domingo, 13 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 56




    - Senhor Ernesto, onde lhe calha melhor que o deixe?
    - Se puder ser ficarei ao pé da adega. Tenho umas coisas para arrumar e também deixei ali a minha motoreta, que utilizo para as voltas mais próximas. Em tempos, sendo eu mais novo e sem as artroses que me consomem, cheguei a ir até Lisboa com ela. E antes de ter esta velharia,naquela altura nova a estrear, até fui à capital de bicicleta, naquelas estradas nacionais que hoje poucos usam. Eram menos os carros e camionetes, e andavam mais vagarosos e muitas bermas estavam descarnadas; era uma aventura arriscada tanto com ciclomotor com na pedaleira. Hoje nem sei como me atrevi a tanto e como fui e voltei inteiro, numa peça.

  • - Pois aqui o deixo, mas eu levo o Sr. Presidente da Junta até casa ou mesmo à Junta, onde ele preferir. Até já ou até amanhã.

  • Antes de mais, Senhor Presidente, e sem testemunhas, agradeço a sua companhia e gostaria de tomar um café para dar à língua, no sitio que lhe pareça adequado.
    - Podemos rumar para aquele café que está à beira da estrada para a Vila e onde só param madeireiros e caçadores, quando podem caçar! A estas horas deve estar deserto. Ali há um canto, afastado do balcão e da porta que é bom para conversar. Eu tratarei de fazer o pedido. Como gosta do café? Eu peço sempre bica cheia.

  • - Terão que ser duas.... Pois os PJ, dada a deslocação de forças devem ter reagido de imediato, com alarme bem fundado, ao receberem a descrição sumária da GNR do que e como encontraram este segundo cadáver. Não lhe parece Amigo Medeiros?

  • - Com certeza. Quando ouviram da língua cortada, da castração e dos sinais de tortura, em Coimbra devem ter saltado todos os alarmes. Se o primeiro morto podia ser atribuído, levianamente pelo que se seguiu, a um desencontro entre homo-sexuais e outros elementos do mesmo entorno, agora as coisas ficaram muito mais bicudas, assanhadas. Por isso não admira que o inspector Cardoso se mantenha em reserva.

  • Isso já deve ter ultrapassado a delegação de Coimbra, e julgo que tanto de Lisboa como do Porto já estarão procurando a forma de descobrir os culpados directos e, se não me engano, manter resguardadas as personalidades que habitualmente se movem na sombra nestes “festivais de droga e sexo sem regras”. Ordens superiores, chamam a estas cautelas.

  • - Pois eu, em linhas gerais, formei uma ideia muito semelhante, quase coincidente. A principal diferença estava no imaginar odeia, possívelmente erradamente, que a malandragem nacional não se atreveria a tais atrocidades. Considero serem mais imediatistas, mais no género domeia bola e força!
    Imagino que por aí é capaz de andarem gentes do Leste Europeu, que não conheço nem tenho interesse em conhecer, mas que diz-se dominam quase por completo o tráfego das drogas duras e das mulheres loiras e esbeltas que eles traficam como se fossem peças de gado. E, acreditando nos boatos, estes acontecimentos estiveram ligados a uma festa rija deste calibre.
   - Tem graça, a Noémia, que passa o dia lendo romances policiais e vendo as séries de crimes na televisão por cabo, logo que a mulher que vai ajudar na lida da casa lhe fez o relato do que se dizia acerca deste segundo morto, mais pendurado do que enforcado, pensou logo nesta possibilidade e assim me vendeu o seu juízo. Estou a ver que a minha esposa faria uma boa dupla consigo, amigo Maragato.


   
    - Não fico admirado. Sei que as mulheres tem uma mente mais fértil do que a nossa. E são mais atrevidas quando abrem a caixa de Pandora. A que tenho em casa, a Luísa, se a colocasse à par da sua Noémia, despachariam este problema em pouco tempo, sem necessidade de interrogatórios nem tantos especialistas. Ah! e sem escreverem relatórios! Tudo verbal, de viva voz e alguma gesticulação.
E já é tempo de o deixar no seus afazeres, mas antes tenho que lhe agradecer a companhia e o tempo que me dedicou. Vou para casa, e peço que transmita os meus cumprimentos à Dona Noémia. Até lhe pode dizer que imaginamos a mesma participação de estrangeiros . Até breve, Amigo Presidente.


    - Finalmente apareces! Tenho aguardado no alpendre horas a fio porque tenho um recado para ti. Telefonou o Dr. Cardoso, o da Judiciária, dizendo que necessita ter uma conversa contigo. Informal acrescentou ele, juntando que não me preocupasse. Mas era um tema reservado e por isso preferia um encontro na nossa casa em vez de te solicitar a comparência na delegação de Coimbra. Pensa passar por cá a meio da manhã.
       
  • - O recado está dado e entendido. Mas por agora já me chega deste assunto. Só te peço que amanhã, pelo sim pelo não, tenhas um almoço preparado para três, nós dois e o inspector como convidado, informal.
Agora gostaria de ouvir das tuas andanças e decisões como empresária. Fala-me dos teus salões e das tuas funcionárias, e se já tens novos projectos nesta tua cabeça. E jantar os dois em sossego, tomar um café e digestivo na sala, com a TV ligada ou não, pois prefiro uma música suave e quase inaudível para nos acompanhar, até chegar o João Pestana. Está de acordo?

