sexta-feira, 20 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – cap. 37



TUDO OK – salvo o novo caso

Decidimos parar para respirar e confiar em que as decisões tomadas nos levariam a bom porto. Continuar a bater ferro,estando já frio, seria contraproducente. E além de mais ESTAVAMOS FARTOS, e convencidos de que os seguidores ainda mais ENFASTIADOS do que nós. Daí que passamos para a frente e farei eu, Isabel, o relato dos acontecimentos.

Chegou o dia e compareceram oitenta e tal pessoas. Uns convidados e outros penetras. Mas nestas coisas não se pode ter um porteiro como era a do Frágil. Surpreendentemente vieram os dois filhos do José e da falecida Constança, ambos acompanhados, tanto a parceira do Bruno como o acompanhante da Luísa, além de bem parecidos e educados, mostraram-se amáveis e afectuosos para mim, e simpáticos para os desconhecidos, que eram a imensa maioria.

Os dois amigos advogados de Coimbra, também aceitaram o convite, e com duas brasas de tirar os soluços aos mais impressionáveis. Não ficava atrás a companhia do Inspector Dr. Sílvio CARDOSO, que ao chegar pediu ao José que tentasse evitar ser apresentado como Inspector da PJ, pois veio a título pessoal. O José fez sinal ao Presidente Aníbal MEDEIROS, que trazia atrelada a sua esposa Noémia, para lhe transferir o pedido. Beijinhos da praxe.

Também veio o meu irmão Óscar, mais uma companheira que se identificou como Ruth, que trazia pendurado, ou melhor dizendo, pela mão um menino que, após lhe perguntar, me disse ter quatro anos e se chamar Carlos Manuel (outro Camané na forja!). A azáfama não deu para saber se este Carlitos era filho do Óscar ou vinha de uma fornada anterior. Teremos tempo, depois de tantos anos sem sabermos uns dos outros.

As minhas convidadas dos salões, radiantes, cabelos de revista e fatiotas de virar os olhos. Foram mais simpáticas do que eu mesma imaginava, mas tinha-as treinado no trabalho para isso. Por isso não podiam deixar de sorrir e dar beijinhos a torto e a direito. A Ivone não me largava. O que notei, sem esforço, é que os homens da terra, que nenhum se atreveu a comparecer sem trazer a sua guarda-costas, não tinham olhos a medir. Esta reunião “social” vai ser, sem dúvida, recordada durante bastante tempo.

Tal como previsto, quando chegavam os convidados eram atendidos pelas empregadas e empregados que trouxe a Dona Gertrudes, carregando bandejas com canapés, bolinhos de bacalhau, croquetes e rissóis, tudo em tamanho mini, outros com copos de verde fresco, cerveja para os clássicos e sumos para as senhoras tímidas. Como quem não quer deixei cair que tudo aquilo e mais os salgados que viessem no bufete, eram decisões da Dona Gertrudes, dona da restaurante A CALECHE, a quem depositei a minha inteira confiança e que me prestou uma inestimável ajuda.

Entretanto e como é habitual, foram-se cruando pequenos grupos de pessoas afins, uns conhecidos de antes e outros curiosos, desejosos de beber as palavras daqueles desconhecidos, alguns foram marcando os lugares que desejavam, com casacos, malas, echarpes, o que tivessem à mão. E chegou o aviso de que as travessas estavam no balcão e não convinha deixar arrefecer. Foi uma corrida à Carlos Lopes e à Rosa Mota . Os empurrões e cotoveladas poderiam ter sido mais, não fosse a previsão da Grande Chefe do Caleche que mandou situar de três a quatro travessas do mesmo petisco, distribuídas pelo balcão. Ao todo, então contei, eram de seis a oito pratos diferentes. Algumas das travessas tiveram que ser reabastecidas mais do que uma vez.

Fui à cozinha para comentar com a Dona Gertrudes se tinha precavido, ao que me respondeu que estava habituada a casamentos e saber como eram glutões se houvesse coisas de que gostavam e que nas suas casas raramente, ou nunca, apareciam na mesa. Ali dei com que uma das minhas empregadas, precisamente a recepcionista Sofia, tinha vestido um avental e estava lavando pratos, copos e talheres. Disse-lhe ao ouvido que ela, ali, era uma convidada, com a mesma categoria das outras que por aí se vangloriavam. Que tirasse o avental e se apresentasse na mesa para almoçar. Mesmo assim eu, pessoalmente, agradecia a sua boa vontade, e que também tinha visto que as outras suas colegas deram uma mão quando as coisas estavam com pressão.

Só terminaram de “enfardar” quando as travessas vazias já não regressavam com reforços e se anunciou a chegada de fruta, doces e café. Então, levantei-me da mesa donde estavam o Presidente, os advogados e o inspector, pedindo silêncio a fim de poder manifestar a minha satisfação e dever de amizade á Dona Gertrudes. Surgiu uma espontânea salva de palmas, em pé e com gritos de obrigado, parabéns, vivas. A Gertrudes veio agradecer e demos um abraço com mutuo sentimento. O José também quis um abraço (invejoso!), por não poder abraçar, em público, algumas das belezas que nos rodeavam. Bem gostaria ele, e não se ficaria pelo abraço. Se eu não o conhecesse.

