terça-feira, 8 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 52



Confidências muito reservadas

- Zé, sabia antes de casarmos, não só por experiência contigo mas também pela fama que arrastavas atrás de ti, que eras um bode, um fauno insaciável. Mas, homem, tudo o que é demais é moléstia, tem um pouco de senso e recorda os anos que já te deviam pesar, pelo menos em teres mais contenção quanto aos instinto machistas acerbados -e quem diz tinto, pode referir branco, palhete ou espumoso, tanto faz dar-lhe na cabeça como na cabeça lhe dar- Procura ter mais calma, pois estás a exigir de mais dos meus interiores. VAIS DAR CABO DE MIM! É que se estou por perto não te contentas com uma, duas, nem três! E se estiver menos vestida, por assim dizer, então não escapo do tratamento,nem que seja no meio do corredor, contra a parede!

Compreende que uma mulher gosta de ser desejada, mas tudo tem o seu peso e medida. Com a falecida Constança também te comportavas assim?

Luísa, querida, deve ser o impulso do corpo para aproveitar a capacidade sexual enquanto posso. Mas com esta desculpa esfarrapada não te convenço minimamente, pois a bem da verdade tenho que reconhecer que desde a adolescência sempre andei louco pelas saias, ou mais concretamente, pelo paraíso que existia debaixo delas. Não te contarei as minhas aventuras “galantes” em idade de rapaz, tanto na Guarda como em Coimbra. Teria que fazer um esforço titânico para colocar os factos numa ordem cronológica minimamente correcta.Só te digo que seja pela figura ou pelocomportamento galante e respeitador que sempre mantive com qualquer rapariga ou mulher, viesse ela de onde fosse e pertencesse a qualquer estrato social, quando as queria galar todas eram peixe para apanhar na minha rede. Jamais me servi de uma prostituta. Foram sempre borlas consentidas e até desejadas. Mesmo depois de casado mantive esta atitude, e não me arrependo.

Mas não fujo à tua seta envenenada, em que colocaste a Constança na berlinda (1). Penso que unindo alguns comentários soltos deves ter feito uma composição de como a falecida esposa entrou neste País quando o seu pai, Serafim de Sousa decidiu deixar o Brasil, vendendo todos os seus bens e trazendo com ele, para a terra onde nasceu, ou melhor para Coimbra pois de trás-os-montes não tinha saudades.

Vinha acompanhado da sua filha, ainda uma criança do poucos anos, cuja mãe faleceu pouco depois do parto e a filha foi criada por uma ama, preta retinta, que o Serafim tinha engravidado. Diz-se que propositadamente sabendo da fraca resistência da esposa. A Constança nunca referiu que tinha um irmão no Brasil, de leite e de pai. São coisas incómodas que convêm esquecer, nem sequer citar.

Em chegando a Coimbra e no intuito de acompanhar o conservadorismo que, logo ao chegar, verificou que existia no sei da elite conimbricense, nomeadamente pelo núcleo fechado a sete chaves que lá existia, onde só uns tantos velhos fidalgos ou novos ricos já instruídos, gastadores e com filhos para casar (filhas solteiras era o que sobrava!) é que mereciam um abrir de portas naquele núcleo tão exclusivo e fechado a sete chaves que existia naquela cidade.

Serafim de Sousa, que sempre foi lesto como uma gineta (também conhecido como gato bravo) travestiu-se rapidamente num seguidor convicto e rigoroso dos preceitos da Igreja Católico, esquecendo o facto de ser elemento graduado da Loja Maçónica da Baía. Pensou, e bem, que mais adiante poderia bater à porta de uma loja de Portugal. De preferência aquela que lhe fosse referida como sendo a mais importante no centro do Pais. Para não perder tempo solicitou (apoiado numa “esmola”) a sua entrada, como membro activo, na confraria do Sagrado Coração de Jesus, que foi a que lhe recomendou o Sr. Bispo quando lhe foi apresentar os seus cumprimentos após ter regressado do Brasil. Tal como Serafim dizia entre dentes, para os seus botões do gilé (peça do terno que corresponde ao hoje denominado colete, já em desuso), Não basta viver, é preciso saber viver!

E assim a Constança, criança que falava em brasileiro, foi separada dos braços da sua ama e entregue à Madre Superiora do Convento. A tal ama de leite, -com café sempre eu disse- ficou na casa do Sousa recluída na cozinha como ajudante, e com autorização de subir até o leito do patrão quando ele a requisitasse. Não tardou em morrer de tristeza e saudade. Foi enterrada no talhão dos indigentes, sem identificar.

Constança foi educada nas regras, rígidas, das Carmelitas. Ali aprendeu a bordar, tocar piano, uns rudimentos de pintura e francês, além de papaguear o castelhano com que as irmãs falavam entre si. Nunca perdeu o lindo cantar da fala brasileira. Ali atingiu a puberdade, o passar ao estatuto de mulher pretensamente fértil. Já então o colégio conseguiu a autorização para leccionar o primeiro e segundo ciclos do liceu. Constança, quase que abandonada pelo pai, mas com as mesadas religiosamente pagas, continuou naquela quase reclusão.