  • Eu? Se soubesses quanto anseio por ter um serão a dois!! Estávamos mais tempo na companhia um do outro antes de casar do que agora. Parece que fiquei a perder com esta legalização! Anda, não amues!Mereces uma beijoca de língua. Espero ter mais ocasiões de calma e sossego entre os dois. Por enquanto temos andado numa roda viva, sem um descanso capaz. Já estava cansada e desanimada.

Segue no capítulo LVII

encontro com o Dr. Cardoso



sábado, 12 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap. 55



Senhor Presidente, ou Amigo Aníbal Medeiros posso entrar? De facto já entrei. Como está de saúde e disposição? E a Dona Noémia? Confio em que ambos estejam em óptimas condições. O tempo está a melhorar e muitas flores abriram e árvores já mostram folhas novas, assim como os pássaros já tratam dos seus ninhos. Posto que a Primavera traz sempre boas novas à mistura com ventos frios, mesmo assim podemos dar o inverno como terminado.

Mas a visita de hoje, além de renovar o agradecimento pelo apoio logístico e pessoal que nos ofereceu quando da caprichosa festa-convívio, que recordaremos por terminar tristemente, hoje trago uma proposta, muito ligada aos acontecimentos da mata, que lhe queria apresentar.

- O Amigo Maragato não tem que se preocupar com prelúdios e introitos, seja o que for que o traz aqui, a ser possível, estarei ao seu lado. Portanto agradeço que refira de que se trata. Desde aquele "fim-de-festa"btão abrupto, e como sabe, surgiu uma segunda violação do terreno, Desta feita comum cadáver pendurado e com a língua e testículos cortados. Eu só fui ao lugar dos depósitos, por assim dizer, uma vez; logo no dia seguinte ao da primeira oferta macabra. Deixei o assunto nas mãos da GNR e depois da PJ, e preferi ficar na reserva, sem que pudesse ser interpretado como uma fuga, um me esconder.

- Entretanto tive outros afazeres, mas nunca deixei de pensar nestas mortes violentas. E ontem, apesar de terem passado até semanas, decidi ir fazer uma denúncia na GNR por invasão e depósito de cadáveres num terreno da minha propriedade. Convenhamos que devia ter feito esta diligência no dia seguinte ao de terem encontrado o mal enterrado. Mas não fiz! Tinha a cabeça noutra órbita.

E hoje decidi chamar o meu feitor, que conhece aqueles terrenos muito melhor do que eu, para que me orientasse numa espécie de “visita guiada”. E, em sequência, pensei em lhe perguntar a si, como Presidente da Junta, caso tal não lhe causar um atrito na sua autoridade, se nos quer acompanhar.

- Não tenho qualquer inconveniente, amigo Maragato. Estava na sua casa quando surgiu a primeira noticia do mal enterrado, e acompanhei o sargento da GNR quando ele foi dar a inspecção sumária. Nunca mais voltei. Nem sequer quando soube que tinham pendurado um falso enforcado quase encima da cova do primeiro assassinado. Não chove e se, como diz, já tem a ideia de ir até lá agora, eu vos acompanho. Não digo por gosto mas tampouco com relutância.

- O meu feitor, que já conhece, Ernesto Carrapato, diz que estamos perto, mas que, por recomendação da PJ, devemos continuar a pé, a fim de não alterar algumas pistas que tenham ficado.

- É o que me recomendaram, não só quanto a minha pessoa mas que procurasse afastar os curiosos. Eu já andei por aqui mais do que uma vez, depois de partirem as polícias, mas sem companhia. Parece, pelos sinais do chão, que o segundo morto, aquele que penduraram naquele carvalho fingindo que se tinha enforcado -mas num teatro muito mal trabalhado, que nem um cego poderia acreditar- Pelo rastro de um rodado de carro de mão com uma roda de borracha penso que deixaram a viatura ali em baixo, numa clareira onde pelos muitos rastros de pneus devem parar os namorados.

Subiram até aqui por este caminho de cabras, e, pelas pegadas que se viam na minha primeira vez e que hoje estão todas misturadas por tantos que por aí já passaram, devem ter sido três os artistas que se encarregaram de enforcar o morto. Mas isto é o que eu penso, e eu não sou inspector graduado, nem polícia de giro ou guarda republicana. Sou um simples camponês, que só sabe, e mal, de coelhos, cobras e cabras, por assim dizer.

- O que é que pensa disso o Medeiros? Eu confesso que, ignorante das primeiras letras de investigar a sério, até me parece que as palavras do Ernesto tem bastante credibilidade. E desconheço até onde chegaram as pesquisas da Judiciária. Se calhar o Medeiros está mais a par.

. Lamento ter que o desanimar. Os homens da PJ, que quando do primeiro morto pareciam muito abertos, perguntavam e tomavam notas, desta feita andavam mais sisudos. Também fizeram perguntas a uns e outros, quase como se falassem da bola, e sempre fechados em copas. Mesmo a mim, que em princípio sou uma autoridade, de baixo nível mas eleito e aceite, não me fizeram a mínima confidencia. Aquele inspector Cardoso, que esteve na palheta connosco no almoço e depois na sala, no dia seguinte fingia não me conhecer.

