quarta-feira, 2 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE - Cap. 46


- Já estamos entrando em Águeda. Foi um pequeno desvio, mas o encontro já tinha sido anunciado. Tal como te disse demorarei pouco, pois só tenho que falar com um industrial conhecido, que me mantêm ao corrente das novidades referentes a novos interessados em se instalarem aqui e nas empresas que, por diferentes mas repetidos motivos, se viram empurradas a fechar a porta e colocar todo o património -menos o que conseguiram sacar a tempo- nas mãos da justiça e daí dos leiloeiros, que, caso não saibas, não se destacam pela sua rectidão. Não me demoro.

- E agora, rumo a Mangualde. É perto. Aqui demorarei um pouco, mas chegaremos a Viseu a tempo de jantar e fazer Ó Ó, a falta de melhor? Deixo-te na zona comercial, e depois vou telefonarein para saber donde nos poderemos encontrar. Se tiveres tempo e disposição dava jeito que marcasses hotel, tal vez entre o Grão Vasco, no Palácio dos Mellos ou mesmo na Pousada Viseu, que fica no centro. Encontrarás as moradas e telefones na tua Tablet. Penso que podemos jantar no Bar Pub Viseu ou na Churrasqueira da Cidreira. Eu para jantar não aprecio churrasco, a carne é pesada para digerir; mas devem ter outros pratos.

Neste momento foste contratada para ser a minha secretária pessoal.

Chegamos, queres que saia para te abrir a porta ou serves-te directamente? É que se as coisas fiarem ao clássico terei que comprar um boné de pala. Até já, com ou sem beijinho.

- Este José por vezes não sei se está a falar a sério ou a brincar, sem chegar à tentativa de gozar, pois sabe que eu neste género de abordagens fico com o nariz torcido. E, sinceramente, não tenho vontade nenhuma de atritos por palermices. Já bastará no dia em que surjam problemas sérios. Dizem que são inevitáveis, garantidos. Mas também afirmam que sarilhos grandes, além de ser o nome de uma terra, só crescem quando os dois estão com vontade disso, e eu gosto de contar até dez. E se não chega vou aos vinte ou cinquenta, antes de virar costas e deixar o leite ao lume até entornar.

Tal como disse, as minhas compras eram poucas, mas mesmo assim já enchi duas bolsas e deixei uns euros que não estavam previstos. Vou “exigir” ser devidamente compensada, em numerário! E antes de entrar num local vou ligar ao “meu querido esposo” para saber se está já a caminho ou tenho que aguardar. São uns quinze minutos, se acreditar no que me disse. Tenho tempo de tomar uma meia de café com leite e fazer os telefonemas que me indicou.

Por vezes penso ou tento adivinhar, sem me esforçar porque é um tema penoso, acerca de quanto durará esta nossa união oficial. Na sociedade onde nos movemos proliferam as separações e mesmo divócios, sem contar com os desfechos mais violentos e fatais. Não me atrevo a por esta questão durante mais do que uns escassos segundos. A não ser assim sei que não conseguiria dormir tranquila, e muito menos fazer amor como Zé. Conheço um casal -que felizmente deixaram de estar na minha órbita-  em que a esposa, quando o marido estava numa das crises mentais que lhe afloravam com demasiada frequência, ela deitava-se na cama de casal, e dizia que dormia, com a tábua de cortar carne por cima do peito, em precaução de que ele tentasse espetar-lhe um facalhão. Acredidto no conceito de que cada caso é um caso; mas eu não imagino que aguentasse uma situação deste teor.

- Estás perto do centro? Marquei dormida na tal Pousada Viseu, que me dizem estar quase ao virar da esquina. Quanto a mim, arrumas o carro num local perto e seguro, caso nesta pousada não tenham garagem reservada. Não me lembrei de perguntar isso. Eu estarei no “ólio” ou no quarto para verter águas e retocar a fachada. A reserva está em nome do Dr. Maragato, e a menina do balcão já me informou que te conhece, como cliente mais ou menos habitual. Não lhe perguntei, porque não me interessava saber a resposta, se vinhas sempre só ou trazias companhia. Mesmo assim pedi o melhor quarto que estivesse disponível, e “com vista para o mar” ou seja, para a frente, para a cidade e não para as traseiras com estendais.

Este pequeno e insignificante pormenor já o colocarei directamente. E não te aconselho que pretendas enganar-me, pois a “piquena” das pestanas rimeladas, pálpebras multicoloridas e lábios desenhados, atreveu-se a mostrar um sorrisinho malandreco, de pretensa cumplicidade delatora, que fingi não ver. Até certo ponto sou adepta da teoria de que depois de lavado fica como novo. Não demores, que tenho apetite para comer a sério.

Depois de jantar gostaria de dar um pequeno passeio pelo centro, mesmo que naquela hora o mais normal seja que esteja quase deserto, a não ser alguns grupos de jovens estudantes e algum noctívago desirmanado. Mesmo assim vale a pena ver as fachadas das casas que permanecem dos tempos passados, e que não se podem apreciar, porque não existem, nos bairros modernos. São estas ruas e estas casas que, como sabes, dão o carácter às terras, e não as avenidas e caixotes com muitos andares.

- És uma secretária exemplar. Só faltaria que “dormisses” com o chefe. Ah! Desculpa, isso já foi ultrapassado com a cumplicidade do notário. Mas tem outro sabor. Deixou de ser uma transgressão e passou a ser um direito partilhado, de um amor fingido, mais carnal do que o dum cardeal, estamos no amor carinhoso do casal. É muito melhor. Sem comparação. Mas isso não impede de que o bicho-homem, sempre vítima dos instintos, brancos, roses ou mulatas, para se manter fisicamente fiel e digno necessita de lutar e olhar pouco, de preferência para o lado.