As únicas saídas consentidas, por falta de familiares que a procurassem, eram as idas à igreja, a Sé principalmente, as vistas múltiplas a templos na Semana Santa e uns poucos passeios, para a colina da saudade, choupal e pouco mais. E sempre acompanhadas e vigiadas pelas freiras mais velhas, permanente de olhos postos não só nas alunas a seu cuidado mas, principalmente, no comportamento das noviças, pois sabiam que estas, tendo o sangue ainda quente, desviavam o olhar para o cruzar com o dos estudantes, que como moscardos sempre rondavam estas colunas de meninas. Já foram várias as noviças, que entraram empurradas pelas famílias e curas, que chegadas à cidade se escaparam com algum estudante. Alguma casou, e outras ficaram por aí, até com filhos nos braços...

Eu era um destes fardados de capa e batina, como os seminaristas, que andava à caça. Ali havia peças muito apetecíveis e alguns dos colegas tinham conseguido resgatar alguma menina. Se outros tinham sucesso eu também o teria! Além de seguir os passeios higiénicos, um local bom donde estender as redes era nos templos. Procurava ficar na fila seguinte ao do grupo, e não tardei em fixar os olhos naquela moça tão diferente, que vim a saber se chamava Constança. Não tardou em nos tornar espertos nas trocas de mensagens; fossem papelinhos ou olhares com pálpebras meio fechadas, para disfarçar.

Segue no capítulo LIII


segunda-feira, 7 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap 51


Quando será o encontro com a PJ?

- Bom dia. Tu dormistes bem, pelo menos pelo que pude observar nas fases de insónia que padeci. Uma estupidez, perder o sono quando sabemos que não está na nossa mão eliminar certas preocupações. Mas o que vejo em ti é que tens a cara num espelho de sossego e bem estar, coisa que celebro, sem inveja.-

- Pois eu lamento que tenhas tido “sonhos maus”. Sentia-se que estavas nesta fase onírica pela agitação incontrolada com que reagias a não sei que agressões. Mas acabaste por adormecer, que é o mais importante.
  • - Numa história apócrifa, do estilo das anedotas brancas, referia de um sujeito que era capaz de comer, de uma assentada, um cabrito assado. Mas, acrescentava ele, à força de pão caseiro e vinho tinto. Pois eu, se retomei o sono, foi à força dum comprimido milagroso, de uma droga, sem tirar nem por.
  • Vamos ao que interessa: O que tratei em Aveiro, ou mais propriamente do ouvi da boca do Rei dos ciganos desta zona. Poucas novidades; o mais importante foi que confirmou as minhas suspeitas de que por estas bandas, e sem darem muito nas vistas, andam uns sujeitos que, além de encorpados e com aspecto de terem um treino militar das chamadas forças especiais, não se mostram muito sociáveis com os naturais com quem se cruzam. Despedimo-nos com demonstrações de amizade e propósitos de colaborar no sentido não só de esclarecer o assunto dos mortos como no mais difícil, de afugentar estes indesejáveis (eu acrescento que com a nossa malandragem, incluídos os ciganos, já nos chega e sobra)
       O que veio a seguir conheces em primeira mão.
  • Mal dermos conta das respectivas higienes corporais e engolirmos alguns alimentos para nos fornecer energia até o almoço, vou tratar de uma coisa que devia ter feito de imediato e que, com os nervos que nos causaram os acontecimentos, não tratei devidamente. Foi um descuido que é necessário corrigir.
  • Irei ao posto da GNR para denunciar ter sido alvo, por desconhecidos, de um abuso e ofensa ao nos colocarem os corpos de dois mortos, ambos com evidentes sinais de terem sido assassinados, em local desconhecido, antes de nos fazerem estas ofertas macabras, nos nossos terrenos. Quero que conste isto como uma queixa-crime, da qual desejo que siga o circuito que cabe e vir a ter uma resposta condigna.
  • Após feita esta diligência solicitarei um documento, nem que seja uma fotocópia, que sirva de comprovativo para futuro seguimento. Entre nós admito que esta acção não terá qualquer efeito; mas pode servir, pelo menos, para confirmar que não deixamos esquecer esta ofensa. Só depois de ter este papel é que decidirei se me apresento na PJ de Coimbra, embora preferiria que a convocação viesse de lá.
      Felizmente tenho pouco conhecimento de como funcionam os serviços da        PJ, e já te disse que o mais provável é que em muitos inquéritos existam          denúncias ou testemunhas ocultas, bufos como se diz na gíria. Mas por              enquanto não tenho o espírito adaptado à ideia de ir lá, bater à porta, e dizer:   Senhores, aqui está este cidadão, mais um representante idóneo de uma     extensa família de indivíduos de etnia cigana, com vontade de poder colaborar   com os vossos serviços para tentar e conseguir, se for possível, esclarecer       quem foram os autores do duplo assassinato, e se existiu um mandatário para   este trabalho. Neste caso, certamente a PJ não deixará de procurar como       surgiu a decisão de eliminar duas pessoas e quem é o primeiro responsável.

Não posso entrar neste departamento policial de primeira magnitude como se fosse comprar bilhetes para o teatro. Uma proposta deste teor carece de ter previamente um ambiente favorável. A frio é difícil que pegue, e eu não estou para receber um vexame. Assim como não quero sujeitar o Ortega a uma desfeita. Temos que aguardar que a bola entre no nosso campo.

domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 50

José, tem calma!

A curta conversa que sobre o tema mantive com o Ortega não me satisfez. Não me sinto satisfeito. Prometi forçar um encontro com o inspector Cardoso da Judiciária mas não sei se este é o caminho adequado. Preferiria que a iniciativa viesse do lado oficial, ou oficioso. Vou ficar quieto na casa do Vale e aguardar, com um esforço de serenidade, que as coisas corram sem que seja eu a empurrar.

