quinta-feira, 5 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap 46º


Primeiro relatório caseiro

- Zé, já estava preocupada contigo. Saíste logo depois de engolir o mata-bicho, e de então em diante foi como se tivesses sido raptado pelos extraterrestres. Nem uma chamada de telefone até agora.

- Desculpa Isabel, mas as coisas encandearam-se de uma forma até misteriosa. O Doutor Cardoso, com a desculpa do segredo de justiça fechou-se em copas; não abriu boca e despachou-me para o rei dos ciganos, o Ortega, que conheces. Para me sossegar disse que o Ortega sabia tanto quanto ele e que com certeza que não teria rebuços -se preferires escrúpulos- para me informar. Mesmo assim quase que marcou um almoço, para conversar fora de portas, com os dois casais. E propôs que a sua mulher, de nome Diana, combinaria a data e local directamente contigo. Estes homens da polícia são muito cuidadosos...

Como já era hora de almoço e porque com a boca cheia é mais fácil despegar os dentes e dar à língua, liguei logo para o Rei Ortega para ver se estava disponível. Encontrava-se na feira de Montemor e ficamos em almoçar os dois, sem companhias. O lugar do encontro e do almoço era meu conhecido, de forma que não tive que andar à procura. A refeição foi agradável. Uma caldeirada à Montemor! Nunca imaginei procurar uma caldeirada sem ser à beira-mar. E ao longo de uma sobremesa demorada o Ortega fez-me um relato muito detalhado do que sucedera enquanto estávamos “fugidos”. Hoje sinto que foi uma excelente ideia o deixar terra pelo meio enquanto se dava tempo para que as coisas evoluíssem.

E mal nos despedimos fui procurar o carro e ligar para ti. Como não se pode falar pelo telefone enquanto se conduz, vou desligar e sigo para casa. Ali te conterei do que soube. Não me demorarei.

- Não tenhas pressa, conduz com cuidado, para podermos trocar novidades sem ser no hospital. Também tenho algumas coisas para relatar. Beijinho.

- Cheguei! E há qualquer coisa de novo nesta entrada. Seja nos canteiros ou nos arbustos e árvores. Olá! Estavas à janela para me ver chegar?

- Com certeza. O que pensavas, que estava na palheta com alguma vizinha? Nem sequer vizinhos temos! Entra e refresca-te, um duche e mudar de roupa fazia-te bem. E eu estarei ao pé de ti para te adorar!Antes vou dizer que nos preparem um lanche ajantarado para daqui a hora e meia, duas horas, pelo menos para mim, pois a tua barriga mostra bem que o almoço não foi de passar fome.

- Além de dona de casa e esposa cuidadosa saíste uma fiteira. Essa de me adorares é de força. Não sei se é para me rir ou para me aborrecer; para mais porque até hoje nunca me mimaste com uma pirosice deste teor.

- Apeteceu-me brincar contigo, e já sabia que pensas ser tu, em exclusividade, que tens alvará para brincadeiras. Mas, se preferes, entremos na real, como dizem os brasucas. E antes de chegar ao prato forte vou dar as novas caseiras.

Encontrei a casa não só limpa mas brilhante como as alfaias do altar. O pessoal feminino deve ter-se esmerado para nos mostrar que valem o que lhes pagamos, e possivelmente mais. Não penso que nos tempos da tua falecida esposa Constança a casa estivesse mais cuidada do que hoje. Do jardim já não aposto, pois desde início que ouvi que a mãe dos teus filhos (estes que conheço, caso não haja outros por aí...) era muito dedicada e conhecedora da jardinagem. Mesmo assim, e por sua conta. Quiçá recordando que vira anos atrás, o Ernesto fez um grande esforço para dar um melhor visual, pois parece que enquanto estavas “solteiro” por viuvez, pouco te ralaste com a parcela de jardim em frente da mansão.

- Mentiria se dissesse que não reparei, ainda no carro, de que havia coisas novas ou com cuidados recentes no jardim fronteiro. Mas daí a merecer um alarido parece um pouco exagerado.

- Podias ter aguardado que eu terminasse a minha página caseira. O que mais me sensibilizou foi ver que, também o Ernesto, com algum homem avulso para ajudar, limpou um bom talhão nas traseiras e preparou canteiros para criar uma horta que abastecesse a cozinha da casa. E já tem alguns pés a crescer. Temos alfaces, pimentos, tomateiros, pés de cebolas e couves de diversas variedades: galega para crescer em altura e fornecer folhas para o caldo verde, portuguesa para cozer com bacalhau ou no cozido, couve-flor, brócolos e couve para grelos. Vou mostrar-te tudo isto, e também os canteiros já com sementes de cenouras e rabanetes a despontar. Diz que os alhos terão que se plantar mais adiante, quando passar o calor. Sei lá, parece que temos hortelão. E eu estava ansiosa para isso, embora nunca te falei neste desejo.

E agora o assunto de peso. Há poucos dias colocaram outro cadáver no mesmo local. Não te quis dizer isso de entrada para não estragar o momento. E nem imaginas como está o pessoal, o Vale na generalidade e eu mesma, que tenho sentido tremeliques pelo corpo.