Após bolos, que não sei como os conseguiram engolir, de tão cheios que todos deviam estar, e mais o café, o José e eu fomos convidando os casais maisbrepresentativos para entrarem na mansão do falecido Comendador. Naquele momento eu senti-me uma usurpadora, uma intrusa. Quem devia estar a fazer as honras da casa era a filha do Comendador, a Dona Constança. Mas o mundo dá voltas sem parar e tive que ocupar eu o lugar da falecida.

Levamos as visitas aos salões, reservando um canto para os fumadores, pois que dentro da casa as leis não se aplicavam com excessivo rigor. Para os deixar à vontade havia mesas de apoio entre os sofás e cinzeiros de grande capacidade, além de uma caixa de charutos cubanos, que o José referiu, com ar de gozo, "sirvam-se sem se cohibirem, pois são mesmo Cohibas.

Mesmo assim deixei a porta da varanda aberta. Acompanhei as senhoras para as casas de banho e mandei servir café, para quem desejasse, cognacs franceses, aguardentes nacionais, licores e tudo aquilo que o José se encarrega de manter na sua garrafeira particular.

E nesta estávamos quando

REBENTOU A BOMBA. TEMOS TROVOADA!

Ouvimos bater, desalmadamente, à porta e a Idalina, em passo de corrida, foi ver quem era. Regressou muito séria, assustada mesmo, fazendo sinal ao José para que se chegasse sem companhia indiscreta.

-Ai, menino José, diz aqui o rapaz que nos seus terrenos, mesmo ao lado da cova onde encontraram aquele morto, está um homem enforcado num carvalho. Mandaram-no montar na sua BTT para avisar os patrões e de seguida telefonarem à Guarda para que compareçam a dar conta da ocorrência.




quinta-feira, 19 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 36




  • Parece que o grosso das questões já está em andamento. Só estamos encravados com a falta de resposta de algumas pessoas. Eu já falei com o Óscar e respondeu que virá com a sua companheira, ou mulher legal, não fiquei esclarecida sobre este pormenor, que é de somenos. E tu, já sabes dos teus filhos? E dos advogados, mais a hipótese do inspector da PJ?
  • Os advogados, como tu lhes chamas, responderam que serão uma dupla presença garantida, e até “ameaçaram” com a possibilidade de virem com companhias femininas, pois, segundo dizem “elas” apreciam conviver com rústicos. Espero que não lhes saia o tiro pela culatra, pois os que consideram de rústicos não são tão parvos como muitos urbanos.
  • Quanto ao inspector não lhes deu nem sim nem não. Julgam que deve estar na situação de ponderar se no meio dos naturais da zona, depois de bem comidos, possa encontrar quem se descaia com alguma pista. Não aposto nisso, nem tampouco em que se exponha a conviver com os inquiridos. E, por outro lado, neste crime admitem-se movimentos que não é prudente vasculhar.
  • Os meus filhos continuam a mandar bolas fora. Apostaria em que darão desculpas esfarrapadas de última hora a fim de justificar a sua “impossibilidade”. A última palavra, mais uma vez, caberá às senhoras que decidem pelos parceiros. E como não conheço a do Bruno, mas sei que a Luísa é menos transparente do que ela nos quer convencer, estes dois casais teremos que os incluir na conta dos lugares para imprevistos.
  • Seja como for,já ultrapasamos os sessenta lugares sentado, e creio que o mais prudente é apontar para uns possíveis setenta e cinco.

  • Já vistes as mesas da Junta?. A arrumação possível depende muito do tamanho e dos lugares que cada mesa comporta. As mais prácticas são rectangulares, que se podem associar em fila ou isoladas. As redondas limitam as escolhas. Era bom que pudesses dar um salto à Junta para nos orientarmos melhor. E como já ficou decidido servir em bufete serão necessárias mais umas mesas, que se colocarão corridas dando um lado para o serviço e deixando o outro para os convidados se abastecerem. Isso deve corresponder a uns oito a dez metros e mais uns oito na retaguarda.

Não nos lembramos das instalações sanitárias. Tens alguma ideia? Nem que seja para lavarem as mãos! Não creio que tenhas tempo de encomendar uma instalação nova, com trabalho de pedreiros e canalizadores, mais electicista. A propósito,diz-me como correu a conversa com o chefe dos serviços da Junta.

Tenho que voltar à Vila para deixar as indicações de funcionamento dos salões e, também, para ver se temos que tratar de toalhas para as mesas e talheres, copos e outros utensílios. Caso a Dona Gertrudes da Caleche não disponha do total de peças de faqueiro, vidros, loiças e atoalhados, combinarei que se comprem, a nosso encargo e para ficar de reserva na mansão. Só faltará decidir se vou eu às compras, se a Gertrudes que ser ela, ou se vamos “ambas as duas”

Para os cafés já está contratada uma cimbalino profissional, e e equipamento de cozinha. Tudo sob a orientação directa da dita Gertrudes, popularmente “Trudes”.

