei! E há qualquer coisa de novo nesta entrada. Seja nos canteiros ou nos arbustos e árvores. Olá! Estavas à janela para me ver chegar?

- Com certeza. O que pensavas, que estava na palheta com alguma vizinha? Nem sequer vizinhos temos! Entra e refresca-te, um duche e mudar de roupa fazia-te bem. E eu estarei ao pé de ti para te adorar!Antes vou dizer que nos preparem um lanche ajantarado para daqui a hora e meia, duas horas, pelo menos para mim, pois a tua barriga mostra bem que o almoço não foi de passar fome.

- Além de dona de casa e esposa cuidadosa saíste uma fiteira. Essa de me adorares é de força. Não sei se é para me rir ou para me aborrecer; para mais porque até hoje nunca me mimaste com uma pirosice deste teor.

- Apeteceu-me brincar contigo, e já sabia que pensas ser tu, em exclusividade, que tens alvará para brincadeiras. Mas, se preferes, entremos na real, como dizem os brasucas. E antes de chegar ao prato forte vou dar as novas caseiras.

Encontrei a casa não só limpa mas brilhante como as alfaias do altar. O pessoal feminino deve ter-se esmerado para nos mostrar que valem o que lhes pagamos, e possivelmente mais. Não penso que nos tempos da tua falecida esposa Constança a casa estivesse mais cuidada do que hoje. Do jardim já não aposto, pois desde início que ouvi que a mãe dos teus filhos (estes que conheço, caso não haja outros por aí...) era muito dedicada e conhecedora da jardinagem. Mesmo assim, e por sua conta. Quiçá recordando que vira anos atrás, o Ernesto fez um grande esforço para dar um melhor visual, pois parece que enquanto estavas “solteiro” por viuvez, pouco te ralaste com a parcela de jardim em frente da mansão.

- Mentiria se dissesse que não reparei, ainda no carro, de que havia coisas novas ou com cuidados recentes no jardim fronteiro. Mas daí a merecer um alarido parece um pouco exagerado.

- Podias ter aguardado que eu terminasse a minha página caseira. O que mais me sensibilizou foi ver que, também o Ernesto, com algum homem avulso para ajudar, limpou um bom talhão nas traseiras e preparou canteiros para criar uma horta que abastecesse a cozinha da casa. E já tem alguns pés a crescer. Temos alfaces, pimentos, tomateiros, pés de cebolas e couves de diversas variedades: galega para crescer em altura e fornecer folhas para o caldo verde, portuguesa para cozer com bacalhau ou no cozido, couve-flor, brócolos e couve para grelos. Vou mostrar-te tudo isto, e também os canteiros já com sementes de cenouras e rabanetes a despontar. Diz que os alhos terão que se plantar mais adiante, quando passar o calor. Sei lá, parece que temos hortelão. E eu estava ansiosa para isso, embora nunca te falei neste desejo.

E agora o assunto de peso. Há poucos dias colocaram outro cadáver no mesmo local. Não te quis dizer isso de entrada para não estragar o momento. E nem imaginas como está o pessoal, o Vale na generalidade e eu mesma, que tenho sentido tremeliques pelo corpo.

- Calma Luísa. Esta era uma das coisas que o Cardoso não me quis contar e guardou para o Ortega, que explicou-me tudo em pormenor. Contar esta novidade como mereces não é coisa de se fazer aqui, em pé, a frio. Mas creio que as preocupações maiores já passaram. Para já adianto-te que este derradeiro morto é um dos bandidos que mataram os dois mortos anteriores. Ao todo eram quatro, e foram identificados rapidamente graças às descrições que a polícia foi juntando, e as fichas da Interpol e da Polícia, que os tinha sob uma vigilância pouco intensa, pelo que se viu das andanças. Tanto aqui como no local onde se deu a tal festa que eu imaginei ser a base dos sucessos, e que quase acertei no alvo. Fiquei perto, pelo que me contaram hoje.
- Dois morrerem, ou foram mortos enquanto estávamos fora, e este derradeiro deve ter sido sacrificado pelos outros membros da quadrilha quando já viajávamos de regresso. Não me perguntes mais detalhes agora. Depois, com calma, te contarei o filme juntando as peças que vieram a meu conhecimento.