- É possível que fosse para não mostrar confiança perante outros elementos da brigada de Coimbra, que eram uns quatro ou cinco, mais o médico legista. Foi o que eu imaginei e por isso segui o seu andamento, sem mostrar qualquer encontro anterior. Nestas coisas temos que dar fé ao que diz Não te metas em casa alheia; bate o fora e espera. Ou o também famoso Não metas o nariz onde não fores chamado.

Eu entendo o que o Medeiros nos quer dizer, e se não fosse que, mesmo indirectamente, sinto ser possível que eu esteja no rol dos suspeitos, e se até agora não fui chamado a depor, e menos arguido neste falso enforcado também optaria por me manter ao largo. Que é o que tenho feito. A vontade é de poder falar com o Dr Cardoso, mas aguento isso e prefiro esperar que sejam eles a desejar ter umas falas oficiais. Preferiria um ambiente descontraído, mas não posso escolher o campo. Aqui não funciona a moeda no ar.


Segue no capítulo LVI

Será hoje que o Cardoso quer conversa?


quinta-feira, 10 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE- Capítulo 54




Fui apresentar queixa na GNR

Constança manteve ao logo dos anos alguns preconceitos e costumes que eu sempre atribuí à sua longa estadia naquele colégio, anexo ao convento de freiras carmelitas descalças. As quais freiras eu sempre vi com sapatos, ou sandálias quando o tempo não era excessivamente frio. Suponho que quando deitadas a descansar então sim que deviam estar descalças de pé e perna, ou com peúgas de lã no inverno.

Sendo correcto posso afirmar que Constança não ficou com o hábito de assistir a missas por tudo e por nada. Não se comportou, depois de casada, como uma beata convicta. Antes afirmo que se adaptou bastante ao meu ateísmo militante, sem que eu a obrigasse ou nem sequer insinuasse, que devia deixar de lado a beatice. Pelo contrário, insisti muitas vezes em que devia assistir ao serviço dominical e que, caso assim desejasse, eu até a acompanharia, apesar de só fazer figura presencial.

O mesmo não aconteceu quanto ao seu acanhamento ou timidez, nomeadamente no que se refere ao pudor excessivo que sentia quanto à exposição do seu corpo, ou de fugir de me ver nu. Esta sua atitude quando já éramos um casal encartado, causou-me uma certa estranheza. Não esperava tanto retraimento. Como deve ser habitual, nas manobras de namoro fiz vários e reiterados avanços. Alguns mesmo muito atrevidos e de nível abusivo, por não respeitar como merecia a namorada. Mesmo quando já comprometidos a casar. Mas eram consentidos da sua parte. Se calhar rezava pedindo perdão a Deus ou à Virgem (mas não muito) Maria.

Constança deu sempre muita importância à cerimónia da boda religiosa, ao vestido branco de noiva, ao véu e ao ramalhete com flor de laranjeira. De nada serviu a minha insistência em lhe dizer que practicanente todas as noivas estavam fartas de fornicar antes deste passo social. Fingia que não ouvia. Eu dizia, para mim, que ela fechava os ouvidos como fazem as focas quando mergulham.

Recordo a camisa de noite da primeira noite! Foi costurada no atelier do convento,o mesmo que se encarregou das peças brancas do seu enxoval. Já podem imaginar... com gola fechada quase até o pescoço e comprimento até os pés; de linho!, mais fria do que gelo. Numa época em que as montras de roupas interiores de senhora já mostravam peças quase minúsculas e sempre ousadas, fossem de seda ou das primeiras fibras sintéticas. Provocantes como deviam ser para incitar o parceiro. Um fiasco, uma desilusão, que não atingiu o cúmulo porque coincidiu com a chegada do período. Ou seja: juntou-se a fome com a vontade de comer!

Se não fosse que eu a amava como pessoa, e que assim continuei até o dia da sua morte, e mesmo depois num até certo modo prolongado luto. Caso o incentivo para casar fosse exclusivamente o sexo, naquele mesmo dia eu teria saído para comprar tabaco e nunca mais teria aparecido. Ai amor a quanto obrigas!

O ambiente levou muito tempo a melhorar, mesmo depois da lua de mel. É que Constança manteve a sua adversão a que a visse nua, e muito mais em tomar posses atrevidas, por mais que eu pedisse, rogasse até. Uma relutância que manteve practicamente até o fim da vida, apesar de termos gerado dois filhos vivos e um morto, sem a ajuda de nenhum anjo ou arcanjo, a mando do Criador. Nem vale a pena referir que as tentativas de executar variantes na acoplagem foram sempre rejeitadas.

Quase que dava a ideia de que conhecia o kamasutra de cor e salteado, pois logo que eu iniciava os prelúdios, levava com os pés e eu ficava com a noção de ser um miserável, um devasso! E de imediato pensava: Foi para isso que casei? Só para o missionário? Convence-la a cavalgar foi uma tarefa épica. Uma lança em África ! Nem gosto de lembrar as centenas de vezes em que, frustrado com a minha vida de casado, tive que bater uma punheta. Eu, que pensava que esta manipulação terminaria quando casasse! Farto de sexo manual confesso que algumas vezes; nãomuitas, mas bastantes, aproveitei viagens de trabalho para desovar com algumas das minhas anteriores conquistas. Que, em geral, continuaram sendo amigas e prestáveis. É que nisso das conquistas não me dei demasiado mal...