Creio que temos que aceitar a proposta da Caleche quanto aos doces e frutas de sobremesa. Tinha pensado encomendar numa pastelaria profissional, mas nem sequer me atrevi a referir esta ideia à Gertrudes, com receio de que se melindrasse. Não nos convêm nada que a senhora se ofenda. Por isso é pertinente andarmos sempre com muito cuidado. Com pés de chumbo, como usavam os mergulhadores não autónomos.

Pois eu digo que esta trapalhada em que me meti nos deixa estafados. O corpo pede uma folga. Ir até Coimbra e entrar num teatro ou num cinema, mas teremos que aguardar a que passe este temporal em que nos meteste.

Deves estar com a boca seca de tanto falar, e o telefone já está ao rubro, coitado. Eu já mudei três vezes de ouvido. Ah Ah Ah. Mas vamos ao que interessa. O capitão dos faíscas prontificou-se a dar a ajuda que pudesse ser possível; mas não tem muito pessoal disponível nesta altura. Já vi por onde orientava o seu choradinho. Por isso levei a conversa por onde ele queria e ficamos com que amanhã, ou mesmo esta tarde, viria comum oficial da sua equipa para verem o que é necessário fazer, nem que seja a título provisório. E eu acrescentei que comprassem o material necessário, em meu nome e me indicassem em que armazém teria que me dirigir para fazer contas, e também que seria óptimo que entre o chefe e o oficial pudessem contratar, para esta mini-empreitada os homens que entendessem ser necessários, atendendo a que não poderia ser feito com a calma aconselhável, mas mesmo assim cumprindo as regras do bem fazer.

A tua mais recente, e pertinente, lembrança de ter que dispor de uma instalação, dupla, de lavagem e despejos de bexiga, e não só mesmo que mínimos será coisa de perguntar a opinião deste chefe e do Ernesto, pois não posso ter este feitor posto de lado. Sei que na adega existe uma casa de banho, rudimentar, que poderá servir de base para a ampliação. E tanto loiças como portas já se encontram com facilidade, faltam as paredes e mais muitos outros trabalhos. ISTO VAI DAR CABO DE MIM E DE TI.

Seguirá no capítulo XXXVII, se tiver vida e espírito disponível.

domingo, 15 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 35


Fofoquices

Enquanto jantamos não é de bom tom falar de trabalho, e menos de problemas, pois faz mal à digestão. E se não faz, acreditemos em que é preferível guardar estes assuntos para depois. E eu prometi que daria uns exemplos das intimidades que as mulheres , nem todas é verdade, mas muitas gostam de sacudir na janela, como quem diz. Por vezes se escondem com um “diz-se por aí”, “não sei de quem se trata” e outras tácticas de disfarce tão pueris que ninguém duvida que as conhece em primeira mão.

Uma história aparentemente incrível, mas que mais tarde fiquei a saber que é mais frequente do que os bem intencionado imaginamos, foi-me contada, em privado, sem que mais ninguém ouvisse, por uma senhora muito respeitável, bem na casa dos 50 para 60, que me chamou de parte a fim de desabafar de algo que lhe pesava tanto na sua cabeça que sentia a necessidade de contar a outra pessoa, mas que fosse de confiança. Via-se bem que o assunto lhe era penoso, tão pesado que chegava a dar pena, e mais quando vi que os seus olhos se tornaram rasos de lágrimas, mesmo que ela conseguisse que não derramassem em cascata.

Disse-me ela que durante décadas aguentou a cruz por um habito do seu marido, cavalheiro que certamente eu conhecia de vista e que tinha todo o aspecto de ser uma pessoa de respeito. De estatura acima da média, sempre impecável, com boa figura e extremamente educado com os conhecidos e vizinhos com quem se cruzava.

Pois a sofredora esposa me informou que mal o marido chegava a casa, depois de largar o emprego na cidade, onde mantinha uma posição de topo hierárquico, mudava de roupa e, servindo-se do enxoval pessoal que tinha num roupeiro e numa cómoda, vestia-se, de cima a abaixo de mulher, incluindo a roupa interior, que era sempre vistosa e cara, de marcas de nomeada. Maquilhava-se a preceito e usava uma das várias perucas que guardava em cabeças de manequim, das que se podem ver nalguns cabeleireiros.

Mas jamais saia de casa com este preparo. A não ser que tivesse um outro ninho onde mudar de roupa, reservava esta dupla personalidade a mim. Por sorte não tiveram filhos! Um dia, em que não podia ficar silenciosa, engolindo a vergonha, e se lamentou desta situação, lhe respondeu que ela era feliz na sua santa ignorância pois que havia um grande número de indivíduos com este hábito. Que havia clubes. Que comunicavam entre si e conheciam-se por contactos de telefone e mais recentemente pela tal Internet. Algumas vezes reuniam-se com a desculpa de participarem em congressos ou reuniões profissionais.