Tenho a noção, e não estou errado, de que muito do que orienta as investigações da polícia tem a participação, ou mesmo a sua origem, em denúncias. Quantas vezes anónimas ou com pedido de não serem identificadas documentalmente. Mas não gostaria de ficar catalogado como um bufo, um informador, um denunciante. Prefiro que se considere que tenho razões, mais do que suficientes, para apresentar queixa contra uns desconhecidos que invadindo terrenos privados, por sinal de minha propriedade, nos colocaram numa situação de podermos ser considerados como parte activa em dois crimes de morte. É com este argumento, exclusivamente, que eu devo apresentar-me, voluntariamente na sede da PJ de Coimbra, se antes não for notificado para comparecer a fim de declarar. Ou seja, mantenho a minha decisão de aguardar, pelo menos mais um dia.

Mesmo assim sei que terei uma noite mal passada. Não porque o que jantei implique uma digestão turbulenta, mas porque o meu pensamento está ocupado neste assunto, que, queira ou não, pode ser orientado para uma investigação apurada aos meus negócios. O aviso do Dr. Sílvio CARDOSO, foi bem claro, e, por isso mesmo, tive que reagir de imediato. Falta saber se esta minha mudança chegará para que a pasta dos Maragatos possa dormir o sono dos quase justos.

E já cheguei a casa, que tem luzes acesas desde a entrada até as salas e quarto do primeiro andar. A Luísa deve estar aguardando a minha chegada, apesar de que ao deixar o Ortega lhe tenha telefonado dizendo que não há grandes novidades, que podia deitar-se com um livro interessante e que não demoraria, pois iria sem paragens desde Aveiro a casa. Oxalá ela tenha o bom senso de não me fazer um daqueles interrogatórios conjugais, que são apanágio das mulheres. São piores do que os da polícia, a não ser quando estas forças da ordem optam pela agressividade e arreiam. Eu, pessoalmente, nunca fui alvo de pancada. Mas soube de interrogatórios que deixaram marcas visíveis, além das sequelas internas. 

- Então Luísa? Vejo com agrado que optaste pela minha dica. Ou seja que tiraste as roupas de rua e estás aguardando no leito conjugal. Dormitaste?

- Nem por isso. Entre chegar, arrumar a tralha de dois dias na boa-vai-ela e tomar um banho reconfortante, quando entraste tinha-me deitado naquele momento. Dá cá um abraço, com beijo a cavalo -não procures interpretações eróticas! Foi um trocadilho de índole culinária- E sei que deves estar fatigado; tal como eu. Não me faças um relato, toma o teu duche e vem descansar ao meu lado. Teremos tempo e cabeça fresca amanhã para poder matutar no que pensas fazer. Anda, vai para a casa de banho e não te entretenhas! 

Não só tomaste banho, como fizeste a barba e cheiras à loção que sabes eu aprecio. Já agora, tens ideia de que muitas esposas consideram as loções da barba dos seus maridos como sendo pócimas milagrosas? Estão convencidas de que são melhores, para tudo, do que a água de Fátima. E quanto a esta comparação não tenho nada a dizer, para não criar susceptibilidades.

O que sabes de certeza é a que corresponde referir o descanso do guerreiro.  Para te proporcionar uma dormida reparadora não sei de melhor tratamento do que unir os nossos corpos, com a promessa irrevogável de que, depois de te servires devidamente, vou deixar-te cair para o lado. E até ressonar se for caso disso. Anda cá e não te finjas estar desinteressado. Tens aqui quem te quer atender não só de braços abertos como também de pernas bem abertas, escarranchadas, como sei que gostas de ver.
..

- De facto dormi como uma pedra. Pelo menos até as quatro da madrugada, em que voltaram as incógnitas e a indecisão acerca do que tenho que fazer. Para já vou engolir um comprimido, minúsculo, de Valium, porque se não for assim amanhã não serei capaz de mandar uma para a caixa (1)

Ao acordar recordei parte do sonho, ou pesadelo, que me apoquentava. Os pormenores sumiram-se, mas sei que o tema de fundo fixava-se no que tinha sido a minha vida até este momento e na dúvida do que seguirá. Mesmo a dormir estava ciente de que é relativamente fácil rememorar o passado, apesar da selecção que o inconsciente faz, colocando no canto mais recôndito do arquivo as vivências que nos desagradaram. Suponho, no seio da minha ignorância supina, que imaginamos o futuro, mesmo dormindo, em função do que gostaríamos que ele fosse e também baseando-nos no que já conhecemos do passado. Ou seja, que adivinhar o futuro, havendo como há tantas variáveis que não dependem da nossa vontade, é uma tarefa inglória. E o tentar descortinar o que deve acontecer, é tempo perdido inutilmente.

Acordado -antes que o comprimido faça efeito- rememoro que ao longo do tempo em que fui casado com a Constança, procurei que ela fosse mantida de fora das minhas actividades. Da mesma forma com que ela jamais se referiu ao modo como o seu pai fez fortuna no Brasil e consegui “comprar” um mísero título de comendador, que mais tarde já no fim da sua vida, após investir noutra dádiva generosa à corte, foi elevado à categoria de Conde do Vale. É provável que Constança, não sendo estúpida, que não era, preferiu viver num estado de defesa, num “faz de conta” como as crianças quando brincam com bonecas ou cozinhas minorcas. Era impossível que não soubesse da existência de escravos nas fazendas do pai no Brasil, e dos castigos crueis que lhes davam. Assim como fingia nem sequer desconfiar das conversas recatadas que eu mantinha com alguns visitantes da mansão, que raramente lhes eram apresentados. Assim vivia mais feliz. Não é a única pessoa que, por sistema, olha para o lado oposto dos acontecimentos.