E dos teus negócios, não tens nada para me contar? Aposto que nos dois salões se noticiaram novidades. Todos os dias há motivos de fofoquices entre mulheres. E se me deres um aperitivo do que foi mais saboroso?

- Está bem. Teremos um serão longo e entretido, que nos deixará dormir sossegado, a fazer juízo pelo que contas. Dos meus lados, e não adianto nada, soube que se deu uma cena de tiros, de faca e alguidar, em casa de um personagem da política local. Não houve mortes, mas alguém ficou com mais um furo onde as costas mudam de nome. Esta te fará rir.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap 45º



A caldeirada já foi

- Então Amigo Maragato, que me diz desta caldeirada à Montemor? Não é necessário que me diga que em vez de moreia ou safio encontrou enguias. Mas e o resto, e o tempero?

- Confesso que jamais na vida me passaria pela cabeça vir comer uma caldeirada de peixe aqui. Habitualmente. Além de alguns tascos célebres de Aveiro, eu iria até Buarcos, onde conheço excelentes cozinheiros e cozinheiras. Mais elas do que eles, que sem desmerecer dos homens com avental, no computo geral as mulheres levam a palma. Também tenho que admitir que a sua previsão acerca de que dois bons garfos não conseguiríamos dar cabo da caldeirada, estava certa. Mesmo assim não me sinto perdedor, pois captei que o Ortega já bateu esta praça, e muitas outras, desde anos atrás e, por isso, joga sempre em casa, o seu terreno.

Também deixo as sobremesas à sua escolha, embora sem desprezar a prova dos doces não dispenso uma talhada de melão, casca de carvalho se o tiverem e seja bom. E atrevo-me a pedir que, enquanto moemos o prato principal, entremos na segunda parte da conversa, e assim reclamar da promessa.

- Há bastante que contar e aquilo que hoje não ficar totalmente claro teremos outras ocasiões para entrar em detalhes. Indo ao que mais importa. Por boca de contactos individuais, com elementos do pessoal menor, que sempre sabem muito mais do que os chefes imaginam, soubemos que, de facto, os organizadores contrataram para serviço de segurança quatro elementos da máfia internacional, cujas identificações coincidiam com as que apurou a PJ. Simplesmente não se conseguiu apurar nada concreto para os incriminar. Não admira, pois são malta batida e sabem que tinham as costas quentes. Os testemunhos que os viram a festa e na mata eram coincidentes, mas segundo a polícia, inúteis para conseguir uma condena. O único caminho que restava era o de agir com as mesmas armas dos mafiosos, e para isso o Dr. Cardoso afirmava que nas famílias ciganas havia elementos mais capazes do que nos membros das ditas forças da ordem.

Em princípio aceitamos vigiar e seguir a caça, evitando que nos fugisse da mão. O aplicar justiça por conta alheia não é coisa que se possa admitir sem uma profunda justificação. Sugeri ao Doutor que, usando elementos de saias, podíamos conseguir alguma desunião entre os membros daquele exército tão complexo, com tantas nacionalidades e costumes. Temos mulheres e raparigas muito capazes de dar a volta a qualquer macho, e no rescaldo levar a fortes ciumeiras entre candidatos a comer o doce. Uma vez que, subterrâneamente, se conseguisse quebrar o aço daquela fortaleza, sendo eles fortes de músculo e gatilho, eram com certeza fracos em perspicácia. A muito de um lado corresponde pouco de outro.

- E esta táctica deu resultado?

- Não sei ao certo. Sei que a Lola, uma mulher jovem, experiente, das que enganam turistas fingindo que sabem ler a sina, enfeitiçou um romeno e um croata, duas bestas de volume considerável; só músculos. Foram vistos a discutir por palavras e gestos. O romeno querendo ter ascendente porque, afirmava convicto, que ele também era de etnia cigana e por esta razão reclamava o direito de conquista da Lola. Como evoluiu esta quezília não sei, mas passados uns dias encontraram o corpo do croata nas rochas do Cabo Carvoeiro. Já só restavam três. E eu dei ordem para que a Lola fosse viajar, rapidamente, até casa duns parentes que moram em Granada. Ninguém, mesmo ninguém, entre os meus fez a mínima referência ao falso namoro desta sacrificada Lola. Que levou um envelope bem cheio com euros para compensar o seu esforço.