Depois de desabafar a boa senhora suspirou, como se tivesse afastado um fardo das suas costas. Pediu-me sigilo e nos separamos com um afectuoso abraço. Tu és a primeira pessoa a quem refiro esta confissão. Mas não te esclareço de quem se trata, por respeito ao sofrimento de uma senhora esposa.

Outra história, que corria no salão de Aveiro era de uma desavergonhada, com boa figura, sempre bem vestida e pintada de loiro, que se vangloriava de que tendo o marido embarcado num grande navio de cruzeiros turísticos, não sei se inglês ou americano, mas certamente que navegando com bandeira de conveniência, passava longos períodos de tempo no mar, sem vir a casa.

E uma mulher, em bom estado e ardente como dizia dela mesma, não podia ficar sem ser atendida eternamente. Daí que tinha sempre um galã no activo, que se encarregava de a servir ao longo do dia. Quando o marido avisava que iria chegar, carregado de prendas, ela dava folga ao querido e tratava de apertar a sua crica.

O método que ela dizia lhe dava resultado consistia em moer um bocado de vidro, fosse de copo ou garrafa, no almofariz até ficar num pó quase impalpável, como o pó de talco. Depois misturava duas colheres deste pó num litro de água fervida e dava uma lavagem no seu interior. Era milagrosa esta receita.

E mais outra história. Bastante diferente, mas que também mete sexo duro e clandestino. Foi-me relatada de forma “sigilosa”, mas de tal modo clara e perceptível que até uma criança do primeiro ciclo era capaz de deduzir de quem se trata. Uma senhora, bonitona, com uns 30 e tal anos, casada com um político local, bem instalado na hierarquia, e que deve ter, pelo menos, uns vinte e tal anos , se não trinta, mais de idade do que ela. Aconteceu aquilo que se diz que é dos livros. Mas em grau superlativo, pois afirmam que toda a gente sabe ela ser insaciável nos afazeres de cama. Que mantêm contactos de primeiro grau com vários malandros que se dedicam às mulheres casadas.

O mais notável nesta história é que os encontros tem lugar na casa do casal, e daí que se diga que o marido é corno convivente. Chegam a relatar que sabe-se que a esposa, fiel como a balança da justiça, quando espera visita coloca um sinal no cortinado da sala que é visível da rua. Dizem que é um lenço de seda vermelha ou uma lâmpada, também vermelha, caso for de noite. Assim o esposo não entra e vai dar uma volta, sob os olhares indiscretos da vizinhança, que tanto gostam destas notícias. Quem são os membros deste casal? Como dizia a empregada da limpeza “é na sei!”

Continuará no Cap. XXXVI

sábado, 14 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 34




. Finalmente estamos outra vez cara-a-cara e poderemos contar das nossas tentativas de arrumar os problemas que nos pressionavam. Se não te importas farei um resumo, mas explícito, do que consegui arrumar.

- A seguir teve lugar umaconversa particular com a Dona Gertrudes da Caleche.  . Pedi que se sentasse connosco e expus o sarilho em que nos metemos. Foi, como sempre tem sido e previa para este caso, muito atenciosa e prestável. Não tive necessidade de pedir nada, pois avançou com a proposta de tomar conta das comidas e fechar o seu restaurante aquele sábado. FORMIDÁVEL. Irá todo pessoal da Caleche até a adega da mansão Maragato.

Practicamente lhe dei carta com total liberdade para que decidisse a ementa, mas ela entendeu, e bem, que mesmo assim era bom fazer um esquema ali mesmo. Ficamos com que os que fossem chegando seriam atendidos com uns aperitivos, uns populares e outros mais “da alta”, acompanhados de um verde leve e fresco ou refrescos sem álcool, segundo quisessem. Nada de Porto, que está um pouco posto de lado pelos nacionais ultimamente, a não ser um Porto branco seco, bem gelado. Se tu quiseres fazer um brilharete juntamos umas garrafas de Raposeira bruto.

Já tinha dito, antes desta formidável proposta, que se calhar, em vez de os comensais terem que esperar a serem servidos e porque não era possível ter um empregado para cada pessoa, como nos banquetes do Palácio de Belém, opinei que se fornecesse em auto-serviço, e assim cada um escolhia aquilo que lhe enchia os olhos. Ficou assim decidido.

Sem te perguntar já decidi que não teríamos lugares marcados, para não fazer separações nem indiciar preferências. Enquanto tomam o aperitivo irão encaixando e preparando os grupos a seu modo.

Sinceramente não sei porque motivo as pessoas se mostram tão cooperadoras contigo, ou até comigo, mas quando lhe perguntei a quem deveria pedir orçamento para reforço de equipamento de cozinha, tal como fogões, frigoríficos, etc, a Dona Gertrudes levantou a mão e disse que, tendo ela muita experiência no ramo, se encarregaria de contratar todo o equipamento necessário, e que o colocariam na adega na sexta feira.

Também ela se encarregaria de abastecer de matérias primas para a cozinha. As bebidas é que teriam que ser a nosso cargo.