- Calma Luísa. Esta era uma das coisas que o Cardoso não me quis contar e guardou para o Ortega, que explicou-me tudo em pormenor. Contar esta novidade como mereces não é coisa de se fazer aqui, em pé, a frio. Mas creio que as preocupações maiores já passaram. Para já adianto-te que este derradeiro morto é um dos bandidos que mataram os dois mortos anteriores. Ao todo eram quatro, e foram identificados rapidamente graças às descrições que a polícia foi juntando, e as fichas da Interpol e da Polícia, que os tinha sob uma vigilância pouco intensa, pelo que se viu das andanças. Tanto aqui como no local onde se deu a tal festa que eu imaginei ser a base dos sucessos, e que quase acertei no alvo. Fiquei perto, pelo que me contaram hoje.
- Dois morrerem, ou foram mortos enquanto estávamos fora, e este derradeiro deve ter sido sacrificado pelos outros membros da quadrilha quando já viajávamos de regresso. Não me perguntes mais detalhes agora. Depois, com calma, te contarei o filme juntando as peças que vieram a meu conhecimento.

E dos teus negócios, não tens nada para me contar? Aposto que nos dois salões se noticiaram novidades. Todos os dias há motivos de fofoquices entre mulheres. E se me deres um aperitivo do que foi mais saboroso?

- Está bem. Teremos um serão longo e entretido, que nos deixará dormir sossegado, a fazer juízo pelo que contas. Dos meus lados, e não adianto nada, soube que se deu uma cena de tiros, de faca e alguidar, em casa de um personagem da política local. Não houve mortes, mas alguém ficou com mais um furo onde as costas mudam de nome. Esta te fará rir.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap 45º



A caldeirada já foi

- Então Amigo Maragato, que me diz desta caldeirada à Montemor? Não é necessário que me diga que em vez de moreia ou safio encontrou enguias. Mas e o resto, e o tempero?

- Confesso que jamais na vida me passaria pela cabeça vir comer uma caldeirada de peixe aqui. Habitualmente. Além de alguns tascos célebres de Aveiro, eu iria até Buarcos, onde conheço excelentes cozinheiros e cozinheiras. Mais elas do que eles, que sem desmerecer dos homens com avental, no computo geral as mulheres levam a palma. Também tenho que admitir que a sua previsão acerca de que dois bons garfos não conseguiríamos dar cabo da caldeirada, estava certa. Mesmo assim não me sinto perdedor, pois captei que o Ortega já bateu esta praça, e muitas outras, desde anos atrás e, por isso, joga sempre em casa, o seu terreno.

Também deixo as sobremesas à sua escolha, embora sem desprezar a prova dos doces não dispenso uma talhada de melão, casca de carvalho se o tiverem e seja bom. E atrevo-me a pedir que, enquanto moemos o prato principal, entremos na segunda parte da conversa, e assim reclamar da promessa.

- Há bastante que contar e aquilo que hoje não ficar totalmente claro teremos outras ocasiões para entrar em detalhes. Indo ao que mais importa. Por boca de contactos individuais, com elementos do pessoal menor, que sempre sabem muito mais do que os chefes imaginam, soubemos que, de facto, os organizadores contrataram para serviço de segurança quatro elementos da máfia internacional, cujas identificações coincidiam com as que apurou a PJ. Simplesmente não se conseguiu apurar nada concreto para os incriminar. Não admira, pois são malta batida e sabem que tinham as costas quentes. Os testemunhos que os viram a festa e na mata eram coincidentes, mas segundo a polícia, inúteis para conseguir uma condena. O único caminho que restava era o de agir com as mesmas armas dos mafiosos, e para isso o Dr. Cardoso afirmava que nas famílias ciganas havia elementos mais capazes do que nos membros das ditas forças da ordem.

Em princípio aceitamos vigiar e seguir a caça, evitando que nos fugisse da mão. O aplicar justiça por conta alheia não é coisa que se possa admitir sem uma profunda justificação. Sugeri ao Doutor que, usando elementos de saias, podíamos conseguir alguma desunião entre os membros daquele exército tão complexo, com tantas nacionalidades e costumes. Temos mulheres e raparigas muito capazes de dar a volta a qualquer macho, e no rescaldo levar a fortes ciumeiras entre candidatos a comer o doce. Uma vez que, subterrâneamente, se conseguisse quebrar o aço daquela fortaleza, sendo eles fortes de músculo e gatilho, eram com certeza fracos em perspicácia. A muito de um lado corresponde pouco de outro.

- E esta táctica deu resultado?

- Não sei ao certo. Sei que a Lola, uma mulher jovem, experiente, das que enganam turistas fingindo que sabem ler a sina, enfeitiçou um romeno e um croata, duas bestas de volume considerável; só músculos. Foram vistos a discutir por palavras e gestos. O romeno querendo ter ascendente porque, afirmava convicto, que ele também era de etnia cigana e por esta razão reclamava o direito de conquista da Lola. Como evoluiu esta quezília não sei, mas passados uns dias encontraram o corpo do croata nas rochas do Cabo Carvoeiro. Já só restavam três. E eu dei ordem para que a Lola fosse viajar, rapidamente, até casa duns parentes que moram em Granada. Ninguém, mesmo ninguém, entre os meus fez a mínima referência ao falso namoro desta sacrificada Lola. Que levou um envelope bem cheio com euros para compensar o seu esforço.

- Ortega. Antes que continuemos e este capítulo se perca, faço questão para ser da minha bolsa que se deve liquidar esta gratificação. E não quero conversas ao contrário. Amigos são amigos e responsabilidades são de cada um.