Excepto estes pormenores de índole erótica a Constança foi uma esposa exemplar, meiga, educada, boa mãe (até em excesso), sempre com a atenção centrada nos filhos, e só depois o marido (eu) Sorte a minha não termos tido um cãozinho daqueles que passam o dia ao colo da dona, pois até o animal estaria à minha frente, com metros de vantagem! Fora destes insignificantes capítulos reitero que Constança foi uma excelente esposa. E quem pode provar o contrário?

Chega de palermices. Enquanto pensava nestas inutilidades já ultrapassadas fui em direcção ao posto da GNR, onde fui atendido pelo oficial de serviço, que ao ouvir a minha pretensão de denúncia me olhou com ar entre de gozo e espanto. E disse: mas isto já aconteceu umas semanas atrás, pelo menos a do cadáver mal enterrado. E só agora é que o Senhor se lembrou de fazer queixa por escrito?

Tem razão, Senhor Oficial (provavelmente um cabo...), mas aconteceu que estas invasões, quase que tão desastrosas quanto foram as napoleónicas (de vez em quando saem-me umas arrancadas espatafúrdias. E eu gosto tanto.. . Gozo mais do que um tonto com um chupa-chupa) Tem toda a razão, devia ter vindo de imediato, mas eu, mesmo que veterano de algumas guerras, fiquei desorientado e alem disso tive que fazer algumas deslocações que me afastaram deste vosso posto. Mesmo assim agradecia que desse entrada à minha queixa ou denúncia e, se for possível, me facilitasse uma cópia do documento. Pode vir a fazer falta mais adiante. Quem sabe?

Cumprida esta gestão vou ver se consigo incitar o Presidente Aníbal Medeiros para que me acompanhe, juntamente com o feitor dos meus terrenos o Ernesto Garrapato, ao local donde plantaram os cadáveres, caso esteja livre, mesmo com guarda. Pretendo marcar que continuamos a ser os proprietários e, ao mesmo tempo mostrar que não temos medo dos desconhecidos. É possível que por lá encontremos pessoas rondando, que tanto podem ser naturais da zona como desconhecidos que são incitados pelo cheiro da morte, pois estes sucessos geram muita curiosidade. Ouvir os comentários, mesmo os disparates, até pode ser útil.


Segue no cap. LV

Encontro com o Presidente da Junta

quarta-feira, 9 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 53



Continuação das confidências

Quando consegui ter uns momentos para falar com a Constança, com a cumplicidade de umas amigas, também pensionistas do convento, e uma noviça que, a meu entender, estava desejosa de poder dar o salto. A aluna brasileira, que é como era conhecida no grupo, disse, sem hesitar, que estava farta de estar entrega às freiras; que a vocação religiosa que lhe pretendiam inculcar não era propriamente o futuro que desejava. Resumindo, que aceitou a minha proposta de namoro, com a única condição de que não aceitava uma abordagem de brincadeira. Ou era para casar ou podia dar o fora quanto antes.

Respondi que era cedo para assentar um futuro, pelo menos do meu lado. Eu ainda estava no segundo ano de direito, e nem sequer tinha a certeza de que continuaria neste curso. De qualquer modo a minha família tinha uma estrutura de rendimentos muito consolidada e caso decidíssemos casar tudo se resolveria. Mas sem pressas. Ela era menor e eu não tinha modo de vida. De forma que ou namorávamos ou terminávamos agora mesmo.

A fase de namoro durou um par de anos largos, até ela ter dezoito anos. Nesta altura pedi ao pai da Constança, que só conhecia de longe, se autorizava que namorasse a sua filha, dando garantias de que estava sério na minha proposta, mas não queria por a carroça à frente dos bois e por isso pretendia a sua autorização antes de avançar. Não lhe pedia a filha para casar. Era prematuro. Agora só pretendíamos poder namorar abertamente sem receios de sermos perseguidos quando ambos estávamos de boa fé. Não houve problemas com o pai Sousa.

E assim andamos mais um par de anos num namoro bastante comedido, apesar dos meus avanços, que Constança foi consentindo. Hoje afirmo que abusei e ela não devia ter consentido, certamente que por imaginar que eu era a sua única tábua de salvação. Aquela vida de clausura tinha afectado Constança, como depois confirmei, mais do que era normal. Confirmei isto após curtas conversas com algumas das suas colegas, especialmente com aquelas que tinham familiares perto que as iam buscar para saírem na sua companhia, escapando daquelas aves de rapina. As amigas eram unânimes em dizer que o pai da Constança a tinha abandonada, entregue às freiras, e que lhe faltava o convívio aberto fora do convento-colégio.

Entretanto contei ao meu pai que estava decidido a casar com uma namorada que veio do Brasil, mas que não tinha um futuro próprio. Quase que se zangou, pois a minha afirmação era quase um insulto à família. Ou seria que eu deitava pela borda fora tudo o que sabia e tinha aprendido com o avô e com o pai? A partir deste momento és sócio efectivo na nossa sociedade, com ordenado mensal e direito à uma parte quando se distribuírem lucros após um balanço, que não está supeditado pelo fim do ano, pois que esta casa é liberal para fazer o que nós entendemos. Outra coisa é a contabilidade oficial. Mas isto já sabes como funciona.