Fiquei atrapalhada, apesar de muito aliviado de problemas. O mínimo que me ocorreu, para não ficar como uma abusadora sem vergonha, foi deixar na mão da Dona Gertrudes um cheque dos meus, com um montante considerável, a fim de constituir um sinal tranquilizador. Já sabemos que desde que os fenícios inventaram a moeda, segundo reza na história o dinheiro é um bom argumento para mostrar agradecimento.

E creio que, assim de repente, é tudo. Agora, entre outras coisas, é preciso que telefone ao Óscar e saber se falaste com os teus filhos, e advogados coimbrões.

Já temia que não me deixasses entrar nos NOSSOS assuntos, pois conheço bem a tendência das senhoras em se tornar donas exclusivas dos assuntos caseiros (e não só!) O destaque com Nossos não foi casual.

. Bem. O mais importante das minhas andanças foi o programa de tentar deixar minimamente decente a adega. O Ernesto creio que ficou ciente do que lhe pedi. Em princípio estou descansado.

Depois fui à junta para ver se conseguia uma orientação para melhorar a instalação eléctrica da mesma adega. Parece que amanhã terei a comparência do chefe das oficinas e verei o que me aconselha. Também consegui, sem o pedir, mas insinuei como um pedinte envergonhado, mesas e cadeiras do armazém da Junta. Mas só depois de termos o total de presenças, e pensar em mais uns oito a dez que chegassem ser se anunciar, e que poderei pedir o mobiliário que me ofereceu o Medeiros.

Não tenho apontamentos, mas ao jantar e com as tuas dicas sei que mais temas surgirão. Estou esperando por isso, mas antes um banho saberá divinamente. E com certeza que me acompanharás. Assim espero.

- Pois vamos ao banho. Antes te posso avançar que trago algumas fofoquices que soube na Vila. Certamente sabes que nos cabeleireiros as mulheres daí rédea solta ás intimidades, próprias e alheias. Dizem que, quando fora de testemunhas masculinas, são piores do que os homens.

Continuará no Cap. XXXV, onde surgirão relatos picantes.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 33




- José, por donde andas? Eu estou quase de regresso para o Vale e tratei de bastantes coisas. O assunto vai adiantando. Com sossego os temas vão-se compondo. Já estive nos dois salões da Vila, mas terei que te explicar com pormenor. Também fomos às compras de não perecíveis, e agora, a Dona Idalina e eu, mais as duas encarregadas, entraremos para almoçar na Caleche, que é o nome do restaurante típico onde comemos com o Medeiros. Quero sondar umas hipóteses com a dona, a senhora Gertrudes, pois além de a conhecer de outras alturas sempre me pareceu pessoa honesta e de confiança. Até logo. Uma beijoca.

- Estava admirado por não teres telefonado; mas também pensei que andasses atarefada com os capítulos que te atribuíste, e que agradeço a tua ajuda, preciosa. Eu já falei com o Ernesto, e ele me dará a sua lista amanhã de manhã. Entramos na adega. Aquilo é grande que chegue, mas implica bastante trabalho de limpeza e arrumações, além de que, como tu pensaste, vai ser imprescindível, além da limpeza, dar uma caiação geral. O Ernesto toma conta destas duas empreitadas, mas, vai precisar da ajuda de mais um ou dois homens, que ele mesmo escolherá. Daqui a pouco vou cair na Junta para falar como Medeiros, em especial para lhe pedir opinião,ou ajuda, quanto ao reforço de potencia na adega, pois que ali há umas miseráveis lâmpadas penduradas que, à noite devem fazer ver fantasmas e blisómens, como dizem os do campo

À noite telefonarei aos meus filhos, para marcar presença e lhes falar no almoço popular. Se eles quiserem aparecer, sem que isso os dispense da tal prevista reunião familiar, teremos muito gosto de que nos acompanhem, mas nada de obrigação. Entendes? E tu, deves ir tentando falar com o teu irmão Óscar.

- Amigo Medeiros, pode atender-me como Presidente da Junta?

- Com certeza, Amigo Maragato e em primeiro lugar como pessoa amiga que é, depois, também como Presidente da Junta naquilo que lhe puder ser útil. Para si, esta porta admito que estará sempre aberta.

- Obrigado e uma bacalhauzada de cumprimento.

- Já tenho aqui uma minuta como nome dos que me acompanharão; só tive que inserir mais um por causa dos melindres. Trata-se do chefe das oficinas, um tal Camilo Pereira, que é homem que se sente muito importante e é, pois dele depende o funcionamento de muitos sectores imprescindíveis. O pessoal da ferrugem e das faíscas são bastante ciosos das suas capacidades.

- Foi bom o Medeiros ter-se lembrado a tempo, pois aquilo para que lhe venho a pedir orientação pode ser que vá tocar nos serviços deste seu funcionário, que provavelmente é mais antigo na casa do que o próprio Medeiros. Acontece que depois de analisar os múltiplos capítulos que é necessário decidir e afinar, além de que recordando que situação na origem esta a promessa de uma adiafa como complemento compensatório ao que paguei pelo trabalho de limpeza da mata, nós, o casal, concordamos em que se o almoço de convívio se pudesse fazer no nosso terreno era muito simpático.