- Já falaremos disso com calma. Já disse que ficavam três malandros a punir. Conversando, sempre sem testemunhas nem gravadores, com o Dr. Cardoso pensamos em se lhes poderíamos armar uma ratoeira que levasse a uma cena de tiros onde “os nossos”, da união inexistente, tivessem boas hipóteses de apanhar algum deste peixe. Sugeri fingir que na feira de gado de Viseu se fizessem umas grandes vendas, como sempre a dinheiro. Tanto vendedores como compradores seriam gente “da casa”, e portanto seria a dinheiro vivo (aparentemente, pois que misturar folhas de jornal com notas para fazer maços e uma das nossas habilidades. Temos treino constante!) A minha gente não entraria com armas de fogo, mas sempre existem navalhas que bem trabalhadas podem enviar para os anjinhos o mais astuto dos paios. Armas de fogo e os melhores atiradores disponíveis na polícia ficariam de atalaia, aguardando os nossos sinais.
- E conseguiram caça?
- Nem tudo. Dois foram abatidos no local, o romeno e um outro que não esteve no Vale. Da tropa de elite só houve um ferido sem gravidade. E restaram dois dos quatro que o incomodaram.
- Em tão pouco tempo conseguiram, as forças conjuntas, mas sempre com o importante contributo dos elementos do grupo do Ortega, uma verdadeira proeza, pois não podemos esquecer que aquela malta não são propriamente meninos do coro. É pena que ficassem dois.
- Não se lamente antes de tempo. Parece que aquele forasteiros entraram em crise e que se sentiram demasiado vigiados nesta zona. As bulhas continuaram, por motivos e razões que desconhecemos, mas dias antes do vosso regresso encontraram um corpo, nu e de mãos e pés atados, precisamente no local que anteriormente profanaram. Foi identificado pela Interpol como um dos membros do gangue, e por cá viu-se que era mais um do quarteto. Restava um. Comentou-se de que çhes cheirou existirem represálias pelo atrevimento de colocar vítimas deles no vosso terreno. É possível que com este sacrifício pretendessem conseguir uma espécie de armistício.
- Não me diga que também liquidaram este último?
- Não, nada disso, nem do terceiro tivemos ou a PJ a mínima ingerência. A vigilância continuou e no dia do vosso regresso passaram três carros cheios de indivíduos mal encarados por Vilar Formoso, rumo a Espanha e possivelmente a países europeus que não tivessem memória visual da sua estadia em Portugal. Dr. Cardoso me informou de que entrou em contacto imediato coma Interpol, e directamente com a delegação em Espanha e a Francesa para que os vigiassem.

- O Amigo Ortega tirou-me uma grande preocupação de cima, e estou ansioso para poder contar estas novidades à minha mulher. Bem me anunciou que trazia boas novas, mas nunca imaginei que seriam tão completas, mesmo que, por enquanto, Ainda um deles ande a monte, como quem diz. Deixe-me pagar este almoço, e espero que quando tiver tempo livre em Aveiro me avise para ter mais uma conversa.

Venha este abraço, bem à vista de todos. E agradeço, de todo coração, os esforços de vigilância que os seus amigos, não só do seu clã mas também de outras famílias desta grande etnia portuguesa.

- Maragato, não exagere. Sei bem como é a minha gente, e nem todos são iguais, tal como acontece com os paios. Para já, desde muito novos trazem visco nos dedos e a noção de propriedade privada,pelo menos no que respeita aos não ciganos, lhes é bastante indefinida,por dizer de alguma forma menos agressiva. Mas são amigos fieis de quem decidem podem situar neste cacifo. Os outros... o melhor é não esclarecer. Boa viagem e cumprimente a dona Isabel de minha parte. É uma boa companheira para si.



sábado, 30 de junho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – CAP. 43º


Já no habitual

Amigo Dr. Cardoso. Agradeço que me tenha concedido uns minutos, que espero não serem muitos, para me receber depois de uma ausência quiçá demasiado longa. Em princípio só pretendia cumprimenta-lo e confessar que, apesar de estar a bastantes quilómetros deste canto da Europa, o nosso pensamento, pois incluo a minha mulher, esteve sempre pendente do Vale, ambos estivemos sempre preocupados com o que poderia acontecer à volta da nossa propriedade. Concretamente se houve sequelas das mortes que nos ofertaram.

Seja como for, logo que entramos em casa, demos ordens concretas para que não nos contassem boatos ou notícias desagradáveis. Caso existissem novidades merecedoras de conhecer, preferíamos saber delas através de meios oficiais, nomeadamente da Polícia ou dos Tribunais. E é tudo o que lhe posso contar, pois que relato de vivências do passeio seria próprio para o ter numa cavaqueira a quatro, numa refeição tranquila em terreno neutral, ou seja, dos dois casais livres de protocolos profissionais. Creio que individualmente merecemos isso.

Pois Amigo Maragato, embora as novidades não sejam muitas, mesmo assim são importantes. Mas o sigilo que sei entende que devo manter neste lugar impede-me de expor, com amplitude e a franqueza que merece, o que ainda permanece a nível de reservado. Eu, pelo que deduz, devo manter a boca mais fechada do que desejaria, mas vou dar-lhe uma janela que o pode elucidar. Procure ter uma conversa com o seu amigo “Rei” da ciganagem da zona, pois sei que ele está à par dos avanços e recuos deste assunto. Aquela abertura que o Amigo fez, e que estava na sequência de anteriores permutas de “gentilezas”, deu frutos com mais rapidez do que os meios de investigação a meu dispor e das forças militarizadas.