Agora com a Luísa, que teve uma infância bastante diferente, e com os seus percalços, mesmo no meio popular em que viveu, tive bastante receio de a deixar entrar nos meus assuntos, mais para sua defesa do que por desconfiança. Sem pressas ela terá que ser o meu braço esquerdo, pois sendo eu destro o direito está activo e em bom uso.

(1) locução antiga que hoje poucos devem saber de onde vem. Nas tipografias que compunham os textos escolhendo as letras em pequenos cacifos, quando se tinha que desfazer a prancha era necessário voltar a colocar os tipos nas caixas correspondentes. Uma tarefa especializada que devia ser feita rapidamente e sem enganar a colocação.



sábado, 5 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 49


Encontro com Rafael Ortega

- Luísa, como sabes estou convocado pelo Rei dos Calés da zona de Aveiro para um jantar que, sem dúvida, será de índole reservada. Nem sei onde será que este Ortega esta disposto a se encontrar comigo.

- Por outro lado não posso afirmar que conheça bem estas gentes. Apesarn de ter tido contactos com ciganos ao longo da vida. Nem sequer são pessoas que nos ofereçam uma oportunidade para tentar descobrir alguma intimidade. São um povo muito especial, de estirpe nómada, embora alguns já se radicaram aqui, com casa e bens. Dizem que são oriundas da península indostânica, até se lhes atribui terem iniciado a sua diáspora a partir do actual Paquistão. E não tenho memória de que numa reunião importante estivessem mulheres presentes.

Atrevo-me a dizer que este povo cigano tem os seus costumes e regras que, se as analisarmos não diferem muito das que eram gerais entre nós cem anos atrás. Qualifico como uma sociedade patriarcal, que por trás do palco é, tal como entre os payos, mostra ter muitos assuntos onde predomina o comando das mulheres. Ou seja, que existe neles uma dicotomia de poder, mais fingida do que real, entre o patriarcado e o matriarcado.

Ou seja, o facto de que o Ortega te conheça não quer dizer que te coloque em pé de igualdade. Por isso, e mais uma vez, muito contrariado como marido, tenho que te pedir que em chegando a Aveiro te juntes a alguma das tuas amizades; que jantem juntas ou acompanhadas e aguardes a minha chamada. Sugiro que agora faças alguma chamada particular para te orientares e eu vou estacionar para ligar ao tal Rafael Ortega e não andar por aí à toa. 

- Senhor Ortega ou Don Rafael, se preferir, sou o José Maragato. Já estou em Aveiro e, se lhe é possível, pode-me orientar para ir aolugar onde nos podemos reunir, sem testemunhas incómodas.

.....
- Amigo Maragato, sempre pontual como um relógio suíço. O melhor é que eu aguarde por si em frente do Turismo, antes de atravessar a ria, e depois faz-me sinal para que avance e o senhor me siga. Ando num Mercedes Azul muito escuro, quase preto. Não tem engano. Não demoro,pois já estou na Avenida Lourenço Peixinho. Já vi o seu carro e faço sinais de luzes. Vou atrás de si.

......

- Esta zona onde nos encontramos agora não é propriamente de interesse turístico, mas nesta tasca além de cozinhar bem e com produtos frescos, em especial peixe e marisco, tudo é de confiança. Pode ser que estranhe algumas caras, mas não é casual estarem sentados virados para e mesa reservada. Tenho que ter as costas sempre cobertas. O Amigo é meu convidado e podemos comer com toda a tranquilidade. Sente-se, se faz favor. 

- Se aceitar as minhas opções já tenho o menu assente e em andamento. Para fazer boca trazem uma ameijoas abertas, com molho de alho, salsa e azeite, mas sem aquela areia que as pode tornar intragáveis. E uns bocados de enguia frita, das gordas. Para acompanhar um verde branco bem gelado. O que vier a seguir já se verá. Guardaremos a conversa séria para o café, enquanto digerimos calmamente.

- Se as ameijoas estavam óptimas, este robalo de anzol(vê-se bem que não é do viveiro da Pescanova, que se não faliu por completo está a meter água pelo cavername) promete vir a deixar saudades, e não só ele, estes grelos cozidos, com uma cor verde claro que dizem come-me, não desmerecem. O Ortega sabe escolher bem um jantar, leve e agradável. 

- É pena aquilo  que por aí consta da Pescanova. A ria necessitava de iniciativas deste teor. Se eu não estou enganado ali coincidiram erros de gestão e não conseguiram aguentar a expansão global do seu negócio. Por outro lado soube-se que naõ foram respeitadas e menos cumpridas as normas lagais sobre a largada de águas poluídas na zona lacustre. Podem não ser todos culpados, mas o que se confirma é que estas águas estão muito poluídas. Inclusive algumas entidades oficiais poucos resultados positivos mostraram nas análises efectuadas. Tanto dinheiro gasto terá ido pelo esgoto abaixo ou se esfumou pelo caminho? Entre os financimentos europeus, e dinheiros do Orçamento do Estado, empréstimos bancários sem garantias, que depois tiveram que ser (?) pagos por todos os cidadãos, tem sido um desastre, ou um fartai vilanagem. Portugal não precisa de nós, ciganos, para meter paus nas rodas da economia. Os patriotas, que dizem merecer respeito, chegam e sobram para estragar tudo..