E para preparar o futuro imediato, caso pensem em ficar por Coimbra, já esta tarde, depois do almoço, vamos procurar uma vivenda ou um andar bem grande, onde se possam instalar. Se fosse eu a decidir optava por um bom edifício na baixa. Somos capazes de encontrar uma residência que tenha pertencido a alguém com posses que se deslocasse para o estrangeiro, ou mesmo para Lisboa ou Porto, e queira negociar o trespasse ou a venda do imóvel incluindo o mobiliário. Mais uma coisa, IMPORTANTE,vou perguntar à Dona Idalina, que te conhece desde miúdo, se aceitaria uma proposta de passar ao teu serviço e da tua mulher, como governanta. Penso que a sua experiência e dedicação seriam um grande apoio à nova dona de casa, que, pelo que dizes, não foi criada no seio de uma família mas sim como pupila num colégio de freiras. Com certeza que lhe faltará experiência nas coisas mais banais de uma casa. Com a Idalina pode entrar no ritmo rapidamente e sem se sentir diminuída.

  • De forma que trata de arrumar as vossas vidas. Não faças esperar mais a tua futura mulher e vai, a ser possível, ainda hoje, pedir autorização do tal Serafim de Sousa para casar com a sua filha. A partir de agora só quero saber o dia e o local onde se irá celebrar a boda. Encurtando, pois que as coisas aceleraram, casamos na Sé, depois de que o pai da noiva conseguisse autorização do bispo, já seu amigo do peito (dar dinheiro e prendas é sempre bem recebido pela Igreja. Não ligam às insinuações de pobreza e humildade que eles mesmo transmitem aos outros como sendo este o desejo de Cristo)

O Sousa quase que dava pulos de contente. Não sei porque tinha um desejo tão intenso para se ver livre da única filha. Mas o que conta é que ofereceu como dote de Constança uma enorme casa que tinha adquirido no Vale do Pito, e que fez renovar com obras de vulto, assim como caprichou em ajardinar com esmero, tanto na selecção de árvores como na plantação de novas espécies, que me disse ter procurado nos viveiros do Estado.

Casamos, houve festa, passamos a noite no Astória, recém inaugurado, e na manhã seguinte partimos no Sud-Express para Paris. Dali regressamos a bordo de um Bugatti, novinho em folha, que foi prenda da dupla avô e pai.
Quanto a uma instalação do casal naquele casarão do Vale do Pito, que eu já visitei a pedido do agora sogro, penso que é prudente deixar passar uns tempos. Que a Constança possa retomar laços de amizade com antigas colegas do colégio. Agora com outros moldes, e com total liberdade para entrar e sair sem ter que depender do meu braço como acompanhante. Só aceitarei a ideia de mudar de casa quando for a Constança a sugerir, e mesmo assim gostaria de manter a residência de Coimbra.

E cheguei à altura das confidências de índole reservada que tu, Luísa, mostraste curiosidade, ou vontade de comparar o ontem com o hoje, coisa que nem sempre é fácil e correcto, pois os tempos e as pessoas mudamos mais do que aceitamos sem meditar.
(1) Ir na berlinda ou na boleia são equivalentes. Correspondem a acompanhar o cocheiro da carruagem, aquele que trazia as rédeas das bestas e o longo chicote, que fazia soar no ar, sem atingir os animais mas avisando-os para acelerar o andamento.

Seguirá, com as confidencias prometidas, no capítulo LIV

terça-feira, 8 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 52



Confidências muito reservadas

- Zé, sabia antes de casarmos, não só por experiência contigo mas também pela fama que arrastavas atrás de ti, que eras um bode, um fauno insaciável. Mas, homem, tudo o que é demais é moléstia, tem um pouco de senso e recorda os anos que já te deviam pesar, pelo menos em teres mais contenção quanto aos instinto machistas acerbados -e quem diz tinto, pode referir branco, palhete ou espumoso, tanto faz dar-lhe na cabeça como na cabeça lhe dar- Procura ter mais calma, pois estás a exigir de mais dos meus interiores. VAIS DAR CABO DE MIM! É que se estou por perto não te contentas com uma, duas, nem três! E se estiver menos vestida, por assim dizer, então não escapo do tratamento,nem que seja no meio do corredor, contra a parede!

Compreende que uma mulher gosta de ser desejada, mas tudo tem o seu peso e medida. Com a falecida Constança também te comportavas assim?

Luísa, querida, deve ser o impulso do corpo para aproveitar a capacidade sexual enquanto posso. Mas com esta desculpa esfarrapada não te convenço minimamente, pois a bem da verdade tenho que reconhecer que desde a adolescência sempre andei louco pelas saias, ou mais concretamente, pelo paraíso que existia debaixo delas. Não te contarei as minhas aventuras “galantes” em idade de rapaz, tanto na Guarda como em Coimbra. Teria que fazer um esforço titânico para colocar os factos numa ordem cronológica minimamente correcta.Só te digo que seja pela figura ou pelocomportamento galante e respeitador que sempre mantive com qualquer rapariga ou mulher, viesse ela de onde fosse e pertencesse a qualquer estrato social, quando as queria galar todas eram peixe para apanhar na minha rede. Jamais me servi de uma prostituta. Foram sempre borlas consentidas e até desejadas. Mesmo depois de casado mantive esta atitude, e não me arrependo.