Isso não impede de que possa fazer uma pausa no trabalho e lhe proponha que me acompanhe até o café mais próximo para molhar o bico numa bica, ou cimbalino, e ali puxar-lhe da língua para saber das suas impressões, por exemplo sobre o famoso Danúbio Azul. Vamos?

Pois apesar de não ser muito apreciador dos passeios de barco, por os considerar excessivamente lentos para o meu gosto, desta vez tive que ceder ao desejo da Isabel, que não se contentava com os dias de visita em Viena e insistiu, para não ser menos do que algumas clientes do salão que enchem a boca com o Danúbio, a embarcar rumo a Budapeste, e foi uma boa decisão, pois além de que o trajecto era muito variado o barco era quase um hotel flutuante. Não tanto como as monstruosas baleias que navegam pelos mares, pois o calado disponível no Danúbio não permite excessos. Mas lá dentro tinha tudo o que se podia esperar, e mais até.

Se Viena -nada de Viena de Áustria pois não tem nada que aproxime a nossa Viana do Castelo com esta do Império Austro-Hungaro, cada uma no seu lugar, que merecem na sua dimensão- merece a fama que carrega, numa cidade que respira história e passado com riquezas que aqui nem conseguimos avaliar, é suficiente recordar a chegada a Viena de avião. Foi espectacular, com o bom tempo e sol radioso, horizonte límpido, sem nuvens. Não rezamos a pedir tão bom acolhimento do clima, mas ainda pensei que Eolo nos favoreceu. A entrada em Budapeste pelo Danúbio é também de cinco estrelas. Mas gostaria de estarmos os dois casais para falar com sossego desta nossa viagem de noivos. Agora tenho que tentar encontrar o Ortega, para ver se ele me situa na actualidade do que me tem preocupado.

Aceito a sua sugestão, e se não se importa direi à minha mulher que entre em contacto telefónico com a sua para combinar este almoço.

Até breve, espero eu.

Ortega? Sou o José Maragato. Podemos ter uma conversa? Cheguei ontem da viagem de casamento e desconheço em que estado se encontra o sarilho dos mortos nas minhas terras.

Oh, Doutor Maragato, meu Amigo, é um gosto ouvir a sua voz e gostaria de poder almoçar na sua companhia. Onde está? Eu estou em Montemor, com um olho no andamento da feira. Se puder chegar em menos de uma hora almoçaríamos num restaurante que está na Praça da República. Tem o nome de Dom Dinis.

Eu estou de partida de Coimbra. Para já agradeço a prontidão com que se dispôs a ter uma conversa, com garfo, faca e copo. Se o transito estiver bom, em pouco tempo estarei em Montemor, e ajuizando pelo seu tom de voz avanço que me dará novidades agradáveis, ou pelo menos tranquilizadoras. Até já. Quem chegar primeiro que escolha mesa!



segunda-feira, 25 de junho de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 42º




Querida Isabel. Ainda bem que já estamos perto do fim da nossa viagem. Nestes dias, ou semanas, vimos muitas coisas, apreciamos paisagens, visitamos palácios, museus, cidades, terras típicas, dormimos em hotéis espectaculares e comemos tanto em restaurantes com estrelas como em locais sem tanto aparato, mas sempre bem atendidos e com pratos apaladados. E de tudo isto o facto mais importante, para mim e certamente para ti também, é que entre ambos parecia que estávamos, de facto, numa viagem de noivos entre pessoas muito mais jovens do que realmente somos. Uns noivos seródios.

Mas isso não pode esconder que, desde que partimos do Vale, sentisse uma espécie de remorsos. Era uma sensação de sermos uma espécie de desertores. Pode ter deixado a impressão de que que fugimos de umas responsabilidades que de facto não tínhamos. Não sou capaz de explicar melhor. Mas nestes dias, que deviam de ter sido de absoluta paz, sossego e alheamento, o facto é que tinha pesadelos ligados aos mortos e aos bandidos que nos colocaram os cadáveres no terreno.

José, não tens estado só nesta inquietação. Notei o teu remoer todos estes dias, e não necessitas de me dizer que sonhavas, até porque quase todas as noites estavas agitado e chegavas a falar dormido. Só entendia palavras soltas, mas via bem que o argumento deste teu tormento interior estava ligado ao tema dos crimes. Nunca te quis dar a entender que entendia sermos ambos vítimas dos acontecimentos recentes. Mesmo assim tinha a ilusão de que, com o passar dos dias, a tua angustia se fosse esbatendo. Não foi assim, uma pena, até porque este teu fardo também o senti nas minhas costas. Sossega, tudo se esclarecerá, ou pelo menos poderemos saber que a nossa ficha policial não ficará maculada com esta façanha alheia.

Agradeço este teu esclarecimento, mas mesmo assim, quando chegarmos e depois de ligar à realidade terrestre, a primeira coisa que farei, no dia seguinte, será procurar que o inspector Cardoso e tentar que me conceda uns minutos do seu tempo e me diga dos possíveis, ou impossíveis, progressos na identificação dos responsáveis directos e indirectos, ou seja dos mandantes, que certamente tudo farão para ficar na escuridão. Temos que avisar o pessoal da casa, incluído o feitor Ernesto, no sentido de que não queremos saber das notícias e boatos, antes de saber o que nos queira dizer a Polícia Judiciária. Estás de acordo Isabel?