- Não tenho argumentos sérios para o contradizer. Aliás, há bastantes anos, pouco depois da abrilada, que em conversas com o meu falecido pai, opinávamos que aquela alvorada promissora não tardou em se transformar num esterqueiro mal cheiroso. De quem é a culpa? A minha avó dizia que a culpa é negra e ninguém a quer. O que equivale ao que muitos pensamos: que os culpados somos todos, mas que nada fazemos para alterar os factos. As pessoas se habituaram com o consolo do cornudo. Ficar satisfeitos com poder apontar umas dúzias de indivíduos concretos e dormir sossegados. Quando surge a oportunidade de fazer uma triagem, nas tais eleições gerais, consegue-se que tudo fique na mesma ou pior. Um panorama que se repete em muitos patamares da sociedade nacional, desde a formação de governos até os clubes desportivos, passando pelas juntas de freguesia, e muitas Câmaras Municipais. 

O que lhe digo, Senhor Ortega, é que já estou quase ao nível de azedar a digestão. Se não se importar, mal por mal, gostaria de saber se tem alguma coisa acerca do meu problema que mereça ser contada. Tenho muito interesse em me ver livre destes mortos.

- Pois, Amigo Doutor Maragato (não sou doutor a sério, com deve saber!) Eu sei, e já me disse isto umas poucas de vezes. Acontece que eu quero usar esta qualidade só, e com muita vontade, por uma questão de respeito e amizade. Com os anos verifiquei que o Maragato não pensa nem age para nós da mesma forma, mistura de medo, vergonha e altivez, com que somos tratados pela maioria dos seus compatriotas, que aliás também são nossos pois os documentos assim o dizem.

Entrando no assunto. O que me disse no outro dia está mais do que certo. Aquelas mortes, assassínios, não foram obra de um exaltado qualquer. Ali, como deduziu e bem, houve mão de profissionais. E as suas suspeitas não estavam muito erradas. Pelo que fui sabendo, por ali andaram, e ainda andam, gentes do Leste, que os meus homens definem como mercenários e bandidos da pior espécie. Também acertou ao pensar que nós, os ciganos, não morremos de amores com estas gentes. Que desejaríamos fossem corridos quanto antes. Mas não temos estofo, nem treino, nem por enquanto armamento, para os enfrentar.

De facto, sensatamente pensamos que, tal como o Amigo deixou no ar, poderia ser favorável poder conjugar esforços com as autoridades policiais de Portugal, e quem sabe se até, através destas, com a Interpol. Mas a quem nos apresentar? Com a GNR temos precisamente o controle dos campos, das matas e caminhos, mas entre nós e eles passamos épocas de assédio e outras com  calma, com fechar de olhos e troca de favores. A PSP, que actua nas ciudades e vilas mais importantes, comporta-se de forma parecida, mas seguindo regras internas diferentes. Uns são militares e os outros civis, mesmo que fardados e com galões. São conceitos e comportamentos que nãp coincidem totalmente, Se calhar o mais promissor poderia surgir dum encontro, sem público nem fotógrafos, com responsáveis da Judiciária.

E aqui é onde penso que o Dr. José Maragato, que até é parte interessada neste problema, poderia ser um intermediário, uma ponte de ligação entre as duas sociedades, a nacional PJ e a informal, mas existente, onde eu tenho um lugar. E somos muitos “irmãos”, que ultrapassam em milhares aos que estão sob a minha alçada directa em Aveiro e arredores. O que me diz a este sonho?

- Se para si é um sonho, para mim é um pesadelo. E, sem ter todas as cartas deste baralho imagino que estamos perante uma ameaça social nova, da qual não temos experiência. Amanhã vou tentar falar com o inspector a quem lhe entregaram a solução dos dois mortos, e, se a conversa se proporcionar, lhe apresentar a hipótese de colaboração que, em esboço, ficou alinhavada.

Penso que, por enquanto, não podemos avançar muito mais. Se bem que julgo que o Amigo Ortega conheça mais alguns pormenores importantes que ainda não apresentou. Fez bem, faltam muitas mãos neste jogo e tem que se acertar o andamento dos elementos que se juntem para tentar tranquilizar o ambiente. E agora vou ter com a minha mulher, que espera pacientemente.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 48




De facto não te demoraste muito. E trataste das coisas devidamente?

Sem problemas. Todos eram gente conhecida de longo tempo. Os mais velhos viram-me de calções, em garoto. Sem estar mascarado de lusito, ou de escuteiro. Fartos de fardas e galões estavam os meus progenitores. Estes veteranos conhecem muitos capítulos, por dentro quase sempre, e por isso não necessito explicar. E como lhes disse que daria rumo a todos. Que não deixaria ninguém na valeta, não se gerou qualquer sintoma de pânico.

Francamente posso dizer que me consideram como sendo (quase) da família de cada um deles. Ou perto disso, pois já fui padrinho de baptizados e casamentos num ror de ocasiões. Qualquer dia começarão a aparecer na casa do Vale, com saudações de “padrinho-madrinha” como nos filmes de mafiosos. Logo que lhes disse que tinha casado mostraram um vivo interesse para conhecer a nova “patroa”.

...