- Louco e iludido. É o que tu és. Pensas que as mulheres não pecamos? Que não temos olhos sagazes e que as nossas vaginas não se humectam? Ou não paras a pensar que os ditos cornos não crescem pela graça de Deus, tal como lhe aconteceu a José? Se dizeis que as mulheres somos vaidosas é porque esquecem como são os homens que querem estar activos. Comportam-se como pavões, mas sem a graça dos galos, pois estes além da fachada, das vestes, tem uma agressividade e potencia sexual que só os reis das manadas podem igualar. O melhor é deixarmos este tema, pois ainda nos pode azedar sem necessidade.


terça-feira, 1 de maio de 2018

CRÓNICAS DO VALE – CAP. 45



O que farei em AVEIRO? E em ÁGUEDA? Terrenos industriais, caçar ideias de aplicação de capital; prestar ajuda no encaminhar os menos experientes e pouco expeditos na abordagem de ministérios e entidades oficiais, sempre dispostas a lixar se não engodarmos certos bolsos. Ou seja servir de intermediário batido nos corredores e gabinetes. Para possibilitar o meu trabalho conto, desde sempre, com a noção bem fundamentada, de que quem vai à sorte e sem padrinhos será sempre torpedeado.

De facto esta deslocação “de trabalho”, sem estar acompanhado da Luísa e ainda com uma (practicamente premeditada) facada no matrimónio, não está a decorrer coma mente concentrada no trabalho como era meu costume. Não estou satisfeito comigo. E tendo tempo morto para meditar no rumo que devo tomar na minha vida levou-me a decidir que, sem dúvida nem hesitação, é mais do que altura para entrar uma orientação nova. E mais, estas coisas tem que se fazer drasticamente, ao estilo de a Rei morto, Rei posto.

Aliás, de uma forma subtil e paulatina já tinha iniciado, há anos, esta mudança. Como é evidente pelo facto de ter mantido os meus filhos alheios dos “negócios” menos transparentes. Os acontecimentos recentes na mata da mansão na Vila do Pito, mais o aviso insinuado pelo inspector Dr. Sílvio Cardoso, que mostrou ser mais amigo nosso do que eu imaginava, torna urgente a decisão de abandonar, por completo, certos negócios que já herdei dos meus ancestrais.

Sendo assim reduzirei a minha actividade à gestão do meu pecúlio, tanto bancário como imobiliário, abandonando o movimento nas fronteiras. Manter a consultoria e ser intermediário em terrenos rurais, urbanos e industriais, assim como na transacção de naves industrias após a falência de empresas. Sempre seguindo as “boas regras da arte”, apesar de estar ciente de que uma boa parte dos grandes negócios é feita SEMPRE por baixo da mesa. Mas quero ter uma vida tranquila, sem sobressaltos. Existe o risco de estar na mira nesta altura. Com mais atenção da que já, dos tempos do avô Francisco/Paco e do meu pai. O Dr. Cardoso não podia ser mais claro, e se surgir uma oportunidade sigilosa tentarei dizer que já estou num perfil mais baixo, menos escorregadio.

Tomada esta decisão a minha passagem tanto por Aveiro como por Águeda, Mangualde, Guarda e Tondela terá como tema principal, e quase único, noticiar da minha decisão, imediata, de abandonar certas ramas do negócio tradicional dos Maragato. Mas pontuando que vou dar uma atenção redobrada ao sector imobiliário, pelo que manterei o interesse em continuar com a sua colaboração, assim o desejarem. Dentro de outros moldes, já se entende.

No regresso passarei por Santa Comba no intuito de sondar alguns conhecidos quanto a possibilidade de terem conhecimento, nem que fosse por boatos de café, do local onde se realizaram festas de arromba, ou mais concretamente bacanais de índole sexual e jogo clandestino, pois eu tenho um palpite, quase certeza, de que estes mortos foram transferidos desde o lado norte da serra do Buçaco até a zona do Vale do Pito. E curiosamente, sem eu entender as razões, se as houve, em terrenos de minha propriedade.

Tal como estava previsto o encontro profissional em Aveiro foi rápido. Mas constituiu uma surpresa para o meu elemento local, que deixava de vez os transportes marítimos e terrestres de artigo “pesados”., embora o próximo navio com material para nós seria o último. Ou seja, que neste campo pedi a reforma a mim mesmo. O que não impede de que, sem dúvida, ainda nos veremos e faremos contas mais umas vezes, e que conto com ele noutras actividades onde sei que me poderá dar uma ajuda.

A Luísa já está sentada numa mesa junto à montra, como boa e respeitável senhora casada, que é. Já estavas à espera há muito? Vim o mais depressa que pude e até te posso anunciar que dei uma volta aos meus assuntos, de uma forma que te vai agradar. E de tal modo inesperada que altera todo o esquema vigente até agora. Sendo assim o que queria propor, antes de que me esqueça ao te olhar com tanta saudade, é que gostaria que me acompanhasses nos quilómetros que faltam. O que decides, assim de repente?
-
Já não é sem tempo! Pois claro que desde que temos um viver juntos, fosse devido ao casamento civil ou por me apresentares como esposa, não me satisfaz saber que andas por aí sozinho, ou mal acompanhado, pois que não vou pensar que a tua vida antes desta união formal não era, por assim dizer, tão dissoluta como se pode imaginar por parte de um homem vivido e sem compromissos conjugais. A forma como entraste na minha vida mostrou bem que dominavas as tácticas todas.

Por mim está bem o que propões. Ficarei no carro enquanto conversas com os teus “clientes”, e darei uma olhada nesta revista de mexericos que comprei por tua indicação, e que na pastelaria nem tive tempo de folhear as primeiras páginas. Só tenho um pequeno problema. Não vim preparada com bagagem para passar nem sequer uma noite fora. Por isso terei que fazer umas pequenas compras. Nada de volume, escova dental, pasta, laca, umas cuecas e pouco mais. Caberá tudo num saco de loja. Tanto pode ser aqui em Aveiro como mais adiante. Onde te calhar melhor deixar-me uma meia hora disponível.