E creio que já lhe falei na hipótese de aproveitar a antiga adega, que por ora está practicamente inactiva, mas não totalmente vazia. Hoje mesmo estive no interior, mais o nosso feitor, e combinamos a necessidade de fazer uma forte limpeza geral, uma arrumação das alfaias, deitar fora o que não servir para nada, nem para se mostrar como antiguidade, e darem uma caiação geral. Como imagina há trabalho para uma equipa de esforçados trabalhadores. O feitor se encarrega de organizar este pequeno exército.

E, em complemento, pensamos em que não podemos confiar no facto de que os dias já estão mais longos. Todos sabemos que depois de um repasto agradável -que esperamos seja- as conversas são sempre demoradas e não é de bom tom abrir a porta e dar a entender que queremos que o pessoal se despache para a sua vida. Não se pode convidar ninguém com prazo certo; não é um contrato de trabalho. Posto isso temos que garantir uma iluminação capaz, e até o ter potência para um bom frigorífico, mais uma arca de refrigeração, uma máquina de café quase profissional e um par de micro-ondas se forem necessários. Tudo isso tem que funcionar com garantia de que a rede da adega aguenta o consumo, ou a carga sendo mais correcto.

E para nos precaver, antes de procurar um especialista na Vila ou em Aveiro, pode ser de boa política pedir a opinião do vosso Camilo Pereira, se a si lhe parecer bem. Se este senhor estiver disponível, amanhã a uma hora que ele determinar, gostosamente o viria procurar e o acompanharia ao local “do crime”. Nada de confundir com o crime do já identificado desgraçado.

- Meu caro amigo, isto é mais do que normal. Vou já ligar para as oficinas e veremos se podemos contar como Pereira. Mas antes de que o Maragato siga para os seus pequenos ou grandes afazeres derivados da sua prometida adiafa. Caso seja esta a primeira vez em que se meteu a organizar um ágape para bastantes comensais, já deve estar vendo que está metido numa camisa de onze varas.

- É precisamente o que dizemos um ao outro, lá em casa.

- Por isso quero perguntar-lhe se, por acaso, tem mobiliário, digamos mesas e cadeiras, suficientes para sentar a tropa toda, pois se for necessário teremos muito prazer em ceder algum do equipamento que temos em armazém, que nos tem servido para mobilar o pavilhão em ocasiões semelhantes.

- O Amigo Medeiros parece que adivinha. A Isabel e eu já pensamos em se deveríamos alugar mobiliário a uma destas agências que preparam casamentos. Mas, segundo nos informaram estes empresários querem todo o serviços completo, até propõem erguer uma tenda! Acontece que a Isabel prefere encarregar-se pessoalmente da ementa de comes e bebes, sem depender de estranhos, e de encomendar, por separado, os serviços pontuais para os que não temos habilitações nem equipamento. Logo que fale com ela, e saibamos o total de presenças procurarei o amigo Medeiros e se for factível possivelmente aceitarei a sua oferta.

Continuará no Capítulo XXXIV


quinta-feira, 12 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE . Cap. 32



- Este toque que nos interrompeu era do Medeiros, ou seja o Presidente da Junta. De entrada me informou que a seu ver uma adiafa não serve de justificação para convidar entidades. BOA NOTÍCIA! E por isso o meu receio de provocar melindres fica arrumado na cave. Também me disse que ele mesmo escolheu, no máximo, de três a quatro elementos para o acompanharem, o capitão dos bombeiros, o mestre da banda e dois membros do seu “estafe”. MAIS BOAS NOTÍCIAS. A coisa começa a compor-se, e hoje vejo quanto estávamos a exagerar.

Mas outras notícias são incomodas, por assim dizer. Disseram-lhe que andou pelo Vau, e até pela Vila, um sujeito bem falante mas com maneiras tão educadas que se tornavam esquisitas, que perguntava sobre o que se sabia, entre a população, do cadáver da mata. Não quis aprofundar nisso, mas cheirou-lhe a que seja um membro do clube dos gays. Recomendou-me que, caso me procurassem, não lhes desse muita conversa.

- Eu? Esteja tranquilo, Amigo Medeiros, sou especialista, quando quero, em mandar bolas fora. Não tenho nada que me ligue a este clube. Só lhes desejo, de boca calada, que vivam a sua vida com sossego e que não incomodem nem sejam incomodados.

- Pois eu também creio que está à altura de voltar ao princípio, com alguma sensatez. Se não te parecer mal adiamos a reunião com primos e filhos para um almoço em família, sossegados quanto baste. Assim como é sensato que nos deixemos de acções de cariz política-social, pois não creio que com esta iniciativa, tão descabida e isolada, conseguíssemos mudar nada de nada. Importante é que O QUANTITATIVO DE PRESENÇAS VAI-SE REDUZINDO !