São boas horas para o caminho que temos pela frente. O tempo está bom e estas estradas de agora encurtam muito o tempo necessário. Quase que parece que mudamos para um país progressista. Como só tenho um compromisso, ou temos se quiseres estar presente, à hora de jantar, podemos almoçar tranquilamente seja em Mangualde ou até podemos desviar para Santa Comba. Nesta terra, berço de Salazar, tenho conhecimentos -já vi que fizeste sinal de que tenho conhecimentos em qualquer canto. O que é que esperavas? Ando por estas bandas desde criança, sempre misturado com adultos!- Ao que ia, já te tinha dito que suspeito desta zona como ser o covil da malandragem que me incomoda e se atreve a ofender. Se souber manobrar a conversa pode ser que, sempre nas entrelinhas pois este pessoal não se quer comprometer, me ofereçam alguma dica que não dariam à polícia.

Luísa, já deves ter captado que apesar de estar decidido que me acompanhes nas minhas deslocações, ou pelo menos nalgumas, alguns dos encontros, ou concretamente as pessoas com quem está programado que me encontre, e também os temas que constam da agenda -falando como se isto fosse uma empresa e não mais uma espécie de maçonaria sem emblema, aventais nem juramentos como corolário de rituais esotéricos- Neste aspecto o grupo de pessoas com quem tenho conexões e negócios, são mais livres e ao mesmo tempo conscientes de que o seu interesse pessoal coincide com o interesse de todos os membros de grupo. Um total que eles avaliam como bastante numeroso, embora só conhecem uma minoria dos “sócios”.

Não por hermetismo mas simplesmente porque as áreas onde cada um deles se move não carecem de saber da existência concreta de quem compõe e a que se dedicam as outras parcelas. Quando sinto que aquilo em que uma célula está metida excede as suas capacidades, dou indicações para que duas ou mais células coordenem o seu trabalho e as suas especialidades. Vou dar-te um exemplo de como funciona tudo isto, e verás que é, ao mesmo tempo, complexo e simples quando todos os sectores funcionam correctamente.

O exemplo mais elucidativo é o da fisiologia humana. As funções e importância dos diferentes órgãos, desde o cérebro ao coração, passando pelos rins, fígado, bexiga, próstata, testículos, placenta, ovários, olhos, braços e pernas, dedos e dentes, ouvidos, fel, e muitas glândulas de que nem nos preocupamos, ou só quando deixam de funcionar como lhes é exigido, não conduz a que desde o posto de comando cerebral desprezemos nenhum dos órgãos. Todos eles tem funções importantes. Assim funciona a organização que o meu avo e depois o meu pai foram construindo e aperfeiçoando. Aquilo que diferencia esta espécie de sociedade secreta das outras, desde a maçonaria até o Opus Dei é que não pretende mudar os governos, construir uma elite de dominantes e exploradores, nem cair em favoritismos castradores.

O que mantêm os elementos fieis e até transmitem de pais para filhos, é o saberem que as regras que seguem são impostas pela sua consciência. Não houve nunca necessidade de expulsar nenhum companheiro, pelo menos numa sessão plenária -que nunca houve tal. Aqui não há congressos nem missas negras- Se alguém falha por ignorância, descuido ou incapacidade, os elementos mais próximos dão-lhe ajuda. Mas caso se identificar uma ovelha ranhosa, esta de imediato é posta de lado, no clássico ostracismo, até que ele mesmo abandona o campo. Verem-se isolados é um castigo mais pesado do que seria ser flagelado ou aprisionado.

Fico com a impressão de que esta descrição te aborreceu e até não acreditaste de tanta bondade e que partilhem uma espécie de democracia muito especial, sem regras escritas nem estatutos. Mas é assim, e funciona.

Perdi-me nesta dialéctica bizarra. O que importa neste momento é aquilo que me disseram nas entre-linhas. Mais com os olhares e gestos do que com palavras. Notei que existe muito receio entre as pessoas de bem, sempre mais temerosas do que os velhacos. Mesmo assim consegui que confirmassem terem visto gente muito estranha, encorpados de corpo, mais do que os nossos comandos. E falando numa língua que nem aqueles que estiveram na imigração conseguiam entender.

A partir daí tentei que me orientassem para o local donde penso que se juntavam a visitantes portugueses; que devia ser num solar de grande porte. Só consegui uns acenos de cabeça, e mesmo assim pouco específicos. O mais importante foi dizerem que houve dias em que, os tais matulões que davam ar de militares bem treinados, cortavam algumas estradas ou caminhos do mato dizendo, mais com sinais do que pelas palavras, que estavam cortando árvores, abrindo aceiros com máquinas ou outra história qualquer, que sempre ficava em que havia perigo e não deixavam passar. Nada os demovia, e nem sequer mostravam interesse em ouvir as razões pessoais de quem teimava. Os gestos eram sempre bruscos e as caras fechadas. E houve quem afirmasse que outro, que jamais era nomeado, disse ter visto armas sob os casacos.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap 47



- Viseu já fica para trás. E agora não posso alongar a estadia na Guarda, se bem que é de suma importância pois que foi daqui que partiram as naus que geraram a empresa dos Maragato em Portugal. Além das ligações sentimentais tenho assuntos importantes que devo fechar, desaparecer quanto antes, em concreto as transferências de bens e pessoas, clandestinamente, pela fronteira tão próxima. Esta pasta ficará encerrada hoje a pedra e cal, sem desprezar os direitos legais e humanos que tenho para os meus colaboradores directos. 

Um par deles ainda os herdei do meu pai. Devem ter “entrado no quadro” ainda crianças, coisa normal naqueles tempos em que os rapazes eram empurrados a um comportamento e responsabilidades de adulto sem passarem pela fase de juventude escolar e de uma adolescência protegida, que hoje entendemos ser tão importante e fundamental para lhes proporcionar uma responsabilidade capaz quando adultos.