´Óptimo. Mas e a beijoca de cumprimento caseiro? Já te deixaste disso? Toma lá, na tua gostosa boca, e não nas faces, para dissipar as más interpretações de que este fosse um encontro fingidamente casual, mas dos avançados.

Como sempre mostras ser uma excelente companheira. Eu já trazia programado fazer um desvio por Águeda, mais na zona industrial do que no centro, mas depois passaremos por Mangualde e na zona de comércio de rua, a não ser que prefiras perguntar por um centro comercial de jeito, poderás te abastecer do que precisas. Deixo-te dinheiro?

segunda-feira, 30 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE - cap 44




Carlos Costa é o meu representante e fac-totum na Figueira da Foz. Nele depositei a minha confiança. Mas como o prevenir não ocupa lugar é seguido de perto por um segundão, que tem ordens severas de se manter pouco ou nada visível. O Costa estava a postos, num pequeno escritório nas docas. Fez um relato sucinto das suas actividades e da anotação das verbas a que eu estava credor. Tudo credível em função das outras notícias que recebi por vias diversas. A sua actuação nas últimas três semanas foi aparentemente livre, embora tenha sempre uma agenda concreta para seguir e mantivemos contactosn periódicos via telemóvel (sempre o mais rápidos que nos é factível) Confirmou que as mercadorias  ali desembarcadas não tiveram problemas com a alfândega; que vinham com documentos tão correctos como era exigido a qualquer consignatário da praça. E que, após pouco tempo de repouso no armazém seguiram o caminho pré determinado, desta vez via terrestre. A maior parte seguiu do cais para o destino sem passar pelo armazém. Tudo encaixava com as outras informações.

Ainda na Figueira visitei a Filomena, que foi uma das minhas almofadas antes de me enganchar com a Luísa. Continua a ser uma bela fêmea, vistosa e com as carnes pertinentes. A Filomena julgou que eu vinha com a ideia de ficar um par de dias na sua companhia, mas tive que a desiludir porque a agenda para hoje e amanhã está muito recheada. De qualquer forma tenho a certeza de que está servida por outros amigos e beneméritos. Seria um desperdício ignóbil a deixar esmorecer sem o devido uso. Mesmo assim não escapei a uma queca ao chegar (nem eu queria escapar..) e mais uma rapidinha antes de partir. O que sossega é que esta noite não dormirei no Vale...

Nestas coisas do amor físico e do amor familiar, seja com o/a conjugue, filhos ou outros familiares directos a sociedade tem diversos padrões e conceitos a seguir, nomeadamente no que respeita a aceitar, sem alarido e compreensão, as tais facadas no matrimónio. Os maridos, como caso mais corrente, pretendem ter um livre transito, por assim dizer, para copular outras fêmeas além da esposa. Nisso somos equiparáveis, mesmo que com roupagem, aos tais animais ditos de irracionais. Custa a dizer e especialmente impossível de fazer aceitar pelas mulheres, porque, de facto, o homem quer ter o direito de aplicar a lei do funil, a tal que confere a parte larga, condescendente a alto grau, a ele e a fininha, estreita e desejada estar fechada a cadeado para a sua companheira.

Quando nos mostram reportagens do comportamento de grupos de animais, nomeadamente mamíferos, não nos surpreende o facto da existência de um macho dominante, cujo domínio reside, practicamente, na exclusividade no aparelhamento com as fêmeas do seu grupo. Uma visão que, apesar das normas sociais vigentes, é o sonho, ou pesadelo, de qualquer homem normal, que não esteja totalmente condicionado (não precisa de ser semi-castrado) por efeito das regras sociais, tantas vezes incumpridas. O instinto, quando consegue impor-se, pode levar a conseguir um serralho, mais ou menos povoado. Paralelamente a como funcionam os animais, o macho não admite tais liberdades às fêmeas a se cargo. Nem sequer e uma delas. Bem nem se põe em discussão que a fidelidade (não a que se escreve com maiuscula, que está ligada ao Grupo Segurador) da esposa. Não se aceita, em princípio, mas não se concebe ser taxativo. Recordemos a quantidade imensa de anedotas e histórias verídicas onde a acção principal reflete-se nos divórcios, separações, mortes e, resumindo, quase sempre ligado à imperdoável ofensa dos cornos.

Antes de chegar a Aveiro, e porque já eram horas de almoçar, telefonei a um amigo de Vagos para saber se estava disposto a me dar companhia numas enguias. Não que seja pessoa sem importância, pois que mesmo residente fora de Aveiro ele sabe muito mais do que as pessoas podem pensar. Entre nós fica a ser conhecido com o seu nome Chico Faísca, Chico por Francisco e Faísca porque durante muitos anos foi electricista embarcado no bacalhau e depois continuou com fios e fusíveis em terra, mas só em biscates porque o corpo não o ajuda para grandes trabalhos. Este homem sabe tanto ou mais do que os elementos da Guarda Fiscal de Aveiro, e, neste sentido é de suma importância para referir os dias de folga de uns e outros, dos que preferem olhar para o lado e dos que são uns cacaruços ansiosos por mostrar serviço, mas que, bem conversados, são mais úteis do que alguns gabarolas de quem não podemos por a mão no lume.

E o Chico Faísca sabe de tascas com boas enguias como ninguém. Mas não só, tem que ter um bom espumoso da Bairrada e mais umas febras grelhadas à maneira. Sempre foi um bom parceiro para petiscos. Bem haja.

Aveiro!, quem te viu e quem te vê! Recordo como era nos anos '50, em especial no comércio, nos cafés, restaurantes, cervejarias e creperias. Há um sem fim de novas actividades que ocuparam os antigos locatários, tal como nas restantes cidades de Portugal. Urbanizações e novas instalações industriais, mais o inusitado movimento de pessoas pelas ruas, lhe auferem um ar de cosmopolitismo que os de meia idade apreciamos. Os novos não podem fazer comparações, e muitos nem sequer são originários desta zona pois que ao instalarem um polo universitário nesta cidade alterou-se, profundamente o tecido humano, para melhor.