Mas não fujo à tua seta envenenada, em que colocaste a Constança na berlinda (1). Penso que unindo alguns comentários soltos deves ter feito uma composição de como a falecida esposa entrou neste País quando o seu pai, Serafim de Sousa decidiu deixar o Brasil, vendendo todos os seus bens e trazendo com ele, para a terra onde nasceu, ou melhor para Coimbra pois de trás-os-montes não tinha saudades.

Vinha acompanhado da sua filha, ainda uma criança do poucos anos, cuja mãe faleceu pouco depois do parto e a filha foi criada por uma ama, preta retinta, que o Serafim tinha engravidado. Diz-se que propositadamente sabendo da fraca resistência da esposa. A Constança nunca referiu que tinha um irmão no Brasil, de leite e de pai. São coisas incómodas que convêm esquecer, nem sequer citar.

Em chegando a Coimbra e no intuito de acompanhar o conservadorismo que, logo ao chegar, verificou que existia no sei da elite conimbricense, nomeadamente pelo núcleo fechado a sete chaves que lá existia, onde só uns tantos velhos fidalgos ou novos ricos já instruídos, gastadores e com filhos para casar (filhas solteiras era o que sobrava!) é que mereciam um abrir de portas naquele núcleo tão exclusivo e fechado a sete chaves que existia naquela cidade.

Serafim de Sousa, que sempre foi lesto como uma gineta (também conhecido como gato bravo) travestiu-se rapidamente num seguidor convicto e rigoroso dos preceitos da Igreja Católico, esquecendo o facto de ser elemento graduado da Loja Maçónica da Baía. Pensou, e bem, que mais adiante poderia bater à porta de uma loja de Portugal. De preferência aquela que lhe fosse referida como sendo a mais importante no centro do Pais. Para não perder tempo solicitou (apoiado numa “esmola”) a sua entrada, como membro activo, na confraria do Sagrado Coração de Jesus, que foi a que lhe recomendou o Sr. Bispo quando lhe foi apresentar os seus cumprimentos após ter regressado do Brasil. Tal como Serafim dizia entre dentes, para os seus botões do gilé (peça do terno que corresponde ao hoje denominado colete, já em desuso), Não basta viver, é preciso saber viver!

E assim a Constança, criança que falava em brasileiro, foi separada dos braços da sua ama e entregue à Madre Superiora do Convento. A tal ama de leite, -com café sempre eu disse- ficou na casa do Sousa recluída na cozinha como ajudante, e com autorização de subir até o leito do patrão quando ele a requisitasse. Não tardou em morrer de tristeza e saudade. Foi enterrada no talhão dos indigentes, sem identificar.

Constança foi educada nas regras, rígidas, das Carmelitas. Ali aprendeu a bordar, tocar piano, uns rudimentos de pintura e francês, além de papaguear o castelhano com que as irmãs falavam entre si. Nunca perdeu o lindo cantar da fala brasileira. Ali atingiu a puberdade, o passar ao estatuto de mulher pretensamente fértil. Já então o colégio conseguiu a autorização para leccionar o primeiro e segundo ciclos do liceu. Constança, quase que abandonada pelo pai, mas com as mesadas religiosamente pagas, continuou naquela quase reclusão.

As únicas saídas consentidas, por falta de familiares que a procurassem, eram as idas à igreja, a Sé principalmente, as vistas múltiplas a templos na Semana Santa e uns poucos passeios, para a colina da saudade, choupal e pouco mais. E sempre acompanhadas e vigiadas pelas freiras mais velhas, permanente de olhos postos não só nas alunas a seu cuidado mas, principalmente, no comportamento das noviças, pois sabiam que estas, tendo o sangue ainda quente, desviavam o olhar para o cruzar com o dos estudantes, que como moscardos sempre rondavam estas colunas de meninas. Já foram várias as noviças, que entraram empurradas pelas famílias e curas, que chegadas à cidade se escaparam com algum estudante. Alguma casou, e outras ficaram por aí, até com filhos nos braços...

Eu era um destes fardados de capa e batina, como os seminaristas, que andava à caça. Ali havia peças muito apetecíveis e alguns dos colegas tinham conseguido resgatar alguma menina. Se outros tinham sucesso eu também o teria! Além de seguir os passeios higiénicos, um local bom donde estender as redes era nos templos. Procurava ficar na fila seguinte ao do grupo, e não tardei em fixar os olhos naquela moça tão diferente, que vim a saber se chamava Constança. Não tardou em nos tornar espertos nas trocas de mensagens; fossem papelinhos ou olhares com pálpebras meio fechadas, para disfarçar.

Segue no capítulo LIII


segunda-feira, 7 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap 51


Quando será o encontro com a PJ?