Com certeza, parece que esta tua reserva é a mais correcta. E a propósito, eu também tenho que tratar dos meus salões e por isso, e mais o resto, não desejo acompanhar-te no encontro com o Doutor. O meu papel tem que ser triplo, como as fichas para ligar mais de uma coisa à mesma tomada. Por um lado, e principal, agir como uma esposa “clássica”, ou seja, em segundo plano, mas ser sempre um apoio garantido. Depois vem o papel de Dona de Casa, do qual não abdico, mesmo que valorize, e muito, a dedicação da Idalina. Cada uma no seu lugar, e a Idalina mostrou-me, desde o primeiro dia, que estava consciente do seu papel na hierarquia da casa. E, finalmente, o de empresária.

Foi neste patamar social, se assim o posso definir, que me conheceste e não tardei a ver, depois de alguns encontros preliminares, que não eras talhado para te armar em galo da capoeira. Ou seja, que apesar de teres conhecimento directo, através de mim e por não existirem segredos, de como estava estruturado o meu negócio, tiveste o bom senso, que apreciei e apreço, de te manteres mais como observador ou consultor do que como coproprietário.

Não sei se consegues avaliar o que sinto e valorizo a esta tua atitude ao respeito. Se tentar explicar posso escorregar nas palavras, ser rude ou inconveniente sem querer, mas a realidade é que, para mim e dada a minha vida anterior, o poder manter um sentimento de independência, de não sujeição até nas coisas mais melindrosas ou mesquinhas às autorizações de um marido, facilita-me o ver em ti um igual e não um esposo como aqueles que eu oiço descrever às clientes do salão. Muitas delas referem-se aos seus maridos como uns inimigos que estão obrigadas a respeitar, pelo menos aparentemente, pois as suas conversas, de foro falsamente íntimo, não são mostras de uma conjugação de caracteres, e menos até de amor. Não digo do amor inflamado, expansivo, dos tempos de namoro, mas daquele que se deve gerar com o convívio conjugal, sereno e contínuo. Aquilo que acompanha os casais bem avindos.

sábado, 23 de junho de 2018

CRÓNICAS DO VALE - CAP 40




Bom dia Senhora Idalina, tem estado muito arreda desde que os patrões andam pelo mundo fora.

Nem tanto assim, dou todos os dias grandes passeios pelo jardim à volta da casa, arrancando ervas que o senhor Ernesto, ou algum dos seus amigos que aqui emprega, se decidam a limpar. Se pensa dar uma suadela antes que os patrões cheguem é bom que comece quanto antes.

Muito me conta. Deve saber mais do que nos, os da malta de sol e chuva.

Não tenha ciumeira. Pense que seja o patrão José ou a Patroa Isabel, apesar de estarem longe, querem ter um olho no garfo e outro no prato. Ou se preferir, não há dia em que , seja pelo telefone ou por carta, não perguntem pelo andar da carruagem ou nos enviem instruções acerca do que fazer e não descurar. Nem sei como conseguem desfrutar dos seus passeios por estes mundos por donde andam se, como nos dão a entender, tem as suas cabeças mais no Vale do que nas maravilhosas cidades que vistam.

E a Idalina tem ideia das terras e cidades, montes, vales e rios, por onde andam?

Pode ficar com inveja, mas a Dona Isabel tem mandado alguns postais muito bonitos, que noutra altura lhe poderei mostrar. E além disso, agora tenho tido mais vagar e vejo programas da televisão que mostram países e terras que nem fazíamos ideia que existiam. Agora estas imagens nos põem o mundo à frente do nariz. Seja como for, tenho indicações de o avisar de que não tardarão muitos dias em cá aparecer. Tenha tudo não só arranjado mas tampouco seria pior que pudesse mostrar alguma coisa de sua iniciativa.

Mas o quê? Eu sempre fui um bom cumpridor do que me mandam e pouco me atrevo para meter-me em trabalhos sem saber, de antemão, se seriam de gosto dos patrões.

O Ernesto às vezes parece um garoto. Não me diga que nunca pensou em preparar uns canteiros de horta, com pés arranjados nalgum amigo que tenha feito viveiro. Ou enxertar uns pés ou braças de videira ou árvores de fruto com variedades novas? Sei que os caseiros e aqueles que tratam de uma horta própria, tem sempre os olhos postos em conseguir melhorar os seus produtos e, se possível, tentar novas culturas. Será que puxa para ver se eu conto a missa ao vigário?

Já matutei por muitas vezes em fazer uma horta nas traseiras da mansão. No tempo em que morava aqui a Dona Constança, primeira esposa do patrão Luís, eu ainda era um rapaz novo, e o meu pai, que Deus o tenha ao seu lado, colocou-me como jardineiro às ordens da dita Dona Constança. Esta Senhora tinha mais queda para flores e arbustos do que para horta de produtos para a cozinha. Dizia ela que este era negócio para as pessoas que moravam no Vale e que até lhe agradeciam que lhes comprasse as alfaces, favas, ervilhas, abóboras, nabos e tudo o mais que fizesse falta na cozinha. Ela queria canteiros de flores, as plantas aromáticas, e os arbustos podados como nas mansões dos nobres de Coimbra. Um dia levaram-me a Coimbra, de propósito, para que eu visse como eram os jardins da gente fina. Tive que aprender desde principio.