Mas eu estou aqui por trabalho, e tenho que demorar mais tempo do que na Figueira, pois aqui tenho mais assuntos importantes a controlar. Antes de me meter nas tarefas profissionais, pois que cada um tem a profissão que lhe calhou no sorteio, tenho que ligar para a Luísa.

Luísa? Olá. estou chegando a Aveiro, e tu onde estás? Também em Aveiro! Devo ter um sinalizador no carro! Eu ainda não tratei das minhas coisas  aqui, se bem que das outras vezes em que passamos nesta cidade, que teimam em chamar da Veneza portuguesa, pelo menos aqueles patriotas que não conhecem aquela que foi uma das cidades mais importantes do Mediterrâneo. Preciso de uma hora por aí. E tu, como estás de tempo e do teu programa?

-José. Já estava ralada contigo, mas não me atreví a telefonar para não atrapalhar os teus negócios. Eu não contava em nos encontrar e practicamente já tratei das minhas coisas de Aveiro. Mas gostaria de estar um bocado  na tua companhia, seja para um lanche ou um café, pois recordo que me falaste em que querias encontrar-te também, com não sei quem, em Águeda, a caminho de Viseu -como na cantilena famosa- que deve ser a bse de trabalho e noite antes de amanhã ires até à Guarda. Ve se podes marcar uma meia hora para mim nesta cafetaria-pastelaria nova que abriram perto do Salão.

- Com certeza querida esposa (gostaste do salamaneque?) Vou fazer o possível para despachar em meia hora. Vai lá ter, compra uma revistazeca destas para burras e finges que les, para não ficares com o ar de oferecida, pois sabes bem que os homens não tardam a mandar mensagens de olhos ou tentar abrir uma conversa com propósitos mais do que evidentes. Até já.


domingo, 29 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 43


- Luísa, esposa querida (a segunda com este diploma), não sei se captas a paz e bem-estar que sinto neste momento, em que podemos jantar a sós, sem companhia nem mirones. As minhas recordações recuam uns vinte e tal anos, quando à volta da mesa, sempre irrequietos e só sentados sossegados quando pressionados pelos pais, mas sempre mexendo-se como se tivessem lombrigas. Eu gostava de lhes dar a provar do meu prato, onde estavam condimentos que ainda não tinham saboreado. Coisa que a falecida Constança detestava e ralhava mesmo á frente das crianças. Não entendia o meu proceder, e como sentia a obrigação de lhes abrir o paladar para não se tornarem obcecados por um alimento em exclusividade. Recordo de um tio meu, dos que ainda moravam em Espanha, que todo a sua vida estava centrada no bife com batatas fritas e ovo a cavalo. Não comia outra coisa! Que desperdiço e desprezo perante a culinária!

- Meu marido, já usado e certamente que mais do que reusado. Mas deixemos estes pormenores, que devem ficar enterrados, para bem da humanidade!! Esta esteve boa. Não te vou descobrir nem ensinar nada, mas sabes bem que os costumes tem-se modificado muito, e que, até certo ponto, quase que retrocedemos. Quantos jovens haverá por aí que entre uma hambúrguer de fábrica e uma dose de cozido, ou feijoada com chispe, ou caldeirada de peixe, ou chanfana, não rejeitem toda a cozinha de tacho e tempo, de temperos honestos? Alguns, bem ensinados e que não se deixem arrastar pelas modas, mas serão poucos certamente.

- Enquanto falavas, tão acertadamente, recordei um hábito, que já foi banido por ser considerado como pernicioso, mas que eu, apesar dos ralhetes da mãe, por vezes dava como petisco aos meus filhos: uma fatia de pão caseiro, com um fio de bom azeite e polvilhado de açúcar, ou, em opção mais do povo, regado com um esguicho de tinto e igualmente polvilhado de açúcar. Deves ter a lembrança, se tiveste esta sorte, de que ambos petiscos, por assim chamar, eram merecedores de apreço.

- Pois sim- Mas daí a tornar isso como um mata bicho habitual, diário, como era costume entre o povo chão, vai uma boa distância. És ciente de que a má alimentação das crianças, começando com as tais “sopas de cavalo cansado”, era um dos factores que condicionavam a baixa estatura dos adultos. Que só com a melhoria da alimentação é que verificou, pelos registos dos quartéis quando mediam os mancebos que não conseguiam fugir da chamada, que a altura foi subindo, lenta mas progressivamente.

- Todos os exageros são prejudiciais, mas eu referi este exemplo, mal escolhido pelo que vi, mas a minha intenção de abrir aqueles paladares era mais centrada nos pratos que vinham a mesa do que em más tradições, que devemos entender e não estigmatizar só por estarem fora do que hoje é aceite.

Muitas vezes não paramos a pensar como e porque os hábitos tem mudado, e o nosso tempo de vida não nos fornece a experiência do tempo dos nossos pais e avós. Será que as gerações que nos seguem, a dos nossos filhos e daqueles netos já presentes e outros que esperam a sua vez de entrar, são conscientes de que os pobres, tanto no campo como nas zonas degradadas das urbes em crescimento, não dispunham de dinheiro para comprar farinhas e leites em pó, papas e até pomadas quando precisas, para assegurar o bom crescimento dos seus descendentes? Hoje nos incitam a que se deite fora um pacote, meio esquecido, de um alimento onde está impressa uma data de caducidade de semanas, poucas, atrás. E devíamos saber que estas caducidades não são taxativas, que aquilo se transformou, repentinamente, num veneno.