Sinto que, estes pensamentos silenciosos, enquanto a Isabel dormita ao meu lado, bem fixa com o cinto de segurança, não correspondem a uma realidade geral. Ainda hoje existem muitas bolsas de trabalho infantil, de tráfego de pessoas, de abusos ilegais e, quase sempre, alicerçado na ignorância e carência de cultura que, ignominiosamente, consentimos olhando para o lado. Em suma, como sempre aproveitam-se da pobreza e da ignorãncia.

Recordo o sucedido no escritório de um estabelecimento nosso. Quando o pessoal entrou ao serviço verificaram que alguêm tinha entrado por uma janela alta, de reduzidas dimensões. A polícia compareceu à chamada e, por observação além da colheita de impressões digitais, deduziram que por lá andaram duas crianças, sem cadastro porque aquelas marcas não constavam dos ficheiros. Após denúncia oficial, para satisfazer as exigências da companhia de seguros, e declarações presenciais, a queixa ficou no limbo durante uns três anos, com algumas convocatórias do tribunal, ameaçadoras de graves castigos caso não comparecesse pontualmente. Ali sempre me informavam que não se tinha chegado a nada, que tudo estava na mesma. Pode-se ir embora!

Um dia, inesperadamente, fui abordado na oficina por um sujeito, vestido civilmente e com um blusão de camurça, que me disse ser membro da P.J. E que vinha a propósito do roubo acontecido anos atrás. A minha reacção, impensada, foi soltar uma gargalhada e dizer que aquilo parecia tirado de uma série de televisão, porque do tribunal insistentemente me informavam que não se descobriam os autores. Senti que o polícia a paisana, como era de facto, não tinha ficado ofendido. Convidou-me a que o acompanhasse até a viatura oficial a seu serviço, porque ali poderia conhecer os gatunos, dois garotos bem novos. Respondi que não tinha o mínimo interesse em os conhecer, até porque sendo eu mau fisionomista, nunca recordaria as suas caras.

Vendo que eu não pensava em “vinganças” esclareceu que não tinham recuperado bens deste roubo, nem de muitos outros que a quadrilha confessou terem efectuado, pois era normal que quando eram apanhados com a boca na botija despejassem uma lista de feitos anteriores, que após julgamento e com uma pena global ficariam esquecidos. 

Neste caso particular, e é por isso que me veio à memória, o agente da PJ decidiu esclarecer que a quadrilha era constituída por uma numerosa família. Os mais pequenos entravam nas casas e tiravam o que entendiam ter valor. Os maiores ficavam de fora, vigiando; o pai, a certa distâcia, mantinha-se no carro que lhes proporcionaria a fuga. As filhas eram todas distribuídas na prostituição e roubo dos clientes, E o pai, sendo desempregado e portador de um cartão hospitalar como ser doente crónico, não podia ser imputado. Daí que, aquela visita era só um pró forma, um passeio. Todos os membros da quadrilha eram inocentes como bebés recém nascidos.

Falta acrescentar que, dois dias depois, chegou mais um postal intimando que passasse pelo tribunal, sem mencionar o motivo. Ao chegar e me identificar, o funcionário colocou um ofício à minha frente para que assinasse. Nele se dizia que por não se ter solucionado o caso do roubo, o processo ficava arquivado. Fiquei siderado. Barafustei em como podia ser isto. Que dois dias antes veio um agente da PJ com dois rapazes que eram os autores do roubo, e agora me diz que fica arquivado sem estar resolvido? Não posso assinar isso! O funcionário, sem mostrar que se importasse, respondeu que seria melhor eu assinar, porque em caso contrário seria impugnado judicialmente por não respeitar as ordens do tribunal. Assinei remoendo.
Este exemplo, vivido directamente pode servir de amostra de como, até nos assuntos de menos monta, o funcionamento da máquina judicial tem caminhos pouco compreensivos para o cidadão comum.

Então, Isabel, acordaste mesmo quando já estamos subindo a ladeira do centro da cidade. Mais uma vez terei que te deixar abandonada porque os que devo ver , e com quem tenho que despachar, penso que não nos seria favorável que estivesses presente. Por outro lado, como creio que já te disse, chegou uma chamada do cigano Ortega. Propõe um encontro a hora de jantar em Aveiro. Como sabes convêm aceitar sem desculpas. Por estas razões e outras, não me demorarei. Estaremos em contacto telefónico, seja ligando eu ou tu. Podes interromper sem problemas.

Levantei fundos em Viseu e deixo-te um envelope recheado, com cujo conteúdo poderás passar um par de horas. Gastas ou amealhas, como a formiga.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 46


- Já estamos entrando em Águeda. Foi um pequeno desvio, mas o encontro já tinha sido anunciado. Tal como te disse demorarei pouco, pois só tenho que falar com um industrial conhecido, que me mantêm ao corrente das novidades referentes a novos interessados em se instalarem aqui e nas empresas que, por diferentes mas repetidos motivos, se viram empurradas a fechar a porta e colocar todo o património -menos o que conseguiram sacar a tempo- nas mãos da justiça e daí dos leiloeiros, que, caso não saibas, não se destacam pela sua rectidão. Não me demoro.