Mas a ideia da Dona Idalina parece-me ser mesmo boa. Enquanto falávamos já ia vendo, na minha cabeça, os canteiros que posso preparar, adubados com o esterco dos animais e regados com a água do açude, que chega bem para o jardim e sobrará para a horta. Olhe Idalina, vou meter mãos à obra antes que o pensamento arrefeça. E já sei onde posso ir procurar pés para plantar.

Pois fico muito feliz por ver que o Ernesto não só entendeu o que lhe disse mas melhor, que tomou interesse em avançar. Sei, por o conhecer de anos, que será capaz de mostrar uma horta em início à Dona Isabel, e que esta não deixará cair esta iniciativa em saco roto. E agora vou para dentro, que tenho coisas a tratar com a ajuda da Amélia, que se fez uma excelente mulher, responsável e trabalhadeira.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 60




Já preparados para ir até Coimbra e enquanto tomamos o pequeno almoço lembrei-me de uma anormalidade que senti no salão, aliás nos dois pois a experiência repetiu-se em ambos. As clientes juntavam as cabeças para cochichar e exclamavam aqueles “não me digas”, que traduzido o eufemismo quer dizer conta mais que isto é saboroso, e seguidamente agarravam no telelé para distribuir a novidade, tapando o bocal com a outra mão e assim fingir estar segregando. Passados uns minutos perguntei às empregadas o que acontecia de tão importante. Enviaram-me para a Ivone, que tu sabes ser a minha chefe de plantão quando eu não estou.

A Ivone tentou deixar passar a bola, mas quando lhe apontei o entusiasmo que reinava entre as galinhas (são as clientes, caso não soubesses) teve que abrir o jogo e contar-me que se tinha apresentado, na Câmara Municipal, uma brigada mista das Finanças e Judiciária para ver e estudar ao detalhe a documentação de alguns serviços. A reacção imediata dos curiosos foi a de que esta presença inesperada devia ter alguma ligação com os mortos da casa do Vale. Eu disse-lhe que não parecia ter nada a ver uma coisa com a outra. Que os assassinatos não acostumam a ficar documentados nas Câmaras. Que isto deve ser consequência de alguma denúncia. Tu tens ideia do que se está a passar?

Ouve Luísa. Sabes que eu nunca quero saber de política e de políticos, e em quase todas as Câmaras Municipais, para não dizer que em todas pois não quero carimbar sem conhecimento de causa, surgem assuntos que podem levar a denúncias. Os eleitos foram apoiados por algum partido, e nas estruturas existem sempre interesses, sejam pessoais ou de negócios. Depois surgem os compadrios e os concursos amanhados, ou decisões tomadas sem concurso, desdobrando as empreitadas para não atingirem patamares com exigências legais que se for possível vão fintar.

Ou seja, com as decisões camarárias, nem sempre pode-se evitar que os preteridos se sintam ultrajados, e daí a fazer reclamações e denúncias. Numas mais e noutras menos eu creio que será o pai-nosso-de-cada-dia, especialmente naquelas Câmaras com orçamentos vultuosos. Neste caso, comparativamente, pode tratar-se mais de uma quezília pessoal do que de montante elevado. O que te garanto é que eu, José Maragato, nada tenho que me ligue a esta inspecção, nem tenho nem tive qualquer negócio ou contencioso com a edilidade.

Luísa, esquece. Isto não é coisa nossa e o melhor é ouvir e calar, pois qualquer comentário teu ou meu, pode ser deturpado. São assuntos que não nos dizem respeito.

Esquecendo esta novidade, eu, depois da conversa com o Dr. Cardoso, sinto-me mais leve, mais descontraído, mais confiado. Deixou-me a impressão de que, pelo menos no seu serviço, estão tomando este assunto dos mortos plantados mais seriamente do que eu temia. Isso não obsta a que certos capítulos permaneçam ocultos, em sigilo confidencial. Mas como a imagem que temos acerca das pessoas que se movem nas altas esferas já está mais do que feita, não os desprezaremos mais nem menos, humana e socialmente falando. Antes de ir visitar o Cardoso vamos passar pela agência de viagens onde eu, anteriormente, tratava de passagens, hotéis e trajectos.

  • Boa tarde, Dona Isaura. Como tem passado? Pelo seu aspecto, cada vez mais jovem, deduzo que a saúde, felizmente, não lhe tem dado cuidados de maior.
  • O Doutor Maragato sempre tão amável. Mas garanto que em mim também pesam os anos. Por enquanto não sofro de grandes desgastes, mas sei olhar para o futuro observando as pessoas com quem habitualmente convivo. Mas diga. O que é que o traz por cá, e tão bem acompanhado...
  • Desculpe o meu descuido, Dona Isaura. Devia ter começado por lhe apresentar a minha esposa, de seu nome Luísa Maragato depois de papel passado. Um apelido que não soa muito bem,mas é aquele que herdei de família.
Ao que íamos, ou viemos. Pensamos em aproveitar umas semanas de sossego antes dos calores estivais para dar um passeio pela Europa. Num esquema meio de grupo e meio por conta própria. Nós ainda não definimos grande coisa. Por exemplo: gostaríamos de passar uns três dias em Paris, incluindo um passeio pelos castelos do Loira (que não são como os nossos castelos, antes grandes mansões apalaçadas). Depois saltar para Bruxelas, outros três dias. E depois Berlim, outra paragem. Daí saltar para Viena, dois dias ou três. O percurso pelo Danúbio, que é tão afamado, a mim, pessoalmente, não me entusiasma, pelo menos se for longo; com uma escala e passar para terra já ficaria satisfeito. Mas com um bom livro e umas bebidas sou capaz de aguentar sem me atirar à agua. Visitar Budapeste é fundamental.