É que a educação ou ilustração, neste território onde vivemos, esteve estagnada por séculos. Que só no XIX é que a sociedade civil reagiu, com as iniciativas não governamentais, como foram as escolas financiadas pela maçonaria, tendo o Grandella como cabeça visível. Nas cidades surgiram escolas do estilo da Voz do Operário, e se imprimiram livros de ensino e pequenos opúsculos com divulgação de temas profissionais, técnicos e até de teor académico, em linguagem accessível para aqueles que se estavam iniciando na cultura. Iniciativas que os conservadores, sempre ciosos do modo como dominavam o povo, não gostavam. E estas “lanças em África” já vinham atrasadas em relação ao que na Europa central já estava consolidado.

- José, mais uma vez os nossos diálogos entram no campo do social, por não dizer da política, e nem eu nem tu somos políticos, que eu saiba. Só no estar por casa, como o robe sobre a camisa de dormir ou do pijama. E, por ser verdade, também em relação ao nosso comportamento e relações com o mundo que nos rodeia. Vamos continuar esta palestra noutra altura? É interessante e deve-se bater neste ferro, mesmo quando está frio. Mas hoje temos outros afazeres.

- Certo. Sabes que não espero que os rapazes, doutores ou simples agentes da autoridade, me sirvam as novidades em bandeja. Tenho que procurar saber quem pretende fazer-me a cama e tentar devolver a bola, com mais força. Posto isto vou sair para “o campo de batalha”.

Uma das tarefas que considero oportunas, e indispensáveis, é a de procurar localizar algum do pessoal de apoio, mais concretamente de cozinha e copa, que esteve nas últimas farras que se deram nesta zona, e que suspeitamos sejam destes eventos que se despacharam os dois mortos. Se conseguir falar com algum destes membros do pessoal de hotelaria, pois hoje é assim que gostam de ser referidos, o que me interessa saber é se as “meninas” que ali levaram para distrair os convidados eram portuguesas ou vieram de longe.

Também tenho que sondar os meus conhecimentos e alguns colaboradores, que não deves conhecer jamais, para concretizar o local onde se tem dado as tais bacanais com droga e mulheres, e também com serviços especiais para os que apreciam rabos de homem. Da primeira investida não dei muita pressão nesta identificação, que se tornou importante, pois seguindo o rasto da propriedade será possível lançar o anzol sem ser à sorte no mar alto. Hoje até os pescadores utilizam as técnicas de sonar para localizar os cardumes.

Tenho-me perguntado porque diabo, estes sacanas, escolheram as minhas terras? Será porque o tal mandarete que veio sondar a possibilidade de comprarem o casarão, quando contou da sua tentativa e da minha resposta ambígua, possa ter recebido ordens de “queimar” o local? Há gente muito retorcida neste mundo. Estou convencido de que seja o mesmo intermediário ou outro qualquer não tardará a bater à nossa porta, mostrando-se “menos interessado” na adquisição por causa dos acontecimentos, mas, mesmo assim, com vontade de nos ajudar a nos ver livres de uma propriedade que ficou assombrada, ou mal afamada.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap 42


Finalmente consegui meter-me a caminho para Coimbra. Mas a agenda que trazia em mente já foi alterada com a visita do inspector da P.J. Não me posso fiar demasiado nas doces palavras deste homem, pois antes de tudo é um polícia e desta feita deve estar debaixo de olho dos seus superiores. Esta bronca que armaram, uns desconhecidos que é imperioso identificar, vai ser vista com cuidado e procurarão um bode expiatório, escolhido num sorteio onde, pelo que pressinto, eu tenho alguns números.

Tenho que me por em campo e procurar saber mais do que simples deduções. E deduzo que por aí é capaz de ter entrado em jogo, sujo como é evidente, alguma das máfias dos países do leste europeu, que negoceiam e traficam, também em Portugal, como cão por vinha vindimada. Pelas notícias que transpiram até parece que as nossas autoridades não os apertam tanto quanto merecem. Consta que são diversos grupos, todos com origem entre a Ucrânia e a Hungria, passando pelos territórios conturbados dos Balcãs. Em primeiro passo necessita-se seleccionar quais são os grupos de traficantes de droga e mulheres que actuam na zona centro, concretamente em Coimbra e arredores.

A pessoa que me pode dar alguma dica, se estiver por aí virado, é o chefe dos de “etnia cigana” desta área. E digo isso porque sei o zelo com que sempre olham e defendem as suas áreas de actuação. E estes do Leste vieram alterar o equilíbrio. Daí que imagino que os ciganos da casa não devem ter muita amizade com os de fora, até porque não só lhes invadem o território mas porque alteram, para pior, o já instável equilíbrio com que sempre convivem com a autoridade, especialmente com a dupla GNR-PJ, sem contar com o grupo de Estrangeiros e Fronteira. Devo ter o telefone de Rafael ORTEGA, que creio é ou era o chefe dos calés desta zona. Este espaço livre é bom para parar e telefonar.

Senhor Ortega? Sim? Bom dia sou o José Maragato, passou bem? Gostaria de poder trocar umas palavras com o senhor. Pode ser? E donde está nesta altura? Em Aveiro, perto da feira, óptimo! Podemos ficar num café sossegado? Na Gaivota? Sei onde fica. Em dez minutos estarei consigo. Até já, e obrigado pela sua atenção e disponibilidade. Vou a caminho.

Temos que saber lidar com todo tipo de pessoas, e estes de etnia cigana são muito importantes. Circulam por aí sem travões e sabem imensas coisas que o cidadão comum ignora. A polícia, que desde sempre os tem tentado cercar, sabe que são imprescindíveis para troca de informações. E por isso é que conseguem ultrapassar as “rusgas”, mais a fingir e para inglês ver, tanto da PSP, da Municipal e até da ASAE. Só quando na droga ultrapassam os limites tacitamente aceites, em casos de cenas com tiros e até mortes, é que as acções de repressão são mais fortes.

Bom dia, mais uma vez, Amigo e Senhor Ortega. Vejo que está com um óptimo aspecto e, à vista desarmada, transpira saúde. Parabéns. Esta menina que o acompanha é sua filha ou neta?