- E agora, rumo a Mangualde. É perto. Aqui demorarei um pouco, mas chegaremos a Viseu a tempo de jantar e fazer Ó Ó, a falta de melhor? Deixo-te na zona comercial, e depois vou telefonarein para saber donde nos poderemos encontrar. Se tiveres tempo e disposição dava jeito que marcasses hotel, tal vez entre o Grão Vasco, no Palácio dos Mellos ou mesmo na Pousada Viseu, que fica no centro. Encontrarás as moradas e telefones na tua Tablet. Penso que podemos jantar no Bar Pub Viseu ou na Churrasqueira da Cidreira. Eu para jantar não aprecio churrasco, a carne é pesada para digerir; mas devem ter outros pratos.

Neste momento foste contratada para ser a minha secretária pessoal.

Chegamos, queres que saia para te abrir a porta ou serves-te directamente? É que se as coisas fiarem ao clássico terei que comprar um boné de pala. Até já, com ou sem beijinho.

- Este José por vezes não sei se está a falar a sério ou a brincar, sem chegar à tentativa de gozar, pois sabe que eu neste género de abordagens fico com o nariz torcido. E, sinceramente, não tenho vontade nenhuma de atritos por palermices. Já bastará no dia em que surjam problemas sérios. Dizem que são inevitáveis, garantidos. Mas também afirmam que sarilhos grandes, além de ser o nome de uma terra, só crescem quando os dois estão com vontade disso, e eu gosto de contar até dez. E se não chega vou aos vinte ou cinquenta, antes de virar costas e deixar o leite ao lume até entornar.

Tal como disse, as minhas compras eram poucas, mas mesmo assim já enchi duas bolsas e deixei uns euros que não estavam previstos. Vou “exigir” ser devidamente compensada, em numerário! E antes de entrar num local vou ligar ao “meu querido esposo” para saber se está já a caminho ou tenho que aguardar. São uns quinze minutos, se acreditar no que me disse. Tenho tempo de tomar uma meia de café com leite e fazer os telefonemas que me indicou.

Por vezes penso ou tento adivinhar, sem me esforçar porque é um tema penoso, acerca de quanto durará esta nossa união oficial. Na sociedade onde nos movemos proliferam as separações e mesmo divócios, sem contar com os desfechos mais violentos e fatais. Não me atrevo a por esta questão durante mais do que uns escassos segundos. A não ser assim sei que não conseguiria dormir tranquila, e muito menos fazer amor como Zé. Conheço um casal -que felizmente deixaram de estar na minha órbita-  em que a esposa, quando o marido estava numa das crises mentais que lhe afloravam com demasiada frequência, ela deitava-se na cama de casal, e dizia que dormia, com a tábua de cortar carne por cima do peito, em precaução de que ele tentasse espetar-lhe um facalhão. Acredidto no conceito de que cada caso é um caso; mas eu não imagino que aguentasse uma situação deste teor.

- Estás perto do centro? Marquei dormida na tal Pousada Viseu, que me dizem estar quase ao virar da esquina. Quanto a mim, arrumas o carro num local perto e seguro, caso nesta pousada não tenham garagem reservada. Não me lembrei de perguntar isso. Eu estarei no “ólio” ou no quarto para verter águas e retocar a fachada. A reserva está em nome do Dr. Maragato, e a menina do balcão já me informou que te conhece, como cliente mais ou menos habitual. Não lhe perguntei, porque não me interessava saber a resposta, se vinhas sempre só ou trazias companhia. Mesmo assim pedi o melhor quarto que estivesse disponível, e “com vista para o mar” ou seja, para a frente, para a cidade e não para as traseiras com estendais.

Este pequeno e insignificante pormenor já o colocarei directamente. E não te aconselho que pretendas enganar-me, pois a “piquena” das pestanas rimeladas, pálpebras multicoloridas e lábios desenhados, atreveu-se a mostrar um sorrisinho malandreco, de pretensa cumplicidade delatora, que fingi não ver. Até certo ponto sou adepta da teoria de que depois de lavado fica como novo. Não demores, que tenho apetite para comer a sério.

Depois de jantar gostaria de dar um pequeno passeio pelo centro, mesmo que naquela hora o mais normal seja que esteja quase deserto, a não ser alguns grupos de jovens estudantes e algum noctívago desirmanado. Mesmo assim vale a pena ver as fachadas das casas que permanecem dos tempos passados, e que não se podem apreciar, porque não existem, nos bairros modernos. São estas ruas e estas casas que, como sabes, dão o carácter às terras, e não as avenidas e caixotes com muitos andares.

- És uma secretária exemplar. Só faltaria que “dormisses” com o chefe. Ah! Desculpa, isso já foi ultrapassado com a cumplicidade do notário. Mas tem outro sabor. Deixou de ser uma transgressão e passou a ser um direito partilhado, de um amor fingido, mais carnal do que o dum cardeal, estamos no amor carinhoso do casal. É muito melhor. Sem comparação. Mas isso não impede de que o bicho-homem, sempre vítima dos instintos, brancos, roses ou mulatas, para se manter fisicamente fiel e digno necessita de lutar e olhar pouco, de preferência para o lado.

- Louco e iludido. É o que tu és. Pensas que as mulheres não pecamos? Que não temos olhos sagazes e que as nossas vaginas não se humectam? Ou não paras a pensar que os ditos cornos não crescem pela graça de Deus, tal como lhe aconteceu a José? Se dizeis que as mulheres somos vaidosas é porque esquecem como são os homens que querem estar activos. Comportam-se como pavões, mas sem a graça dos galos, pois estes além da fachada, das vestes, tem uma agressividade e potencia sexual que só os reis das manadas podem igualar. O melhor é deixarmos este tema, pois ainda nos pode azedar sem necessidade.