Tens que falar com o feitor Ernesto e dizer que tens uma certa urgência em saber com quantos ele entende que devemos contar, sempre que ligados ao trabalho da mata. Em princípio desde próximo sábado a oito dias.

De qualquer modo creio que podia ser interessante conseguir que os teus advogados-amigos, e até o notário (que pode ser útil mais adiante) venham para nos acompanhar e fazer núcleo com o grupo da Junta. Veremos o que te dizem de Coimbra acercada disponibilidade do Inspector (até pode ele pensar que a possibilidade de falar, de certo modo abertamente, com a malta da terra lhe pode dar alguma pista. Nem que seja o de lhe contarem da tal visita inquiridora não oficial) Penso que não perdes nada em referir este alarme que corre pelo lugar do Vale e que eles podem deixar cair como quem não quer. Mesmo que ele tenha bufos por aí, é bom mostrar que andas a par.

- Já mandei recado para que o Ernesto venha falar comigo. E entretanto ligarei agora mesmo aos meus amigos de Coimbra. Parece-te mal que eles tragam dois ou três colegas conhecidos? Sabes que a malta de Coimbra sempre está desejosa, como Jesus e os seus companheiros, a participar em comezainas bem regadas.
- Por minha parte tudo nos conformes. Só peço, em troca, Ah! Ah! Ah! Que esta tarde possa ir até a Vila e convidar as duas, ou quiçá quatro, senhoras do meu negócio. Lhes direi que devem vir vistosas, sem exagerar “demasiado”, para deixar os parolos de boca aberta, mesmo sabendo, por ter visto, que as damas do campo, dos lugares e Vilas, quando se dirigem para casamentos e baptizados mascaram-se com exagero. Chegam a ser ridículas, elas em especial. Mas são sintomas de evolução social, pelo menos a nível mental, ou pelo propósito de imitar as farpelas dos migras, que vem propositadamente nestas ocasiões, muito “bem arreados”.

- Creio que destas presenças já estávamos de acordo. Venham elas. São as tuas damas da corte. Quanto ao teu irmão gostaria que se sentasse na mesa com os meus filhos. Tem que ser bem recebido. Não tem culpa nenhuma de ser só meio irmão teu. Gostaria que se integrasse e tratarei da falar com ele em privado.

- Até aqui já avançamos alguma coisa daquela lista. Mas temos que nos sentar, com calma e “picar” os capítulos que cada um de nós encontrou. Eu já fiz um esboço. Quando te aparecer o feitor Ernesto será oportuno abrirem a adega e ver o que é preciso fazer para a tornar minimamente aceitável. Se por lá encontrares alfaias antigas e máquinas de lavoura, manda que as limpem e abrilhantem com óleo de motor e as coloquem à vista, sem impedirem a circulação. Está na moda expor estas velharias, e quem não as tem compra-as! Não te esqueças de, quanto antes, tratar dum electricista capaz. Nestas alturas andam bastante atarefados com compromissos anteriores. Lança um cabo ao Medeiros, que ele pode saber com quem poderemos confiar. Toma nota de tudo!

Eu vou dizer à Idalina que, depois de almoçar, se prepare para irmos juntas ás compras na Vila. E por lá tratarei de saber com que empresas é hábito contratarem para as festas de casório. Se calhar não é necessário ir até Aveiro nem a Coimbra. Mas não contratarei nada disso.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

CRÓNICAS DO VALE – Cap. 31




Isabel, estou cansado e não tenho cabeça para continuar esta conversa. Cada vez vejo a bola de neve maior e isso não é práctico. Creio que o mais prudente e até funcional será tomar um duche quente, caminha e dormir sem mais e amanhã tentaremos distribuir as tarefas de que sentirmos ser capazes, e ver quem poderá encarregar-se das outras. Para já, amanhã será um dia de telefonemas e decisões,ou de preparar o terreno para poder chegar a decisões favoráveis. Boa noite, querida Isabel.


- Só poso concordar com esta demonstração de sensatez. Vou-te deixar ir ao duche em primeiro lugar, pois eu,com os cuidados de pele e cabelo necessito mais tempo. Aposto que quando eu entre na cama já estarás ferrado no primeiro sono. E por isso deixo-te com um até amanhã, meu  comandante. Vamos a uma beijoca!


- Bom dia, Ninfa do Mondego -era a marca de um tónico capilar que o meu pai usava, mas que já não se encontra no mercado- Estive esperando que acordasses para tomar o mata-bicho em conjunto, mas estou a cair de fraqueza. Para aproveitar o tempo, e porque aqui nesta casa não chegam os jornais, estive escrevendo os pontos de que me lembrei. Ou seja, aquilo que colocaste como assuntos a tratar e decidir. O mais provável é que tenha esquecido alguns dos mais importantes. Mas conto contigo para recordares e completar a lista.


- A Idalina já nos ouviu. Não tarda a bater à porta com o pequeno almoço, que eu lhe disse tomaríamos nesta mesinha, tal como fazia a minha mãe, antes de se enfiar no seu espartilho, que ela chamava de cinta elástica, como de facto era.