É filha mesmo, e está no secundário aqui em Aveiro, com boas notas! Quando pode faz-me de secretária, pois já me acontece falhar a memória quanto a nomes e datas, e ela é uma agenda sempre actualizada. E então Amigo Maragato, o que o traz por cá?

-Desta vez não sou intermediário de ninguém, nem lhe quero apresentar uma personagem com interesses comuns. Sou eu que gostava de comentar um assunto preocupante e tentar que me orientasse. O tema é um pouco, bastante, muito até, rebuscado e atingiu-me sem saber porque, pois não tive arte nem parte activa nele.

É possível que já lhe tenha chegado a notícia do morto que despejaram num terreno da minha propriedade, que aliás era do pai da minha falecida mulher dona Constança, que Deus a tenha ao seu lado.

- Um morto ou são já dois?

- Isso é o que mais me traz ralado. Não sei porque cargas de água escolheram aquele local para se desembaraçar dos cadáveres. Cheira-me a coisas esquisitas. E mais porque, pelas minhas fontes, tenho quase a certeza de que o crime primeiro, e possivelmente o segundo está ligado ao primeiro, teve origem numa festança que uns desconhecidos (por enquanto não sei quem foram, mas desconfio..) deram numa grande casa isolada, na zona do Buçaco.

Espiolhando aqui e ali, e magicando por minha conta e risco, deduzo que por aí é capaz de ter entrado em jogo, sujo como é evidente, alguma das máfias dos países do Leste europeu, que negoceiam e traficam, também em Portugal, como cão por vinha vindimada. Pelas notícias que transpiram até parece que as nossas autoridades não os apertam tanto o cerco quanto merecem. Consta que são diversos grupos, todos com origem entre a Ucrânia e a Hungria, passando pelos territórios conturbados dos Balcãs. Para já, eu desconheço quase tudo sobre esta gente. Não sei quais são os que traficam drogas e mulheres que actuam na zona centro, concretamente em Coimbra e arredores. Mas naquela festa que refiro houve das duas coisas com fartura, e também travestis e paneleiros de produção nacional.

Sem tentar ser indiscreto, mas tampouco um anjo, deduzo que estes malandros que vieram de fora se estão intrometendo nas vossas áreas de comércio, e que apesar de alguns se identificarem como romis, se calhar não são aceites como parceiros e menos como competidores pelos da sua etnia, já estabelecidos na península. Mas que não estão isolados pelas fronteiras, pois que, pelo que de vez em quando aparece em reportagens de festas, existe, desde sempre, uma trasfega de pessoas entre as famílias de Espanha e Portugal.

Avançando: Chego a pensar que da vossa parte devem ter algumas incompatibilidades com estes invasores, que ainda por cima fazem alarde de contrabandear armas e outros artigos, como são as raparigas para eles, em grande escala. Estão levantando lodo que devia ser mantido parado. Se eu estiver certo, pensa o Senhor Ortega que podemos dar uma mão uns aos outros e ver se entre “os da casa” e as polícias, que nem sempre agem a tempo e horas, se pode conseguir dar-lhes na cabeça? Da minha parte estou pessoalmente interessado em me ver livre destas graças, sem graça nenhuma, e também estaria disposto a servir de elo de ligação entre as suas famílias, através do Ortega, e a Judiciária, que, como sabe é melhor os termos como “amigos” do que como cães de fila. O amigo Maragato está carregado de razão, tanto no que o molesta como no que aos meus companheiros e familiares afecta. Ficaria muito contente se esta malta do Leste fosse chatear para outro lado.

- Conte comigo. Mas neste momento só lhe posso dar isso: a certeza de que o ajudarei e entre os dois lavaremos as mãos. Deixe-me o seu contacto reservado e não tardarei em o procurar. É tudo por hoje? É que já viu que vieram procurar-me, com certeza que para dar sentença para alguma desavença.

CRÓNICAS DO VALE - cap XLIII

Um jantar a dois em casa. Que agradável é poder usufruiir deste sosego familiar. Faz-me recordar tempos de duas décadas atrás. Mas faltam as crianças a que dar a provar paladares novos, ensinar a comer nésperas e otras frutas de caroço. proporcionar que descubram como era bom mordiscar, com calma, uma fatia de pao caseiro, com umas pingas de tinto, sem ensopar ou mesmo ensopado, e polvilhado com açúcar. Esta iguaria, que o era, hoje está totalmente banida dos costumes, por considerar que induz as crianças a se tornarem alcoólicos, sem ponderar que não passaráo cinco lustros sem que lhes ponham na mão os tais shotts, que naqueles copinhos carregam mais destilado do que um litro de vinho. Temos muitas mentiras enquistadas, mesmo que se baseiem em exageros sem sentido.

- Mas tomar a parte pelo todo,ou ao contrário, pode levar a resulatdos nefastos. Digo isso porque não podemos esquecer o costume, em certas zonas e camadas da população, de considerar as tais sopas de cavalo cansado, que eram,nem mais nem menos, ou mais mais do que menos, uma tigela de pão troceado ensopado com tinto carrascão, que não era sequer de colheita de viticultor como agoara de tornou "bem". Não consideras isto como um costume prejudicial?

-Luísa, sabes perfeitamente que o nível de pobreza existenet no campo ainda era  muito mais elevado na nossa meninice do que hoje. Ou pensas que aqueles desgraçados, que vestiam farrapos herdados ou, quando muito, roupas usadas até o fio pelo anterior possuidor, tinham dinheiro para comprar farinha láctea? Ao mesmo tempo o nível de cultura estava abaixo de cão. Muitas famílias não tinham um elemento que soubesse ler e entender o que estava num papel. A decisão e iniciativas sociais, nomeadamente por parte dos governos ou de privados, que se tinham tido um início com Grandella e alguns outros maçõns de cariz filantrópico e humanista, não foram suficientes para conseguir uma evolução notável da população rural. Já com o operariado fabril, entre sindicalistas, anarquistas e revolucionários de outras capelas, se esforçaram e conseguiram iniciar a culturização dos mais pobres. Sempre com voluntariado e resistindo às embestidas, quantas vezes violentas e sangrentas, dos conservadores. 