Aconselho a não se prender demasiado com estas minhas etapes. A partir destas linhas, que se podem alterar com pareceres fundamentados ou outras vontades da Luísa, eu vos deixo. A Dona Isaura se tiver paciência dé uma ajuda e carregue a esposa de folhetos. Depois, em casa ela fará a sua análise, que discutiremos (sem pelejar). E nos próximos dias voltaremos para formalizar a encomenda. Agora eu tenho que visitar um amigo na Polícia Judiciária, que penso estarem instalados ai perto. Até já. Não me demorarei, espero bem.

  • Boa tarde, Aqui está o meu Cartão de Cidadão para me identificar. Será possível saber se o Dr. Sílvio Cardoso se encontra no serviço, e caso afirmativo poderia perguntar, se fizer este favor, se me pode atender um momento?
O Dr. diz que o pode atender de imediato. Eu o guiarei pois sinto que não conhece o interior desta casa. Faça o favor de me acompanhar.

  • Dr. Cardoso, desculpe o importunar no seu trabalho, mas surgiu um tema que, não estando ligado directamente com o processo que nos levou a ser partes integrantes, de lados diferentes mas não opostos, segundo eu avalio. Pois bem, como ficamos mais tranquilos quanto à evolução oficial do inquérito, pensamos, a Luísa e eu, se poderia ser aceite que tomássemos umas férias antes dos calores estivais, e viajássemos pela Europa durante umas três semanas. Sei que, por enquanto, não estamos qualificados como arguidos, mas não queria “desaparecer” sem dizer aquilo do água vai! Daí que antes de avançar com o plano de viagem quis saber se existia algum impedimento oficial. O que me diz o Dr. ?

  • Vão descansados e desfrutem. Todavia e na previsão de qualquer imprevisto que os possa implicar, se o Amigo Maragato, quando tiverem o plano de viagem definido, com dias e estadias marcadas em hotéis com telefone e o resto da modernidade, seria bem visto que nos deixasse uma cópia. Se bem que hoje basta saber o indicativo do País onde se encontrem para que com o telemóvel os poderia contactar.

  • Obrigado Dr., E recordo uma sua pergunta que, por estar pendente de outro assunto, deixei passar sem resposta. Estranhou o nosso apelido de família Maragato. É o mesmo esquema do que acontece com aqueles que carregam, oficialmente, com o apelido Algarvio, Alentejano e outros. Sem ser uma cristianização de judeus ou se calhar até teve a sua origem nestas conversões forçosas, o nosso Maragato vem apenso ao facto de que a origem da família estava na Maragateria, uma região espanhola de cariz rural. E todos os que dali se deslocavam para outras regiões, eram apelidados de maragatos, como aqui os bimbos, por exemplo.


Segue no capítulo LXI

quarta-feira, 16 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 59


  • Luísa, finalmente chegaste. Demoraste mais do que eu imaginava. 

  • E também te digo, isto de estar em casa é como estar enjaulado. Depois de dar umas voltas pelo jardim e pela adega, que ainda está quase de pernas para o ar, duvido de que alguma vez aquilo possa ficar arrumado. De qualquer modo fui-me embora e encontrei-me com que não sabia para onde ir.

  • Falando na adega, por lá existe tralha de décadas, histórica. Alguma até é possível que tenha sido incluída na compra da fazenda pelo meu sogro, pois vi alfaias mecânicas que se não eram da monarquia seriam da primeira república. Sem motor, com tracção de sangue, são anteriores à chegada do futuro Conde do Vale, pai da Constança. Curiosamente hoje, em que a modernidade nos está dando a volta à cabeça, quem se encontra com velharias destas pela frente custa-lhe desfazer-se delas. Criou-se uma memória dos tempos recentes e como resultado são muitas as terras em que instalaram museus etnográficos. Já abriram tantos que não há moscas que cheguem para os visitar. Dito de outra forma: nem sequer estão às moscas.
Retomando o relato. Estas voltinhas caseiras ocuparam pouco mais de uma hora e encontrei-me perdido,sem me decidir a fazer outra coisa que não o de esperar por ti. Sentei-me na sala com um livro. Logo na segunda página enfastiei-me. Fui escolher outro. Com o mesmo resultado, apesar de me esforçar por terminar o primeiro capítulo. E quando lá cheguei senti que não me lembrava do que tinha lido. Nem sequer do ambiente que o escritor descreveu. Fechei e procurei alguma das tuas revistas. Se até aqui a tentativa foi má, com as revistas da fofoquice conseguiu ser pior. Terminei em frente da televisão, como um doente ou reformado. Adormeci com a publicidade sem fim e programas de lixo. Acordei quando ouvi a tua voz ao chegares. Não lembro de outra situação como esta na minha vida.

- Zé, não te apoquentes. Deve ser um reflexo dos assuntos penosos que nos tem enervado. Fiz mal em não esperar por ti antes de ir dar as minhas voltas. Desculpa o abandono. Mas pensei que o Inspector preferia falar contigo a sós, sem sequer a minha presença. Quando terminará esta treta? Ou será que alguma vez terá um fim como nos filmes? Pelo que me tens contado prevejo que muita coisa ficará escondida no nevoeiro, como aconteceu com o embuçado, que esperaram por ele durante mais de cem anos, sem entenderem que tudo tinha terminado com a cumplicidade silenciosa da casa real.