- Bom dia meus senhores. Dormiram - Como anjinhos. Obrigada. E como cheira bem este café! O leite é caseiro? Pela nata que está à tona já sei que é da vaca de estábulo. E este pão mais os bolinhos de padaria emitem um aroma que não se encontra nas cidades. Mesmo na Vila, nem todas as padarias, e há quatro fornos em funcionamento, trabalham com farinhas de fábrica, algumas já com adição de fermentos e químicos para tornar o pão mais cheio de buracos de que uma estrada rural. Só uma padaria usa  farinhas de confiança, amassa com máquina mas junta massa da véspera para fermento; deixa levedar com sossego e coze com lenha ou gás, procurando seguir as regras dos seus pais e avós.


- Pois os vilões, que são os naturais da Vila, bem podem mimar esta padaria, que não pode vender a sua produção ao preço dos outros, que fabricam a martelo e as massas levedam à força de químicos. Mesmo assim arrisca-se a perder dinheiro em todas as fornadas. Terminará por claudicar, aceitando a pressão de entrar numa espécie de cooperativa que fabricará tudo por igual. Venderão todos a mesma coisa e passarão a ser balcões de venda. É a sina dos pequenos industriais e pequenos comerciantes.


- Quando os clientes acordem será tarde,pois os artífices de outrora terão falecido ou já não estarão para grandes trabalhos e responsabilidades. A possível solução para este padeiro conservador será a de se dedicar, quase que exclusivamente, a pães especiais e bolos tradicionais. Mas carecerá de ganhar nomeada para atrair clientes de outras zonas. E mesmo assim não garanto um êxito repentino.


- É como diz o menino José (desculpe este vício de o sentir como um rapazinho...) Os donos das três vendas de mercearias que existem no Vale estão desanimados, direi mesmo desesperados, com a quebra que em poucos anos se deu na procura dos seus artigos. Quase que só os procuram para os fiados no role, como quando eu era garota. A malta, que tanto se queixa do custo da vida, tem todos um carro e fazem as compras por junto nalgum super ou hiper da Vila.


Alguns, vaidosos, chegam a gastar gasolina até Aveiro para depois se gabarem das ofertas e de quanto compraram e pouparam! Quando de facto gastaram muito mais do que lhes custaria aviar-se numa das nossas vendas. É só vaidade e cagança! Desculpem o palavrão, mas fiquei nervosa! Voltarei para recolher o tabuleiro. Com licença.


- Já viste como a Idalina, cujos estudos devem ter ficado na terceira ou quarta classe, pois quando ela era criança as famílias dos lugares não podiam manter filhas a estudar. Precisavam da sua ajuda. Hoje pode dar aulas de social a muitos palermas que andam por aí com capa e batina.


- Dizer que o povo não presta é sinal de ignorância e soberba de quem profere tal cretinize. E mais, a responsabilidade de certo atraso é daqueles que estando em patamares superiores quanto a conhecimentos e saber, mantêm-se afastados da base da população.


- Zé. Nisto que estás a dizer é pertinente aplicar a receita de nem tanto ao mar nem tanto à terra.


- Conseguir audiência entre os habitantes dos lugares e os citadinos nem sempre é fácil. Sem ofensa intuo que. em certa maneira, se assemelha a ensinar um índio da Amazónia. O rural está historicamente escaldado, por séculos de ser dominado por uma elite, ficou visceralmente desconfiado, custa-lhe acreditar, de olhos fechados e mente blindada, quanto dos bons propósitos do “senhor”.


- Do seu lado estes carregam outros preconceitos difíceis de apagar quanto à capacidade mental dos aldeões. Falam duas linguagens diferentes e arrastam receios, justificados, de não muitos anos atrás. Digamos que não só os do tempo da monarquia como até das duas repúblicas. As guerras do Ultramar, que foram uma sangria económica e humana, sem visão de futuro, é que abriram as primeiras janelas entre letrados e rústicos, ao comerem e sofrerem juntos mal puseram os pés no terreno. E na dor e na miséria humana que se criam laços. Ver gemer e até chorar, sofrer e morrer um elemento da classe dominante o faz descer ao seu real nível de pessoa, igual ao dos outros.


Mesmo assim, quase que curadas as feridas da guerra e da ditadura, os dois lados da barricada social continuam a se sentir diferentes dos do outro lado, desconfiam e não se entendem por completo. E este atavismo só com o alargamento do acesso ao ensino é que se vai neutralizando. Até o dia em que se chegue a esbater. Ou quase. Espero que não demore muito tempo. Hoje as mudanças sociais ocorrem numa velocidade nunca vista.


- Isabel, sinto que estás carregada de bom senso e que isoladamente não se conseguem mudar os hábitos e os tais preconceitos. Mas é forçoso e até podemos apostar em que este muro, mental, que os separa vai ser derrubado mais depressa do que podemos imaginar. E com estes arrazoados comemos e bebemos tudo o que a Idalina nos trouxe, e quase que perdemos um tempo que teremos que recuperar sem devaneios.


Continuará. Quase certo..Já consegui arrumar como queria.