- José. Sem dar por isso já nos metemos na política caseira, que só nos pode causar problemas. Sabemos que este jogo, quando se pratica honestamente e por "amor à arte" não é rentável, e aceito que nem se pretendia que dese frutos pessoais; antes deseja-se que os resultados positivos, se aparecerem, se reflitam em desconhecidos. Mas esta atitude é própria dos lunáticos, dos utópicos, dos que teimam em não avaliar as tácticas e modos de agir dos cínicos que se aproveitam por trás dopano e bem apoiados enter si. E que, sem dúvida, nos dão asco.

-Luísa

quinta-feira, 26 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap 41




Zé, da conversata entre o inspector e tu, deixando de lado os galhardetes e o repetirem o que já sabemos, aquilo que me ficou na ideia é o ele referir que tens um dossier aberto na Judiciária. E que é bem antigo. Que a polícia anda com os Maragato debaixo de olho desde muitos anos. E se me tranquilizasses um pouco? Não seria mau do todo. Sei que desejas eu estar a Leste dos teus assuntos, mas fazer de boneca de borracha não é bem do meu feitio.

Não fervas antes de tempo. Já te disse e repeti que o melhor, para ti, é saber pouco das minhas andanças. É uma questão de prudência e bom senso. Pouco a pouco irás conhecendo as linhas com que me coso e que aprendi do meu pai e do avô. E ouviste que eles não deixaram pontas soltas.

Acontece que eu tenho interesses muito variados. Sou mais aquilo que te disse em tempos: UM FACILITADOR. Ou seja, eu preparo encontros, abro caminhos, coloco as peças no tabuleiro e depois sou remunerado escrupulosamente, pois os meus “clientes” sabem que podem voltar a precisar de mim. Aqueles que decidem mijar fora do testo, como se diz na gíria, depressa descobrem que erraram.

Um exemplo. Com a minha rede de conhecimentos, que insisto teve início nos tempos da monarquia espanhola, sei de muitos projectos muito antes do que os que depois se mostrarão interessados. Se o tema meter terrenos, por exemplo, eu procura comprar ou dar sinal de compra antes que outro se decida. Se o projecto pifiar, então me encarrego de incitar outra entidade para que, no mesmo local, tome a dianteira ou oriente uma outra actividade. O que é preciso é não perder a iniciativa nem o rendimento que nos cabe.

Nunca saberás que eu tenha muitas propriedades rústicas, a não ser na periferia das cidades. E estas muitas já as herdei dos Maragatos já falecidos, que mostraram ter uma visão de futuro. Prédios e naves industriais são sempre investimentos de valor. Só preciso de ter calma e colocar umas dicas no mercado. Rendem sempre, e sem passar totalmente pelo fisco, mas sempre deixando um bom punhado de milho para os pombos. Só quem insiste em ter a totalidade no seu bolso é que se encontra com que os bolsos rompem.

Imagino que não ficaste totalmente esclarecida, e nada satisfeita. Prometo que não tardarei em te contar um caso concreto. Isto é como o comandar uma nau. Temos que manter os olhos sempre abertos, pesquisar além do horizonte e ter uma tripulação (deves ler uma equipa de colaboradores) satisfeita e fiel. Sem um apoio forte mesmo ao pé, e na retaguarda, um capitão não se aguenta. Tem que se antecipar aos temporais.

E o perigoso da situação com estas mortes perto de casa é que pode ser uma táctica de um concorrente. De algum que me quer tirar o lugar. Por existir esta possibilidade é que tenho estado em contactos, muito discretos, com pessoas de confiança, uns da alta roda e outros da malandragem. No intuito de não os deixar avançar demasiado, a todos eles deixei, dito em entrelinhas, que se encontrar um traidor não aparecerá nos meus terrenos, que do lado do Buçaco ou mesmo na Serra de Montesinho, sem descartar o Gerês, existem lindos e tranquilos lugares onde e pode descansar.

Entretanto estou mexendo os cordelinhos para me adiantar à PJ, pois se eles tem acesso à Interpol, também pecam de lutas intestinas entre as diversas forças. É a diferença entre uma estrutura com uma só cabeça e o esquema oficial, com muitos departamento estanques e muita gente a querer ser o maior. Veremos quem chega lá primeiro. Não quero uma medalha, só quero parar estes atrevidos. Que vão chatear aos espanhóis, ou aos franceses e italianos. Por cá eles confiam na lenda de que somos moles, que sofremos dos brandos costumes. Tal vez se enganem. Não seria a primeira vez que levavam nos cornos.

E agora, mesmo que vigiado, acompanho-te até Aveiro e dali darei uma saltada ao Porto. Passarei a recolher-te no salão ou noutro sitio que me indiques, antes de ir jantar a casa. Portanto, terás que falar com a Idalina para que prepare uma sopinha caseira e qualquer coisa leve, que demasiadas calorias já enfardamos nestes dias.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 40

    - Não dei pela tua chegada, mas como me avisastes de que dormirias no Astoria, deixei-me dormir tranquila. Levantas-te-te cedo e daí imaginar que o tal serão de trabalho não foi muito prolongado, ou então que alguma ocorrência te fez sair da cama mais cedo do que o habitual.