  • Acompanho-te na tua previsão. Soube, e não te devo contar -para o teu próprio resguardo- que, oficiosamente e com exigência de sigilo total, a P.J. Sabe mais coisas do que aquilo que aparece nos jornais, e que foram dadas ordens de caçar os criminosos, ou melhor os executores dos dois crimes. E, certamente, deixar o processo arquivado para não inculpar os mandantes.
    Mais. Foi-me dado a entender, que a quadrilha de bandidos, todos eles não nacionais, não chegarão a ser deportados, nem julgados. Nas entrelinhas sinto que não tardaremos em saber que desapareceram do mapa (digamos dos vivos). Aí existem duas hipóteses, ou aparecem mortos, baleados, num ermo ou numa praia e se atribui este desfecho a um ajuste de contas (?) entre bandos rivais, ou simplesmente os fazem desaparecer mais profissionalmente do que aqueles dois desgraçados. 

  • Eu optaria pela primeira solução, pois com ela podiam dar um aviso,um exemplo bem claro, de que aqui não são aceites intromissões de máfias de fora. Com os nossos malandros já chega e sobra. Somos umPaís pequeno, masmuitocioso das nossas regras e costumes.


Teremos que esperar para ver. Mas o sossego campestre voltará, disso não duvidemos. E se acontecer alguma morte macaca de algum turista confiado na sua sorte num dos seus périplos históricos, como não foi o primeiro nem será o último, será esquecido, tal como foram os anteriores nas mesmas circunstâncias. Afinal é um turista entre milhões... não interessa nem conta no totobola. Todos temos a morte como certa, e se foi em passeio é melhor do que numa doença incurável. Daí que só não se consola aquele que não quer. Haja futebol! E circo.

  • Já percebi. O que nunca me explicaste é quem era o segundo morto, e porque foi tão maltratado, torturado mesmo.
  • Pouco ou nada se falou deste homem. Ele foi morto porque sendo um colega do primeiro, Carlos dos Santos, Carlitos ou Carlota, se recordas, teve a infeliz ideia de pretender agir como detective amador, e começou a percorrer pistas, perguntando aqui e acolá, a este e aquele. Havendo como há bufos de um lado e outro os assassinos souberam desta intromissão. Caçaram-no e lhe deram tareia, e mais até, para que contasse o que sabia e com quem tinha contactado. Esta gente não aceita a mínima intromissão nos seus assuntos.
  • E mesmo que depois dos interrogatórios vissem que não passava de um pobre diabo, sem contactos, mas excessivamente preocupado com o fim o amigo e colega, entenderam que o melhor seria envia-lo para os anjinhos, aproveitando a sua carcaça para avisar outros curiosos e faladores, além dos gays do clube. Por isto e porque são gente sem respeito para ninguém é que lhe cortaram a língua -mensagem para os curiosos e boateiros- e as peças do seu sexo inicial -mensagem para os gays das festas, que devem participar mas não partilhar-
  • Satisfeita com o explicação? Demasiado crua, mas não procurei adoçar esta pílula, amarga q.b. E agora gostava de te apresentar uma ideia que ao longo da tarde foi germinando e crescendo nesta minha cabeça.
  • E se fossemos dar um passeio, de duas ou três semanas, pela Europa fora, na viagem de boda que não chegamos a fazer?

  • Vejo que o sorriso voltou à tua face. Mas é necessário preparar as coisas, desde o plano da viagem, as bagagens e, principalmente obter a permissão, tácita, da PJ para não parecer que escapamos, que fugimos de alguma responsabilidade. Não é coisa de hoje para amanhã.

  • Precisamente amanhã irei a Coimbra, ou iremos juntos se quiseres. Primeiro procurarei o Dr. Cardoso e depois iremos a uma agência com a qual já tratei de outras viagens, e começaremos a estudar locais, dias, transportes e o mais que for pertinente.
  • Óptimo marido! Mas veio-me à memória aquele carrão que te ofereceram no dia do casamento. Um Lamborguini se não estou confundida. O que foi feito dele, que nunca mais te vi com ele nem te referiste a tal carro?
  • Estava a espera que falasses nisso. É uma história rocambolesca que não te quis contar na altura. Quem era o dono real do carro era um industrial de Guimarães, cheio de guita, e com um filho estroina que o moía pedindo um Lamborguini. Como era uma quantia muito elevada pediu-me que o ajudasse numa manobra, legal, para o desvalorizar. Nós o comprávamos, fazíamos a rodagem, que já não se faz, mas esqueçamos o pormenor. Ao estar matriculado e sair do stand, e ficar com o meu nome no livrete ficava imediatamente desvalorizado. Ao regressar entreguei o carro num vendedor, que fingiu outro dono e a conseguinte desvalorização. Deixaram passar o fim do ano, e o livrete ficou mais desactualizado. Então o meu amigo, e cliente de outras manigâncias, o comprou para o filho. E eu meti umas massas para o bolso além de passeamos como ricaços. Mas nunca quis nem quero carros vistosos nas minhas mãos. Não me convêm alardes.
NOTA . O meu processador de texto continua a fazer das suas, e hoje não tenho pachorra para corrigir. Se conseguirem ler, bom. Se não, paciência.

Continua no cap. LX