- Bom dia. Tu dormistes bem, pelo menos pelo que pude observar nas fases de insónia que padeci. Uma estupidez, perder o sono quando sabemos que não está na nossa mão eliminar certas preocupações. Mas o que vejo em ti é que tens a cara num espelho de sossego e bem estar, coisa que celebro, sem inveja.-

- Pois eu lamento que tenhas tido “sonhos maus”. Sentia-se que estavas nesta fase onírica pela agitação incontrolada com que reagias a não sei que agressões. Mas acabaste por adormecer, que é o mais importante.
  • - Numa história apócrifa, do estilo das anedotas brancas, referia de um sujeito que era capaz de comer, de uma assentada, um cabrito assado. Mas, acrescentava ele, à força de pão caseiro e vinho tinto. Pois eu, se retomei o sono, foi à força dum comprimido milagroso, de uma droga, sem tirar nem por.
  • Vamos ao que interessa: O que tratei em Aveiro, ou mais propriamente do ouvi da boca do Rei dos ciganos desta zona. Poucas novidades; o mais importante foi que confirmou as minhas suspeitas de que por estas bandas, e sem darem muito nas vistas, andam uns sujeitos que, além de encorpados e com aspecto de terem um treino militar das chamadas forças especiais, não se mostram muito sociáveis com os naturais com quem se cruzam. Despedimo-nos com demonstrações de amizade e propósitos de colaborar no sentido não só de esclarecer o assunto dos mortos como no mais difícil, de afugentar estes indesejáveis (eu acrescento que com a nossa malandragem, incluídos os ciganos, já nos chega e sobra)
       O que veio a seguir conheces em primeira mão.
  • Mal dermos conta das respectivas higienes corporais e engolirmos alguns alimentos para nos fornecer energia até o almoço, vou tratar de uma coisa que devia ter feito de imediato e que, com os nervos que nos causaram os acontecimentos, não tratei devidamente. Foi um descuido que é necessário corrigir.
  • Irei ao posto da GNR para denunciar ter sido alvo, por desconhecidos, de um abuso e ofensa ao nos colocarem os corpos de dois mortos, ambos com evidentes sinais de terem sido assassinados, em local desconhecido, antes de nos fazerem estas ofertas macabras, nos nossos terrenos. Quero que conste isto como uma queixa-crime, da qual desejo que siga o circuito que cabe e vir a ter uma resposta condigna.
  • Após feita esta diligência solicitarei um documento, nem que seja uma fotocópia, que sirva de comprovativo para futuro seguimento. Entre nós admito que esta acção não terá qualquer efeito; mas pode servir, pelo menos, para confirmar que não deixamos esquecer esta ofensa. Só depois de ter este papel é que decidirei se me apresento na PJ de Coimbra, embora preferiria que a convocação viesse de lá.
      Felizmente tenho pouco conhecimento de como funcionam os serviços da        PJ, e já te disse que o mais provável é que em muitos inquéritos existam          denúncias ou testemunhas ocultas, bufos como se diz na gíria. Mas por              enquanto não tenho o espírito adaptado à ideia de ir lá, bater à porta, e dizer:   Senhores, aqui está este cidadão, mais um representante idóneo de uma     extensa família de indivíduos de etnia cigana, com vontade de poder colaborar   com os vossos serviços para tentar e conseguir, se for possível, esclarecer       quem foram os autores do duplo assassinato, e se existiu um mandatário para   este trabalho. Neste caso, certamente a PJ não deixará de procurar como       surgiu a decisão de eliminar duas pessoas e quem é o primeiro responsável.

Não posso entrar neste departamento policial de primeira magnitude como se fosse comprar bilhetes para o teatro. Uma proposta deste teor carece de ter previamente um ambiente favorável. A frio é difícil que pegue, e eu não estou para receber um vexame. Assim como não quero sujeitar o Ortega a uma desfeita. Temos que aguardar que a bola entre no nosso campo.

domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 50

José, tem calma!

A curta conversa que sobre o tema mantive com o Ortega não me satisfez. Não me sinto satisfeito. Prometi forçar um encontro com o inspector Cardoso da Judiciária mas não sei se este é o caminho adequado. Preferiria que a iniciativa viesse do lado oficial, ou oficioso. Vou ficar quieto na casa do Vale e aguardar, com um esforço de serenidade, que as coisas corram sem que seja eu a empurrar.

Tenho a noção, e não estou errado, de que muito do que orienta as investigações da polícia tem a participação, ou mesmo a sua origem, em denúncias. Quantas vezes anónimas ou com pedido de não serem identificadas documentalmente. Mas não gostaria de ficar catalogado como um bufo, um informador, um denunciante. Prefiro que se considere que tenho razões, mais do que suficientes, para apresentar queixa contra uns desconhecidos que invadindo terrenos privados, por sinal de minha propriedade, nos colocaram numa situação de podermos ser considerados como parte activa em dois crimes de morte. É com este argumento, exclusivamente, que eu devo apresentar-me, voluntariamente na sede da PJ de Coimbra, se antes não for notificado para comparecer a fim de declarar. Ou seja, mantenho a minha decisão de aguardar, pelo menos mais um dia.

Mesmo assim sei que terei uma noite mal passada. Não porque o que jantei implique uma digestão turbulenta, mas porque o meu pensamento está ocupado neste assunto, que, queira ou não, pode ser orientado para uma investigação apurada aos meus negócios. O aviso do Dr. Sílvio CARDOSO, foi bem claro, e, por isso mesmo, tive que reagir de imediato. Falta saber se esta minha mudança chegará para que a pasta dos Maragatos possa dormir o sono dos quase justos.