- Ortega. Antes que continuemos e este capítulo se perca, faço questão para ser da minha bolsa que se deve liquidar esta gratificação. E não quero conversas ao contrário. Amigos são amigos e responsabilidades são de cada um.

- Já falaremos disso com calma. Já disse que ficavam três malandros a punir. Conversando, sempre sem testemunhas nem gravadores, com o Dr. Cardoso pensamos em se lhes poderíamos armar uma ratoeira que levasse a uma cena de tiros onde “os nossos”, da união inexistente, tivessem boas hipóteses de apanhar algum deste peixe. Sugeri fingir que na feira de gado de Viseu se fizessem umas grandes vendas, como sempre a dinheiro. Tanto vendedores como compradores seriam gente “da casa”, e portanto seria a dinheiro vivo (aparentemente, pois que misturar folhas de jornal com notas para fazer maços e uma das nossas habilidades. Temos treino constante!) A minha gente não entraria com armas de fogo, mas sempre existem navalhas que bem trabalhadas podem enviar para os anjinhos o mais astuto dos paios. Armas de fogo e os melhores atiradores disponíveis na polícia ficariam de atalaia, aguardando os nossos sinais.
- E conseguiram caça?
- Nem tudo. Dois foram abatidos no local, o romeno e um outro que não esteve no Vale. Da tropa de elite só houve um ferido sem gravidade. E restaram dois dos quatro que o incomodaram.
- Em tão pouco tempo conseguiram, as forças conjuntas, mas sempre com o importante contributo dos elementos do grupo do Ortega, uma verdadeira proeza, pois não podemos esquecer que aquela malta não são propriamente meninos do coro. É pena que ficassem dois.
- Não se lamente antes de tempo. Parece que aquele forasteiros entraram em crise e que se sentiram demasiado vigiados nesta zona. As bulhas continuaram, por motivos e razões que desconhecemos, mas dias antes do vosso regresso encontraram um corpo, nu e de mãos e pés atados, precisamente no local que anteriormente profanaram. Foi identificado pela Interpol como um dos membros do gangue, e por cá viu-se que era mais um do quarteto. Restava um. Comentou-se de que çhes cheirou existirem represálias pelo atrevimento de colocar vítimas deles no vosso terreno. É possível que com este sacrifício pretendessem conseguir uma espécie de armistício.
- Não me diga que também liquidaram este último?
- Não, nada disso, nem do terceiro tivemos ou a PJ a mínima ingerência. A vigilância continuou e no dia do vosso regresso passaram três carros cheios de indivíduos mal encarados por Vilar Formoso, rumo a Espanha e possivelmente a países europeus que não tivessem memória visual da sua estadia em Portugal. Dr. Cardoso me informou de que entrou em contacto imediato coma Interpol, e directamente com a delegação em Espanha e a Francesa para que os vigiassem.

- O Amigo Ortega tirou-me uma grande preocupação de cima, e estou ansioso para poder contar estas novidades à minha mulher. Bem me anunciou que trazia boas novas, mas nunca imaginei que seriam tão completas, mesmo que, por enquanto, Ainda um deles ande a monte, como quem diz. Deixe-me pagar este almoço, e espero que quando tiver tempo livre em Aveiro me avise para ter mais uma conversa.

Venha este abraço, bem à vista de todos. E agradeço, de todo coração, os esforços de vigilância que os seus amigos, não só do seu clã mas também de outras famílias desta grande etnia portuguesa.

- Maragato, não exagere. Sei bem como é a minha gente, e nem todos são iguais, tal como acontece com os paios. Para já, desde muito novos trazem visco nos dedos e a noção de propriedade privada,pelo menos no que respeita aos não ciganos, lhes é bastante indefinida,por dizer de alguma forma menos agressiva. Mas são amigos fieis de quem decidem podem situar neste cacifo. Os outros... o melhor é não esclarecer. Boa viagem e cumprimente a dona Isabel de minha parte. É uma boa companheira para si.