  • - As razões foram duplas. Por um lado os temas que tinha a tratar estavam em bom andamento e depois senti que estava a ser seguido, e num caso destes o melhor é fazer de conta que não se deu por isso, mas reduzir as actividades no mínimo. Ou muito me engano ou esta manhã teremos uma visita oficial. Daí que te peço que te arranjes com uma certa celeridade e te prepares como se estivesses prestes a partir de viagem,por exemplo para Aveiro 

  • De facto convinha que desse um salto à capital do distrito; mas antes aguardarei a tal visita que prevês esteja quase a chegar. Vou dizer que me sirvam o mata-bicho na saleta. Até que convêm ver se a ajudante que contratei par aliviar a Idalina, que não tem idade para muita coisa, mas vale muito pela sua veteranice e dedicação. Quero ver como esta Amélia se desenrasca. Tive-a em observação quando da preparação do almoço, na atenção ao pessoal e recolher de pratos e copos, e me pareceu ser aproveitável. Parece ser uma moça educada, séria e com vontade de se adaptar aos nossos hábitos.

  • - Senhor Doutor, está um cavalheiro na sala de entrada, que eu recordo ser um dos convidados no domingo passado. Fica ali especado ou mando entrar?

  • - Deixe Amélia, eu vou atender.

  • - Zé, pareces bruxo!

  • - Olá Dr. Cardoso, faça o favor de entrar, estávamos num tranquilo pequeno almoço, mas a sua chegada sempre ajuda a quebrar este isolamento que pesa num casarão deste tamanho, sem filhos nem netos que acompanhem. A que devemos esta visita?

  • - Lamento que esta vez eu venha em missão oficial. Preferia que fosse por gentileza, e precisamente em sua atenção, Senhor Maragato optei por passar pela sua casa em vez de o convocar para uma presença, mais séria dizendo assim, na sede da PJ em Coimbra. E até que poderia ter sido fácil esta convocação, dado que soube que o Senhor esteve na cidade ontem, pelo menos durante a tarde e até depois de jantar. 

  • Não se admire de nos sabermos dos seus passos. Já sabe que a polícia só descarta alguém da lista de possíveis suspeitos depois de conferir e votar a conferir. De qualquer forma, e como o amigo Maragato deve saber, pois não é nenhum tolo, os Maragato tem uma pasta em vosso nome que já foi aberta no fim da monarquia. Sem que conste nela  terem aberto nenhum processo. Nem sequer uma multa de trânsito.

  • Indo para adiante. O terem colocado outro morto, que estamos certos de ter sido assassinado, nos seus terrenos e no mesmo local do que o anterior, nos obriga a ter uma conversa com o proprietário, mesmo que a nível de testemunha indirecto. Pois que, atendendo às circunstâncias, não se sinta que o Maragato seja culpado. Daí que por respeito e atenção, que desde o primeiro encontro me mereceu, pensei que uma conversa, até certo modo informal, poderia ajudar a vislumbrar o macabro panorama.

  • - Dr. Cardoso, tenho que agradecer a forma como me abordou, e dado que não temos testemunhas inconvenientes, a não ser, se me permite, a minha esposa, sua conhecida, apresentarei a minha visão quanto a este mais recente desacato, para não ser mais agressivo no adjectivar. 

  • Sem pretender ensinar a missa ao vigário, esta atitude com o segundo cadáver parece-me, além de um desafio duplo, a mim, sem ter entendido o porque, e também às autoridades. Além disso, a meu ver, mostra a mão de uma organização criminosa, pois que plantar este morto no mesmo local, e com pormenores de que nós ainda não falamos, mas que alguns deles já me chegaram aos ouvidos, há aqui uns avisos que mais parecem ter saído dos relatos de actividades mafiosas. Não são próprios dos hábitos tradicionais na nossa população. Que temos que admitir nem sempre se portam como anjinhos de altar.

  • - Amigo Maragato. Mais uma vez me mostrou uma percepção e análise quase que de profissional. Pelos vistos entendo que já tem algum indício de a quem corresponde este falso enforcado, e das suas palavras deduzo que sabe terem-no mutilado, na língua e no sistema urogenital. Daí que partilho consigo que estas mutilações, mais os sinais de tortura que encontramos no corpo, mostram que por um lado queriam saber o que procurava e possa ter encontrado este homem, E por outro lado mostraram que não querem linguarudos em volta do assunto. E mais nos dizem, que o castrarem depois de morto, como deixou escrito o médico legista, era mensagem endereçada aos invertidos. Os assasinos se gabam de serem machões!

  •  - O Doutor Cardoso tirou-me as palavras da boca. Sei, por ser dos livros, que deve ter informadores. As polícias sempre tiveram ajudas de colaboradores voluntários ou gratificados e também imagino que nem tudo aquilo que vos “vendem” serve, Mas na investigação é basilar ouvir, perguntar, conferir e voltar a procurar. Se eu fosse polícia estaria sempre jogando com vários baralhos. Isso por influência dos muitos romances policiais que li desde o liceu até já bem adulto. São formativos e os recomendaria.(1)

  • Seja como for, caso o Dr. entender que devo comparecer na vossa sede em Coimbra, sempre e tanto que possa entrar e sair sem ser com grilhetas, estou evidentemente disponível. Até pode ser que, para cumprir as regras internas que possam existir, mas que obviamente eu desconheço, convinha que a minha presença fosse notada. Até podia ir lá para denunciar o insulto de que nos sentimos vítimas, feito por desconhecidos.

  • - Tudo pode ser, Senhor Maragato. Por enquanto eu farei um relatório interno do que comentamos. Não de tudo e com os pormenores que são claramente de índole reservada, pessoal. Os meus superiores gostam muito de relatórios... Agora volto para o local da provocação, pois que nos parece ter sido noutro sitio onde cometeram o assassinato, dado que não encontramos o fluxo de sangue que era de esperar. E não o convido a me acompanhar, por razões que sei entende e escuso de discriminar.

  • - Se me permitem darei a visita por terminada. Minha Senhora, Dona Isabel, que esteve pacientemente nos acompanhando, muda e atenta, os meus respeitosos cumprimentos.

  • - Eu o acompanho. E não o abraço em público pelas mesmas razões que apontou.
  •    
(1) A.A. Fair, Agatha Christie, Ellery Queen, Georges Simenon, Mickey Spillane, e outros.