E já cheguei a casa, que tem luzes acesas desde a entrada até as salas e quarto do primeiro andar. A Luísa deve estar aguardando a minha chegada, apesar de que ao deixar o Ortega lhe tenha telefonado dizendo que não há grandes novidades, que podia deitar-se com um livro interessante e que não demoraria, pois iria sem paragens desde Aveiro a casa. Oxalá ela tenha o bom senso de não me fazer um daqueles interrogatórios conjugais, que são apanágio das mulheres. São piores do que os da polícia, a não ser quando estas forças da ordem optam pela agressividade e arreiam. Eu, pessoalmente, nunca fui alvo de pancada. Mas soube de interrogatórios que deixaram marcas visíveis, além das sequelas internas. 

- Então Luísa? Vejo com agrado que optaste pela minha dica. Ou seja que tiraste as roupas de rua e estás aguardando no leito conjugal. Dormitaste?

- Nem por isso. Entre chegar, arrumar a tralha de dois dias na boa-vai-ela e tomar um banho reconfortante, quando entraste tinha-me deitado naquele momento. Dá cá um abraço, com beijo a cavalo -não procures interpretações eróticas! Foi um trocadilho de índole culinária- E sei que deves estar fatigado; tal como eu. Não me faças um relato, toma o teu duche e vem descansar ao meu lado. Teremos tempo e cabeça fresca amanhã para poder matutar no que pensas fazer. Anda, vai para a casa de banho e não te entretenhas! 

Não só tomaste banho, como fizeste a barba e cheiras à loção que sabes eu aprecio. Já agora, tens ideia de que muitas esposas consideram as loções da barba dos seus maridos como sendo pócimas milagrosas? Estão convencidas de que são melhores, para tudo, do que a água de Fátima. E quanto a esta comparação não tenho nada a dizer, para não criar susceptibilidades.

O que sabes de certeza é a que corresponde referir o descanso do guerreiro.  Para te proporcionar uma dormida reparadora não sei de melhor tratamento do que unir os nossos corpos, com a promessa irrevogável de que, depois de te servires devidamente, vou deixar-te cair para o lado. E até ressonar se for caso disso. Anda cá e não te finjas estar desinteressado. Tens aqui quem te quer atender não só de braços abertos como também de pernas bem abertas, escarranchadas, como sei que gostas de ver.
..

- De facto dormi como uma pedra. Pelo menos até as quatro da madrugada, em que voltaram as incógnitas e a indecisão acerca do que tenho que fazer. Para já vou engolir um comprimido, minúsculo, de Valium, porque se não for assim amanhã não serei capaz de mandar uma para a caixa (1)

Ao acordar recordei parte do sonho, ou pesadelo, que me apoquentava. Os pormenores sumiram-se, mas sei que o tema de fundo fixava-se no que tinha sido a minha vida até este momento e na dúvida do que seguirá. Mesmo a dormir estava ciente de que é relativamente fácil rememorar o passado, apesar da selecção que o inconsciente faz, colocando no canto mais recôndito do arquivo as vivências que nos desagradaram. Suponho, no seio da minha ignorância supina, que imaginamos o futuro, mesmo dormindo, em função do que gostaríamos que ele fosse e também baseando-nos no que já conhecemos do passado. Ou seja, que adivinhar o futuro, havendo como há tantas variáveis que não dependem da nossa vontade, é uma tarefa inglória. E o tentar descortinar o que deve acontecer, é tempo perdido inutilmente.

Acordado -antes que o comprimido faça efeito- rememoro que ao longo do tempo em que fui casado com a Constança, procurei que ela fosse mantida de fora das minhas actividades. Da mesma forma com que ela jamais se referiu ao modo como o seu pai fez fortuna no Brasil e consegui “comprar” um mísero título de comendador, que mais tarde já no fim da sua vida, após investir noutra dádiva generosa à corte, foi elevado à categoria de Conde do Vale. É provável que Constança, não sendo estúpida, que não era, preferiu viver num estado de defesa, num “faz de conta” como as crianças quando brincam com bonecas ou cozinhas minorcas. Era impossível que não soubesse da existência de escravos nas fazendas do pai no Brasil, e dos castigos crueis que lhes davam. Assim como fingia nem sequer desconfiar das conversas recatadas que eu mantinha com alguns visitantes da mansão, que raramente lhes eram apresentados. Assim vivia mais feliz. Não é a única pessoa que, por sistema, olha para o lado oposto dos acontecimentos.

Agora com a Luísa, que teve uma infância bastante diferente, e com os seus percalços, mesmo no meio popular em que viveu, tive bastante receio de a deixar entrar nos meus assuntos, mais para sua defesa do que por desconfiança. Sem pressas ela terá que ser o meu braço esquerdo, pois sendo eu destro o direito está activo e em bom uso.

(1) locução antiga que hoje poucos devem saber de onde vem. Nas tipografias que compunham os textos escolhendo as letras em pequenos cacifos, quando se tinha que desfazer a prancha era necessário voltar a colocar os tipos nas caixas correspondentes. Uma tarefa especializada que devia ser feita rapidamente e sem enganar a colocação.